Espanha: Esquerda venceu o debate rejeitado por Feijóo

20 de julho 2023 - 15:02

Yolanda Díaz assumiu o protagonismo do confronto com a direita num debate em que Pedro Sánchez optou pela serenidade e Santiago Abascal procurou não hostilizar o eleitorado do PP, aproveitando a ausência do seu líder.

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Líderes do Vox, Sumar e PSOE
Líderes do Vox, Sumar e PSOE no debate de quarta-feira na TVE

O líder do PP e até há poucos dias favorito a ganhar as eleições de domingo em Espanha foi o grande ausente do único debate televisivo com os líderes dos quatro maiores partidos. Alberto Feijóo já tinha avisado que não iria ao debate de quarta-feira e a meio do dia anunciou mesmo a suspensão da campanha, alegadamente por ter tido uma dor nas costas à saída de um estúdio onde fora entrevistado.

Num debate assistido por mais de quatro milhões de espectadores, os candidatos da esquerda não tiveram dificuldades em acertar a estratégia para ganhar pontos na reta final da campanha. E ela passou por transformar Abascal no representante da direita, graças à ausência do líder do PP e favorito nas sondagens, entregando a Yolanda Díaz o protagonismo do combate político à direita e dos momentos mais vivos do debate. Afinal de contas, é a líder do Sumar que disputa a terceira posição com o Vox, o que significa muitos lugares de deputados em vários círculos eleitorais decisivos que podem ir para o Sumar ou para a extrema-direita.

Quanto a Pedro Sánchez, depois de ser criticado pela postura agressiva no anterior frente a frente com Feijóo, aproveitou agora para mostrar serenidade neste debate, deixando a Yolanda a iniciativa de lançar as maiores farpas à direita. Como também Abascal optou por se mostrar mais contido do que habitualmente, numa estratégia de captar votos e não afastar eleitorado de um PP com falta de comparência, no final da primeira parte do debate o moderador já pedia aos líderes mais intensidade, avisando que até se podiam interromper uns aos outros. O momento mais vivo aconteceu depois de Abascal atacar o feminismo e negar que exista violência machista, com Yolanda Díaz a mostrar-lhe uma fotografia de dois deputados do Vox a rirem durante o minuto de silêncio em memória das mulheres assassinadas. "Deixem de rir-se de nós. Matam-nos porque somos mulheres e vocês provocam exatamente isso ao fazerem esse discurso", afirmou a líder do Sumar.

Mas o tom mais contido do candidato da extrema-direita não significou que os "fact-checkers" tenham tido mais descanso na noite de quarta-feira. Como habitualmente, o líder do Vox recheou de mentiras a sua argumentação no debate. Os media espanhóis destacam que tem sido recorrente na campanha do Vox, a de que o governo teria acordado a reforma laboral com os independentistas bascos do Bildu. Coube a Yolanda Díaz esclarecer que o Bildu votou ao lado do Vox contra a reforma laboral. Quanto às alegações de Santiago Abascal sobre o aumento do desemprego agrícola, foi novamente a líder do Sumar a trazer os dados que mostram que não só desceu como está nos níveis mais baixos de sempre. Um dos momentos do debate foi quando Yolanda perguntou a Abascal se sabia quantos trabalhadores agrícolas há em Espanha e o líder do Vox ficou sem resposta. São 750 mil, disse a atual ministra do Trabalho. Outras falsidades mais grotescas ditas por Abascal foram as de que o Governo está a dinamitar barragens a meio de uma seca, que a lei da violência de género não reduziu os assassinatos de mulheres, que existem tribunais de exceção para homens ou que em Madrid há homens a mudar de género para tirarem empregos da quota feminina na função pública.

Face à ausência de propostas do Vox ao longo do debate, coube a Yolanda Díaz assumir a defesa dos seus temas de campanha, como a defesa da cesta básica acessível, a regulação das rendas de casas ou o plano face à crise climática. A transição climática foi aliás um dos temas em que os candidatos da esquerda dedicaram mais tempo no debate, aproveitando para denunciar repetidamente a postura negacionista das alterações climáticas da direita ali representada.

Foi só na última parte do debate, dedicada aos pactos de governo, que Sánchez atacou o ausente Feijóo, atribuindo a sua ausência porque "tem vergonha de aparecer ao lado de Abascal. Pacta com ele e governa com ele, mas tem vergonha de aparecer ao lado dele". Yolanda Díaz anunciou que irá apresentar uma proposta para obrigar os candidatos a apresentarem-se a debates pré-eleitorais e questionou Abascal se achava normal que Feijóo tenha ligações a um narcotraficante, a propósito das fotos dos anos 1990 com Feijóo no iate do traficante galego Marcial Dorado. O líder do Vox, que não se referiu a Feijóo ao longo do debate, voltou a não responder à pergunta, apenas lamentando que se diga isso de alguém que não está ali presente. E também deixou sem resposta a questão sobre se fará depender a viabilização de um eventual executivo do PP da presença de ministros do Vox.