Faleceu nesta quinta-feira aos 92 anos o histórico dirigente sindical Marcelino Camacho. Com uma longa trajectória militante, iniciou o seu percurso nas juventudes comunistas no tempo da II República, combateu na guerra civil e sofreu a repressão fascista depois dela, e mesmo no final da ditadura, quando se tornou o símbolo do novo movimento operário espanhol.
Cumpriu no total mais de 13 anos nas masmorras de Franco, e fez sete greves de fome na prisão. Indultado em 1976, com o regresso das liberdades foi eleito secretário-geral da central sindical Comisiones Obreras (CCOO) e eleito deputado nas listas do PCE nas primeiras eleições de 1977. Foi membro das CCOO e do PCE até à sua morte, militando nesse partido cerca de três quartos de século.
Marcelino tornou-se uma figura carismática da oposição ao franquismo a partir dos anos sessenta, como líder dos trabalhadores metalúrgicos de Madrid, participando nos processos de formação das Comisiones Obreras. Em 1973 foi acusado no Processo 1001 que condenou os dirigentes das CCOO a pesadas penas de cadeia. Camacho foi condenado a 20 anos. Libertado em 76, esteve à frente da formação das CCOO como central sindical, sendo eleito máximo dirigente, cargo que ocupou até 1987. Permaneceu na direcção da central até meados dos anos 90, quando se demitiu por discrepâncias com a linha de pacto com o governo de Aznar da então direcção das CCOO. Como dirigente ou militante de base, Camacho será lembrado por nós pela sua disponibilidade para apoiar causas e contribuir com o seu prestígio para elas, um símbolo de uma honestidade que é património exclusivo da classe trabalhadora.
Neste sentido, os militantes da minha geração ficaremos com a sua imagem de militante incorruptível e fiel, um homem que viveu com a sua companheira no seu apartamento de sempre. Para mim, pessoalmente, é essa figura que falava com justiça sobre os interesses dos mais débeis quando eu era uma criança. Lembro da sua participação solidária nas manifestações estudantis em Madrid nos anos 90. Lembro a sua colaboração numa campanha que em 1998 comemorava os 150 anos do Manifesto Comunista, ao lado de uma pequena organização ultra-esquerdista, altura em que tive o prazer de o conhecer em pessoa e fazer-lhe uma entrevista para um jornal universitário.
Era um homem velho que transmitia cargas de esperança e que fazia uma análise crítica do seu percurso. Falou num pequeno comício na Universidade de Oviedo em que foi recebido com pinturas ultra-sectárias e bastante insultuosas (era chamado de “recuperador” e "fantasma") de grupos anarquistas e autónomos. Não se importou com isso, comentando que a única vez que lera mensagens nas paredes contra ele fora nos anos 70, na altura do julgamento do processo 1001. Era ciente da necessidade de a sua geração conseguir transmitir os seus ensinamentos aos mais novos. Até ao fim Camacho esteve do lado certo da barricada.
Miguel Pérez