Estafetas de plataformas digitais manifestaram-se no Porto contra roubo e exploração

03 de abril 2022 - 14:14

Trabalhadores insurgiram-se contra os permanentes ataques aos seus direitos e a diminuição das remunerações. José Soeiro saudou a sua luta e repudiou o roubo destas empresas, as suas mentiras e a conivência do Governo português.

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Concentração de estafetas de plataformas digitais no Porto.

Nos últimos meses, os trabalhadores das plataformas digitais têm-se mobilizado e apresentado as suas reivindicações, na expectativa de se fazerem ouvir e conseguirem melhorar as suas condições de trabalho e as parcas remunerações que auferem.

Durante a concentração deste sábado no Porto, foi disponibilizado um microfone aberto para todos os estafetas poderem falar sobre as suas reivindicações. Foram ainda ouvidas intervenções de solidariedade por parte de Diana Ferreira, deputada do PCP, do deputado do Bloco de Esquerda, José Soeiro, da direção do Sindicato de Hotelaria do Norte, e de Nicole Santos, dirigente nacional da InterJovem, que atacou a falácia da “modernidade” e frisou que “a exploração não é moderna”, não é moderno “meter uma espécie de praça de jorna numa plataforma digital”. Estiveram ainda presentes na concentração outras organizações, que quiseram engrossar esta ação contra a injustiça a que estão sujeitos os estafetas.

Omar, que integrou a organização da iniciativa, explicou que trabalha na Glovo há cerca de três anos. De acordo com o estafeta, a empresa diminuiu o valor pago por quilómetro de 42 cêntimos para 24 cêntimos: “A empresa está a ir numa direção totalmente diferente da dos trabalhadores e da realidade económica atual do país”, perante a crescente inflação e o preço da alimentação e combustíveis “absurdamente carros”, frisou.

Omar denunciou que a Glovo “não aceita sequer sentar-se para conversar”, utiliza uma sistema que se traduz em quebras médias de 15% a 20% nos ganhos, mas que chegam a 40% e 45%, não investe em melhorias no aplicativo e tem degradado cada vez mais as condições de trabalho. Acresce que a empresa não faculta qualquer forma de contacto, o que impede os seus trabalhadores de reivindicarem os seus direitos. Na verdade, a Uber “faz o que quer e quando quer”.

Ao mesmo tempo, os trabalhadores “perdem ganhos e condições de trabalho”, a favor dos lucros da plataforma digital.

“Tudo melhora para a Glovo, e eles ainda têm coragem de dizer que perdem dinheiro”, apontou.

Um dos “estafetas mais antigos da Uber no Porto”, Manuel Sousa, afirmou que se está “muito mal” na Uber: “Trabalhamos muitas horas para ganhar muito pouco” e “ninguém nos dá apoio, ninguém nos acompanha”, lamentou.

O estafeta acusou a Uber de “roubar dinheiro aos trabalhadores”, já que se “compromete a pagar uma coisa e depois não paga”.

Também Maciel Borges denunciou o descaso das empresas para com os seus trabalhadores e reivindicou um “reajuste digno e justo” das remunerações.

Contra o roubo, as mentiras e a conivência do Governo português

José Soeiro saudou a luta, o exemplo e a coragem dos estafetas.

“Estamos aqui contra o roubo que estas plataformas vos fazem”, vincou. E, de acordo com o deputado bloquista, o roubo surge no valor pago por quilómetro, no valor pago pelas entregas, roubo no tempo quando os estafetas estão à espera de um pedido, tempo que também deveria ser pago, roubo nos direitos, na proteção no desemprego ou quando têm acidentes de trabalho, nos seguros de acidentes de trabalho que as empresas não fazem, na ausência do direito a férias, que não lhes é reconhecido, na assistência à família.

“Estamos aqui contra o roubo dessas multinacionais que têm lucros astronómicos feitos à custa do vosso suor e do roubo que fazem do tempo de do trabalho”, afirmou José Soeiro.

“Mas estamos também aqui contra a mentira”, continuou. “O que estas empresas fazem é fingir que não são as vossas empregadoras, é fingir que não têm responsabilidade de vos fazer um contrato, é fingir que não têm a responsabilidade de pagarem a parte que lhes cabe das contribuições à Segurança Social”, explicou o dirigente do Bloco.

E é “a mentira de elas fingirem que, em vez de haver um patrão, há um algoritmo, um algoritmo escondido, em que, se vocês têm de fazer uma queixa, não têm uma porta onde bater e nem uma pessoa com quem falar”.

“Porque eles se escondem atrás de uma aplicação, atrás de um algoritmo que é injusto, que é discriminatório, e sobre o qual vocês não têm nenhum controlo, e em relação ao qual não existe nenhuma transparência”, avançou José Soeiro.

Não só o deputado se insurgiu contra o roubo destas empresas, e contra as suas mentiras, como também repudiou “a conivência que tem havido por parte do Governo português, que tarda em fazer uma legislação que obrigue estas empresas a assumir responsabilidades e que reconheça os direitos dos trabalhadores”.

“Contra a conivência de um Governo que, no caso das plataformas de transporte, fez uma lei à medida dos interesses da Uber”, acrescentou.

No Parlamento, o Bloco “já entregou, já discutiu, e voltará à carga”, com uma lei para reconhecer os direitos laborais dos estafetas e para reconhecer o direito ao contrato de trabalho também dos motoristas das plataformas de transporte de passageiros.

“Faremos essa luta, interviremos e usaremos todos os meios ao nosso alcance para defender esses direitos”, garantiu José Soeiro.

“É a vossa luta, é o que vocês estão aqui a fazer hoje, é a vossa presença na rua, é a visibilidade que estão a dar a esta luta pela justiça que poderá fazer a diferença e por isso queria agradecer-vos o vosso exemplo e dizer-vos que viva a luta dos estafetas, que viva a luta dos trabalhadores das plataformas”, rematou o deputado.