Estudantes boicotam inauguração de residência de luxo com Moedas

20 de março 2023 - 13:11

O autarca lisboeta inaugurou uma residência para estudantes com quartos entre 700 e 1.100 euros mensais. Federação Académica de Lisboa recusou convite para participar. Vereadora bloquista acusa Moedas de promover "negócios privados que não resolvem a crise na habitação que afeta os estudantes”

PARTILHAR
Inauguração da residência estudantil com preços de luxo em Lisboa. Foto publicada na conta Twitter de Carlos Moedas.

“Inaugurámos a nova Residência de estudantes no Campo Pequeno. Trabalhamos diariamente para aumentar a oferta de habitação: através do setor público e do privado, do setor social e cooperativo”, afirmou Carlos Moedas nas redes sociais, partilhando fotos da inauguração do empreendimento “Nido Campo Pequeno”.

E bastaram poucos minutos para que a sua conta fosse inundada de mensagens por parte de estudantes e munícipes que foram consultar os preços praticados para estes quartos destinados a estudantes.

Segundo o portal Polígrafo, os quartos mais baratos, no rés do chão e primeiro andar, com apenas 12m2 de área, são arrendados a 695 euros por mês e já se encontram esgotados. O escalão seguinte, com a mesma área do 2º ao 4º piso, também esgotaram ao preço de 705 euros.

A alternativa disponível mais barata nesta residência custa agora 735 euros e os preços vão até aos 1.096 euros por quartos com áreas de 15m2 e 16m2. Todos os quartos estão sujeitos a uma caução de 800 euros. Os preços incluem eletricidade e internet e manutenção dos espaços comuns, mas não a limpeza de cada quarto nem a roupa de cama.

Convidada para participar na inauguração, a Federação Académica de Lisboa recusou. "Recebemos convite, mas tomámos a decisão de não ir. Estes custos não são comportáveis para a maioria dos estudantes a frequentar o ensino superior", disse ao Correio da Manhã a presidente Catarina Ruivo, sublinhando não estar contra as iniciativas privadas, desde que sejam "acompanhadas de uma aposta pública a preços comportáveis".

“Vergonha”, “indecoroso”, “para que estudantes?”, “toque de moedas”, “pura propaganda”, “insulto” ou “falta de noção” foram alguns dos comentários à publicação do autarca lisboeta a congratular-se com o seu trabalho para “aumentar a oferta de habitação” para os estudantes na capital.

Na página da autarquia, pode ler-se que Carlos Moedas afirmou que “a oferta de residências como esta é importante para aliviar a pressão no mercado de arrendamento”.

No próximo dia 1 de abril, várias cidades portuguesas vão manifestar-se pelo direito à habitação. As manifestações "Casa para Viver" insurgem-se contra o aumento dos preços e da especulação no mercado de arrendamento que tornam impossível conseguir um teto nas regiões que concentram o maior número de habitantes.

Bloco diz que “Moedas promove negócios privados que não resolvem a crise na habitação” dos estudantes

Em comunicado, a vereadora bloquista Beatriz Gomes Dias afirmou que esta inauguração de uma residência provada a preços incomportáveis ”volta a demonstrar as prioridades de Carlos Moedas”.

“Ao invés de pôr em funcionamento o Programa Municipal de Apoio a Estudantes Universitários Deslocados - Viva a República!, aprovado em novembro de 2022, Moedas promove negócios privados que não resolvem a crise na habitação que afeta os estudantes” afirma a vereadora do Bloco, recordando que “em 2022 o arrendamento para estudantes teve uma contração de 80% e que o preço médio era de quase 400€”. Agora, “a situação tenderá a agravar-se em 2023 pela inação de Carlos Moedas”, prevê Beatriz Gomes Dias.