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A era das pandemias não acaba com a Covid-19. Estamos na fase interpandémica

Não ser negacionista não significa só entender que cloroquina não é tratamento para Covid ou que vacinas são imprescindíveis para proteger a população, mas também reconhecer a relevância de investigações científicas feitas antes mas às quais não foi dada até agora a devida atenção. Por Marcelo de Araujo e Daniel de Vasconcelos Costa.
Máscara deitada no chão. Foto de Pedro Gomes Almeida.
Máscara deitada no chão. Foto de Pedro Gomes Almeida.

Para muitas pessoas, a pandemia de Covid-19 pode ter parecido um evento imprevisível, que apanhou o mundo de surpresa no início de 2020. Mas isso é um erro. Ao longo dos 20 anos que antecederam a pandemia de Covid-19, diversos estudos já alertavam para o aumento da ocorrência de novos surtos de doenças contagiosas com potencial para desencadear uma pandemia.

Publicações científicas, documentos governamentais e intergovernamentais e até mesmo textos jornalísticos também chamavam a atenção para a falta de políticas públicas, a nível nacional e global, para promover medidas de mitigação da pandemia, ou seja, reduzir os riscos de novas pandemias, semelhante às medidas de mitigação para conter o aquecimento global.

Convencidos de que esses estudos mereciam mais atenção, tanto na comunidade científica quanto entre legisladores, decidimos divulgar em 2022 um levantamento com referências a 100 estudos sobre ameaças pandémicas publicados entre 1999 e 2019. Um estudo de 2014, por exemplo, estimou o custo económico global de uma pandemia comparado aos custos que seriam necessários para impedir, ou para pelo menos reduzir as possibilidades de que uma pandemia viesse a ocorrer. Não por acaso, como mostra o estudo, os custos para se combater uma pandemia que de facto já eclodiu são muito mais elevados do que os custos para tentar evitar que uma nova venha a ocorrer.

Se levarmos em consideração os custos humanos, que não podem ser medidos ou compensados em termos económicos, fica ainda mais evidente que ações para reduzir o risco de uma pandemia são uma obrigação ética da comunidade científica e dos governos nacionais e internacionais. Só no Brasil, 700 mil pessoas morreram por Covid-19 entre fevereiro de 2020 e março de 2023.

A pandemia de Covid-19 é agora um tema muito estudado na academia em diversas áreas. Diante de tantas publicações, haveria então ainda boas razões para examinarmos o que se publicou sobre pandemias antes de 2020? Nós acreditamos que sim.

Embora a Organização Mundial de Saúde (OMS) tenha declarado o fim da Covid-19 como uma emergência de saúde pública, em 5 de maio de 2023, as condições para o surgimento de novas pandemias não foram eliminadas. Pelo contrário, é possível que a situação seja pior agora.

Pandemias não são fenómenos naturais como terramotos, tsunamis, ou tempestades magnéticas. Assim como as mudanças climáticas, elas têm causas antropogénicas, isto é, que decorrem de atividades humanas como, por exemplo, desmatamentos e fragmentação de florestas, e da criação de grandes populações animais mantidas em confinamento, o que aproxima o contacto entre seres humanos e animais portadores de vírus com potencial para desencadear uma pandemia.

As viagens cada vez mais frequentes entre os diferentes continentes, somadas à grande concentração de pessoas em áreas urbanas, permitem que os vírus se espalhem mais rapidamente por todas as partes do mundo. Nada disso mudou após a declaração do fim da Covid-19 como uma emergência de saúde pública.

Para agravar o problema, as alterações climáticas interferem no comportamento de aves, morcegos e outros animais que podem procurar alimentos ou migrar para áreas urbanas em vez de permanecer no seu habitat de origem. As alterações climáticas afetam também o comportamento das pessoas.

É provável que populações inteiras, na tentativa de fugir de ondas de calor em regiões mais secas, migrem para os grandes centros urbanos em busca de proteção. Cidades densamente povoadas são um ambiente ideal para o contágio e proliferação de doenças infetocontagiosas que se podem espalhar por todo o mundo.

E como se isso não bastasse, a ameaça de uma pandemia também é agravada pela emergência e rápido desenvolvimento de tecnologias para modificação de genes de um organismo. Estas poderiam ser utilizadas para a recriação de vírus considerados extintos, ou para permitir “ganho de função”, o que pode fazer com que eles tenham maior capacidade de contaminação e letalidade entre seres humanos. Muitos dos estudos que levantamos na nossa pesquisa dizem respeito à ameaça de pandemias decorrentes de ações bioterroristas.

Também é importante destacar que, de entre os estudos sobre ameaças pandémicas publicados antes da pandemia de Covid-19, chamam a atenção os vários documentos da OMS. Há vários anos a entidade já alertava para um gradual aumento do número de novas doenças infetocontagiosas com potencial para desencadear uma pandemia e para a frequência com que novas epidemias e pandemias têm vindo a ocorrer. Após uma nova epidemia ou pandemia, como a OMS enfatiza em alguns documentos, o que vem não é um período pós-pandémico, mas uma nova “fase interpandêmica”.

Na fase interpandémica, cabe aos governos e à sociedade civil não apenas recuperar da pandemia passada, mas também preparar-se para a próxima. Certamente haverá outras pandemias, mas para a população e para os legisladores parece mais confortável, e mais estratégico para fins eleitorais, tratar apenas de se recuperar do nosso passado recente, sem se preocupar com o que ainda virá pela frente. Diversos investigadores, antes da pandemia de Covid-19, já falavam de uma “era pandêmica”, que não se encerrará com a Covid-19.

Para planificadores de políticas públicas na área da saúde, os estudos publicados antes da pandemia de Covid-19 continuam não apenas válidos, mas podem também constituir parte da estratégia de comunicação sobre a importância de investimentos na área de proteção ambiental, investigações científicas na área de saúde e biotecnologias e, sobretudo, para a promoção de medidas de mitigação pandémica e mitigação climática nas próximas décadas. Para o público, por outro lado, estes estudos podem também tornar-se uma ferramenta para exigir do poder público a implementação de políticas de mitigação pandémica, de modo a evitar os erros e omissões de políticas passadas.

Não ser negacionista, quando se trata de pandemias, não significa mais simplesmente entender que cloroquina não é o tratamento adequado para Covid-19, ou que vacinas são eficazes e imprescindíveis para a proteção da população. Não ser negacionista significa também reconhecer a relevância de investigações científicas que já tinham vindo a ser feitas antes da pandemia de Covid-19, mas às quais não foram dadas até agora a devida atenção. Estes estudos continuam não apenas atuais, mas representam hoje um monumento à relevância da investigação científica para a prevenção e solução de crises globais.


Marcelo de Araujo é professor de Filosofia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e Professor de Filosofia do Direito, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Daniel de Vasconcelos Costa é professor de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Texto publicado originalmente no The Conversation Brasil. Editado pelo Esquerda.net para português de Portugal.

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