Santa Maria da Feira

Entrevistas pagas pelo PSD a um jornal originam queixa na PGR

28 de agosto 2025 - 14:54

O jornal N publicou várias entrevistas apenas com candidatos autárquicos do PSD em Santa Maria da Feira. Confrontado pela concelhia do Bloco sobre a desigualdade de tratamento, o jornal admitiu tratar-se de publicidade paga.

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Duas "entrevistas" de candaitdtos do PSD ao Jornal N
Duas "entrevistas" de candaitdtos do PSD publicadas pelo Jornal N

A concelhia do Bloco de Esquerda de Santa Maria da Feira apresentou queixas junto da Comissão Nacional de Eleições (CNE), Entidade Reguladora para a Comunicação (ERC) e Procuradoria Geral da República (PGR) sobre o que considera ser “uma tentativa descarada de manipulação da opinião pública em plena pré-campanha eleitoral”.

Em causa estão as entrevistas publicadas nas últimas semanas aos candidatos do PSD às Juntas de Freguesia de Rio Meão, Escapães, Vila Maior, Caldas de São Jorge, Mozelos, Fiães, Gião, Miheirós de Poiares, Vale e União de Freguesias de Sta. Maria da Feira, Travanca, Sanfins e Espargo. Confrontada com a sucessão de entrevistas a candidatos de apenas um partido, sem que tivesse sido contactada para o mesmo efeito, a concelhia bloquista questionou o jornal sobre a situação de evidente parcialidade na cobertura da pré-campanha autárquica, solicitando o mesmo espaço para as suas candidaturas. Ao não obter resposta, enviou queixa à Comissão Nacional de Eleições, a quem os responsáveis do jornal, chamados a pronunciarem-se, não responderam.

Eduardo Couto
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A CNE concluiu que “no caso vertente, parece, pois, existir tratamento desigual das candidaturas, com favorecimento aparente de uma única força política”, pelo que encaminhou o processo para a ERC, que é a entidade competente para apreciar e decidir sobre matérias de cobertura e tratamento das candidaturas em período eleitoral.

Apesar de não ter respondido ao Bloco nem à CNE, quando foi conhecida a decisão deste organismo eleitoral o diretor do jornal telefonou ao candidato bloquista à autarquia, Eduardo Couto. E a explicação de Rui Leal, refere a concelhia em comunicado, é que as referidas “entrevistas” foram pagas a 200 euros por página e que o Bloco não foi contactado com igual proposta por se encontrar de férias. Após este contacto, Eduardo Couto apresentou uma queixa junto da Procuradoria Geral da República com a exposição do sucedido.

O candidato bloquista quer que seja apurado se o PSD Santa Maria da Feira financiou efetivamente a publicação destas entrevistas e se esse financiamento se encontra devidamente declarado nos termos da lei. Eduardo Couto exige também que o jornal esclareça qual a natureza dos conteúdos e, tratando-se de publicidade paga, a razão pela qual isso não foi assinalado nas respetivas “entrevistas”.

O mandatário da candidatura do Bloco à autarquia dirigiu uma nova queixa à CNE sobre a publicação destas entrevistas políticas sem declarar que se tratava de publicidade paga.

Jornal admite (e depois apaga) que as “entrevistas” eram “publireportagens”

O jornal N veio entretanto a público na quarta-feira, através das suas redes sociais, afirmando que “nunca se recusou a estar presente em qualquer apresentação de candidaturas, independentemente do partido político” e que essa cobertura depende da receção prévia sobre o dia, hora e local do evento.

Mas numa das versões da nota publicada no Facebook - visível no histórico da publicação - o jornal admitiu que “as chamadas ‘entrevistas’ que têm sido alvo de críticas correspondem, na verdade, a Publireportagens no formato de entrevista”. E acrescenta que propôs esse formato a todos os partidos, à exceção do PCP, Chega e IL, mas que nenhum se mostrou interessado.

Num novo “esclarecimento” publicado já esta quinta-feira, o jornal alega ter apresentado “uma proposta de entrevistas aos partidos que regularmente fazem chegar informação sobre a sua atividade à redação”, sem referir a existência de contrapartidas financeiras, prometendo alargar a proposta aos restantes partidos.

Em silêncio continua o candidato do PSD, Amadeu Albergaria, a quem o Bloco exige respostas sobre se efetivamente o PSD pagou pelas entrevistas e as declarou como despesas de campanha eleitoral.

“Estamos perante um aglomerar de factos que compromete a democracia, a igualdade de oportunidades e a isenção jornalística e um desvirtuar do processo eleitoral. O PSD, mais uma vez, tenta se comportar como os "Donos Disto Tudo" e estão a tentar transformar Santa Maria da Feira num território onde só uma voz é ouvida — a deles”, aponta a concelhia do Bloco de Esquerda, prometendo que não permitirá que estas eleições “fiquem marcadas por mentiras, manipulação mediática e favorecimentos aparentemente duvidosos”.