Espanha: vários detidos em dois casos de compra de votos

26 de maio 2023 - 15:13

Em Melilla e em Mojácar, localidade da Andaluzia, a polícia atuou face a um número invulgar de pedidos de voto por correspondência. Uma história que incluiu compra de votos entre 50 a 120 euros e assaltos a carteiros.

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Imagem de divulgação do formulário eletrónico de solicitação de voto por correspondência. Foto dos Correios de Espanha.
Imagem de divulgação do formulário eletrónico de solicitação de voto por correspondência. Foto dos Correios de Espanha.

Doze comunidades autónomas espanholas vão a votos este domingo em eleições regionais e autárquicas. Os últimos dias da campanha estão a ficar marcados por detenções em dois casos separados de suspeita de compra de votos que envolvem os dois maiores partidos do país. Em Melilla foram detidas dez pessoas, duas das quais estariam a negociar a venda de votos ao PP, revela a Cadena Ser com base em fontes policiais. Em Mojácar, em Almeria, na Andaluzia, sete, dois dos quais candidatos do PSOE.

Do lado do PP, nega-se a ligação destas pessoas ao partido e sublinha-se que os envolvidos que têm uma ligação comprovada a uma força política local pertencem à Coligação por Melilla, o parceiro de governo do PSOE na região. Um deles é Mohamed Ahmed Al-lal, conselheiro para os Distritos, a Juventude e a Participação Cidadã do governo autonómico e atual número três das listas. Juan José Imbroda, o líder local do partido de direita, exige por isso aos socialistas que rompam o acordo de governação.

Já nas últimas eleições, há quatro anos, um caso de compra de votos por correspondência tinha abalado o mesmo círculo eleitoral mas noutro sentido. Então tinha sido a Coligação por Melilla a divulgar imagens do filho deste líder do PP a tentar comprar cerca de 300 votos por correspondência.

Desta feita, houve em Mellila 11.707 pedidos de voto por correspondência. O que correspondia a 20% dos cadernos eleitorais. Um número absurdamente alto, uma vez que no conjunto do país é apenas de perto de 3%. A Junta Eleitoral da Zona de Melilla acabou por decidir que quem queria exercer o seu direito de voto desta forma teria de se identificar nos Correios. Resultado: apenas 1.882 votaram efetivamente por correspondência, 761 dos quais antes desta medida entrar em vigor. Depois desta ação policial, o governo assegura a legitimidade dos resultados, afirmando que se evitou uma fraude eleitoral. Em causa estavam subornos, de 50 até 120 euros, em troca de votos e mesmo assaltos a carteiros em que seriam roubados boletins de voto por correspondência.

A Coligação por Melilla, apresentada pelo jornal El Mundo como tendo sido criada por dissidentes do PSOE, sendo de “orientação muçulmana” e apresentando-se como “progressista, localista, sem obrigações nem diretrizes nacionais e com vocação de serviço público", denuncia uma “perseguição” por o partido ser “muito incómodo", segundo declarações da sua cabeça de lista, Dunia Almansouri, citadas pelo Público espanhol. O mesmo jornal que dá conta que face ao sucedido, os seus parceiros do Acordo de Turia, um pacto eleitoral de esquerda que inclui partidos como o Verdes Equo, o Compromís e o Más País de Iñigo Errejón, decidiram suspender a colaboração. Já a secretária-geral do Podemos, Ione Belarra, disse que era “preocupante” que alguns “partidos progressistas tenham pensado que estes são sócios aceitáveis dados os antecedentes que já conhecíamos”, uma referência a casos anteriores que tinham sido denunciados sobre aquele partido noutras eleições. Aliás, Mustafá Aberchán, o histórico dirigente deste partido, foi condenado há dois anos pelo Tribunal Supremo espanhol a dois anos de prisão e 30 de direitos políticos suspensos precisamente por ser o cabecilha de uma rede de compra de votos por correspondência nas eleições para o Senado em 2008.

Em Mojácer, uma localidade com pouco mais de 3.000 eleitores, também terá chamado a atenção o número relativamente alto de pedidos de voto por correspondência: 543, perto de 17% do total.

Os dois detidos do PSOE em Mojácar, que ocupavam o número dois e cinco da lista, um pertencente a uma família que detém vários estabelecimentos no setor dos serviços na localidade e o outro o dono de um bar, viram a sua militância suspensa e foi-lhes aberto um processo disciplinar.

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