Especialistas alertam: pobreza aumenta enquanto apoios sociais diminuem

23 de abril 2011 - 12:27

As formas tradicionais de pobreza permanecem ao mesmo tempo que surgem novas formas de carência. Desemprego e cortes nos apoios sociais são os que mais contribuem para a intensificação desta realidade. Especialistas criticam opções do governo.

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Desemprego e cortes nos apoios sociais são os que mais contribuem para a intensificação da pobreza e exclusão social. Foto de Paulete Matos.

O crescimento da taxa de desemprego, que já ultrapassou os 11%, as reduções salariais, o aumento do preço dos bens de consumo e os sucessivos cortes nos apoios e prestações sociais traduzem-se numa sociedade mais empobrecida, no aumento das situações de pobreza extrema, na intensificação das desigualdades.

Apesar de as últimas informações sobre a taxa de pobreza remontarem a 2009, e se basearem nos rendimentos de 2008, todos os “indicadores indirectos, que conhecemos do dia-a-dia”, “apontam para que a pobreza esteja de facto, a aumentar”, defende José António Pereirinha, professor do Instituto Superior de Economia e Gestão de Lisboa (ISEG) e que já foi responsável pelo Observatório das Políticas de Combate à Exclusão Social.

Esta opinião é partilhada por Sérgio Aires, presidente do Fórum Não Governamental para a Inclusão Social, e por Eduardo Vítor Rodrigues, professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

Neste momento, “o mais insuspeito dos cidadãos pode vir a enfrentar uma situação de pobreza”, refere Sérgio Aires. A par das novas situações de pobreza, o presidente do Fórum Não Governamental para a Inclusão Social considera que a situação dos mais desfavorecidos se tem deteriorado. O corte em prestações como o Rendimento Social de Inserção (RSI) “é o mais preocupante”, porque a medida destina-se a pessoas “em dificuldades mais extremas”. Sérgio Aires defende que esta opção é perigosa: “Cortou-se no que segura a tampa da panela”. “A moral e a ética terminam, quando o estômago se torna a voz de comando”, adianta ainda.

José António Pereirinha também critica as medidas introduzidas pelo governo. “As prestações deviam ser a última coisa a tocar”, defende o economista, lembrando que, por exemplo, o abono de família, que “era um dos poucos instrumentos de apoio às famílias”, constituía, muitas vezes, “a primeira poupança que a classe média fazia para as famílias”.

Eduardo Vítor Rodrigues alerta para os efeitos profundamente dramáticos do desemprego e do endividamento no que respeita ao aumento da pobreza e sublinha que estas situações “não têm resposta das políticas públicas, que foram desenvolvidas a pensar nos velhos modelos”.

O professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto destaca ainda os efeitos dramáticos para a auto-estima das situações de exclusão económica e social e dá como exemplo quem necessita de aceder ao RSI, que implica “incorporar a desvalorização que essa medida tem”. “Essas pessoas nunca imaginaram misturar-se com quem sempre criticaram como laxistas e fraudulentos”, avança Eduardo Rodrigues.