Covid-19

Esquecer para sobreviver

20 de julho 2025 - 16:29

Desde que a crise pandémica recuou, pouco ou nada mais se falou aprofundadamente sobre um assunto tão recente e dramático. A pandemia não afetou a todos da mesma forma e o seu fim podia ter sido uma oportunidade para as forças progressistas repensarem as condições de vida e de trabalho e o papel dos serviços essenciais.

por

Stefano Rota

PARTILHAR
Covid-19.
Covid-19. Foto de themostinept/Flickr.

Uma pesquisa recente sobre a relação entre a pandemia da Covid-19 e a vida dos migrantes possibilitou o diálogo com vários sujeitos que vivenciaram aquela relação sob diferentes perspetivas: académicos/as, representantes de instituições locais, profissionais da área social e os próprios migrantes.

Muitos dos nossos interlocutores, ao ouvirem o argumento do que se pretendia falar, ficaram interessados, mas, ao mesmo tempo, surpreendidos. Pareceu que tivessem de fazer um esforço mnemónico, vasculhar no baú das recordações para encontrar algo que já estava arquivado.

A razão da surpresa e do interesse encontra-se num dado incontrovertível: o esquecimento generalizado entre a população do que se passou e a normalização das consequências trazida pelo refrão “voltemos à normalidade!”

Desde que a crise pandémica recuou, pouco ou nada mais se falou aprofundadamente sobre um assunto tão recente e dramático. Ninguém, ou quase ninguém, sentiu a necessidade de refletir a posteriori acerca do que foi dito, legislado, vivido. Ninguém, ou quase ninguém, tentou analisar duma forma pormenorizada que transformações, direita ou indiretamente, têm sido induzidas ao longo daqueles dois anos e meio e de que forma têm afetado a vida de todos nós, com destaque de alguns setores do corpo social.

Não se quer retomar aqui o debate importante e amplo que deu origem a posições muito claras e contrapostas acerca da função da ferramenta utilizada pelos governos europeus para fazer face à crise pandémica. O que importa, pelo contrário, é destacar, duma forma geral, o impacto que teve sobre as vidas, ou, para dizer melhor, ao nível das vidas.

O objetivo destas páginas provisórias é, portanto, tentar encontrar uma resposta, igualmente provisória, à pergunta: “Passaram-se apenas três anos, como é possível que já tenhamos esquecido tudo?”

A pandemia gerou divisões profundas e diferentes níveis de cuidado entre a população, tanto no seu conjunto, quanto na sua componente laboral. A sobreposição destas duas entidades (população geral e população trabalhadora) revelou como, desde do início do período pandémico, a governamentalidade da crise destacou a coexistência de trabalhos indispensáveis e corpos dispensáveis.

Não se trata de um aspeto que começa e termina nas condições laborais de uma parte da população. Pelo contrário, tem a ver com as suas condições de existência, abrangendo desde as moradias até aos meios de transporte, do acesso aos serviços de saúde, às oportunidades de suporte social e psíquico para os mais frágeis. Por outras palavras, a pandemia não foi “democrática”, não afetou a todos da mesma forma: salientou e acentuou as diferências que já existiam. As medidas biopolíticas que foram tomadas são medidas racistas: aprofundaram o sulco entre os que tinham condições e os que não as tinham. Obviamente, entre esses últimos cabem muitos “autóctones”, não apenas os migrantes.

Tudo isto já estava bem claro após o primeiro ano da eclosão da pandemia, e continuou assim até ao “fim”. E então, o que é que aconteceu às nossas críticas, à solidariedade militante, às nossas experiências de ajuda mútua? Onde foi parar o segundo refrão, tão patético como o primeiro, embora um pouco mais otimista, que repetia “nada voltará a ser como antes”?

Tudo foi esquecido, porque tudo foi ultrapassado – ou vice-versa. Existe uma “gramática da crise”, como a define muito oportunamente Daniele Lorenzini num artigo publicado em inglês e em italiano, que faz com que tudo o que é dito se encaixe dentro dessas regras, inclusive os nossos pensamentos. As crises do capitalismo partilham, em essência, a mesma gramática: a saída da crise traça o rumo de uma nova fase do desenvolvimento, ainda que inteiramente contida nas lógicas de funcionamento do capital. Novos desafios, novas medidas num espaço que pode expandir-se numa direção ou outras, mantendo porém inalterados os pressupostos que constituem os alicerces económicos, sociais e culturais do sistema de normas em que vivemos. “There’s no alternative”, como sublinhou amargamente o Mark Fisher, retomando uma dramática, embora muito “realista”, expressão da Margaret Thatcher.

A ligação estreita entre a saída da crise e esquecimento generalizado baseia-se num tipo de narrativa que promove a auto-absolvição por parte dos órgãos de poder. Estes apresentam as causas das crises como algo que está fora do alcance das suas escolhas e políticas, algo que vem do exterior (mercados financeiros globais, mudanças nos países “periféricos”, mudanças climáticas, hábitos insalubres, estratégias de laboratórios biológicos), ou seja como algo incontrolável.

Ao agirem desta forma, estes órgãos promovem a naturalização das crises e, no mesmo tempo, a sua neutralização, recorrendo a instrumentos que não passam de mecanismos totalmente compatíveis com as próprias condições que deram origem a essas crises. Em consequência disto, o sistema de normas que regula as vidas propõe medidas que distribuem de forma desigual e discriminatória os recursos para se abrigar dos efeitos negativos produzidos.

Neutralizar as crises através da sua naturalização significa, portanto, intervir propondo medidas cujo principal objetivo é desviar a atenção das suas verdadeiras causas. A condição para que tal distorção seja bem-sucedida é induzir e manter a unidade da população no seu conjunto em torno de alguns elementos essenciais, indiscutíveis. A partir daí, qualquer medida tomada pode – e deve – encontrar o apoio da população, se não na sua totalidade, pelo menos na sua vasta maioria. Para os outros não resta senão o estigma, as piores acusações. Tudo que coloca em questão a validade dessas medidas não passa de fake news. Os meios financeiros disponibilizados para o pós-crise (os PRRs nacionais) endossam essa lógica de auto-absolvição e relegam ao esquecimento tanto as causas quanto os efeitos das crises, logo após a sua aparente – ou apenas proclamada – superação.

Esquecer é uma necessidade. “Aceitar sem questionar o incomensurável e o insano – escreve Fisher no seu ‘Realismo capitalista’ – é [no capitalismo tardio] uma técnica que desempenha um papel especial”. Sempre que ocorre uma reinvenção de algo, o “esquecimento coletivo” é induzido como técnica de adaptação ao novo – desde que essa reinvenção possa, de alguma forma, ser associada à ideia de novidade.

Dado que tudo é precário, “esquecer torna-se uma estratégia de adaptação”1, cuja eficácia é relacionada com uma perceção do tempo onde o passado e o futuro se fundem num eterno presente. Manter tudo no presente significa alterar as condições de analise de uma experiência vivida, que precisa do passado, assim como da capacidade de imaginar o futuro, para poderem ser ambos modificados. Se tudo acontece hoje, não precisamos de recordar, tampouco de imaginar, como bem nos ensina a vida digital nas redes sociais.

Adaptação a que?

Uma resposta bastante clara surge no texto de Lorenzini acima mencionado. Ao considerar que o novo paradigma governamental implica “uma extensão perigosa do âmbito de intervenção dos mecanismos de poder”, o que interessa o Lorenzini é a reação que vem do lado dos “governados”. No que diz respeito à pandemia, o que o surpreende é o facto de tantos de nós terem respeitados as regras do confinamento mesmo “quando o risco de sanções, na maioria das situações, era baixo”. Isto, porque “o poder disciplinar e biopolítico funciona duma forma automática, invisível e ordinária”2.

Eis então a adaptação que se refere às medidas adotadas em tempos “excecionais”, que rapidamente se tornam normais, ordinárias. A transição para o esquecimento é fundamental e indolor: o excecional dilui-se até se tornar irreconhecível enquanto tal, porque o nosso presente – onde o passado se desmoronou – já não nos permite detetá-lo.

Isto acontece num contexto em que não se pode dizer que faltem sinais visíveis do legado que nos deixaram quer a pandemia em si, quer as medidas tomadas naquele período. São marcas que, vale a pena repeti-lo, fundam-se nas desigualdades sociais pré-existentes à crise e que esta acentuou.

Uma geração de jovens está deitada nos divãs dos consultórios de psicanalistas, ou estão a tomar psicofármacos, ou ambos. Ainda entre os jovens, as relações são, na sua esmagadora maioria, virtuais; o sexo tornou-se uma prática inusitada, quase esotérica. Os casos de autismo entre as crianças dispararam, o sono entre jovens e adultos tornou-se um acontecimento raro, como emerge dos estudos e investigações da antropóloga médica Stefania Consigliere e da antropóloga cultural Cristina Zavaroni3. É dificil negar que sejam consequências do período pandémico.

Não obstante isto, há uma aceitação acrítica destas condições nos grandes meios de comunicação e nas escolhas políticas dos governos e das oligarquias que gerem as nossas vidas. Os Serviços Nacionais de Saúde e os de Educação estão cada vez piores, nenhum investimento sério foi feito para pô-los em condições de enfrentar as mudadas condições de existência de uma parte significativa da população. Pelo contrário, cresce a incidência – e o financiamento – em ambos os setores dos privados, cujas lógicas de funcionamento se mantêm muito longe da promoção do bem-estar coletivo.

As consequências no mundo do trabalho seguem a mesma linha. As inúmeras publicações sobre a gestão do trabalho no período pandémico, bem como as mudanças estruturais dele decorrentes, descrevem um cenário bastante claro. As diferenças entre os mercados do trabalho e as regras que os regem tornam-se cada vez mais profundas, com níveis de proteção e as oportunidades de negociação a cavar um fosso entre eles. O domínio da chantagem em muitos empregos é uma realidade visível a todos os que quiserem vê-la.

Com a pandemia, a ideia do coletivo substituído pelo individualismo – desafio central do neoliberalismo – passa a ser a regra geral. A “amazonização” do trabalho e da sociedade como um todo está a alterar as relações entre os tempos que compõem as nossa vidas e a própria ideia de emprego está a mudar. Nada de novo, claro, mas tudo foi acelerado com uma velocidade impressionante. Nem se quer faz sentido falar em termos de precariedade do emprego; se calhar, seria mais apropriado falarmos de nomadismo como condição existencial, que vai muito para além da esfera exclusiva do trabalho.

Retomemos apenas um aspeto que saiu da investigação mencionada no início. Ter a obrigação, por exemplo, de ir a trabalhar em condições já péssimas – para além daquelas excecionais ditadas pela crise pandémica, que as agravaram ainda mais – como no caso dos estaleiros navais em Génova, constituem uma grave forma de “atenção diferencial” no que diz respeito ao mundo do trabalho. Um testemunho que foi recolhido conta-nos de máscaras encharcadas e sujas como panos para lavar o chão, que os trabalhadores tinham de usar durante horas em locais com temperaturas acima dos 40 graus. O setor da construção naval não parou, salvo por um curto período: as grandes companhias que tinham encomendado os novos navios queriam ter a sua entrega garantida logo após o fim da pandemia, para recuperar o dinheiro perdido com o bloqueio forçado das suas operações de cruzeiro.

Uma situação que se pode multiplicar por milhares de trabalhadores, se tivermos em conta o trabalho de limpeza, o do cuidado pessoal, o setor da restauração, a entrega de comida e de qualquer outro bem, assim como a agricultura e a construção civil.

O fim da pandemia e, sobretudo, os meios financeiros que foram disponibilizados pelos PRRs poderiam ter representado uma oportunidade para as assim chamadas forças progressistas repensarem de alguma forma as condições de vida e de trabalho, bem como o papel dos serviços essenciais. Poderia ter sido o momento certo para organizarem uma mobilização geral que colocasse a vida no centro, em todos os seus aspetos cruciais.

Isso não aconteceu. Provavelmente nem teria tido muito sucesso. A espada de Dâmocles da chantagem e, a seguir, da adaptação e do esquecimento colonizaram o nosso inconsciente, até tornar tudo – dramaticamente – comum.


Stefano Rota é investigador independente. Administra o blogue “Transglobal”. A sua mais recente publicação coletiva é La fabbrica del soggetto. Ilva 1958-Amazon 2021 (Sensibili alle foglie, 2023). Colabora ocasionalmente com revistas online italianas e lusófonas.


Notas

1 M. Fisher, Realismo Capitalista, Nero Edizioni, Roma, 2018, p.114-116 (Edição italiana)

2 D. Lorenzini, La biopolitica al tempo del coronavirus, Transglobal, https://associazionetransglobal.jimdofree.com/2021/03/09/la-biopolitica-ai-tempi-del-coronavirus/

3 S. Consigliere, C. Zavaroni, Rimozione forzata. Cinque anni dal lockdown e (fingere di) non sentirli. Giap, https://www.wumingfoundation.com/giap/2025/07/rimozione-forzata-cinque-anni-post-covid/