Com a incapacidade do Governo em atrair profissionais para o Serviço Nacional de Saúde, o número de horas que os profissionais do SNS são obrigados a realizar tem aumentado todos os anos. Considerando todo o universo de profissionais de saúde, o total de horas extraordinárias deste ano já ultrapassou o recorde de 2020, mais de 18,5 milhões de horas.
Apenas nos primeiros nove meses deste ano, os enfermeiros realizaram mais de cinco milhões de horas extras e os médicos mais de quatro milhões. Entre tarefeiros e prestações de serviço, foram realizadas mais 7 milhões de horas extraordinárias.
O resultado é uma fatura de 400 milhões de euros apenas para pagar horas extraordinárias em 2021.
"O volume de horas extraordinárias, que sempre foi uma realidade, subiu exponencialmente. Neste momento, aqui nos hospitais do Porto, são mais de 500 mil horas em trabalho extraordinário que é feito pelos enfermeiros, o que corresponde à falta de 274 enfermeiros” naquelas unidades hospitalares, declarou Fátima Monteiro, coordenadora da Direção Regional do Sindicato dos Enfermeiros do Porto (SEP), à agência Lusa.
Estas horas extraordinárias dizem respeito apenas aos hospitais de São João e Santo António (Porto), Tâmega e Sousa, Unidade Local de Saúde (ULS) de Matosinhos (Hospital Pedro Hispano), Magalhães de Lemos (Porto), Instituto Português de Oncologia (IPO) do Porto e Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho.
O trabalho de “mais de 500 mil horas extraordinárias” só neste ano e até outubro - falta contabilizar novembro e dezembro - reflete a “carência de enfermeiros” na área do Porto, que disse ser de 274 enfermeiros, para além dos enfermeiros que estão com vínculo precário.
A responsável alerta que o número de horas extra realizadas de janeiro a outubro de 2021 "é muito superior ao número de horas extraordinárias de 2020", e que, "face ao acréscimo de trabalho", o "absentismo subiu terrivelmente" na classe dos enfermeiros.
"É muito. Constantemente os colegas estão a ser chamados para fazer trabalho extraordinário (…) Isto causa um desgaste muito grande. Os colegas deixam de ter os seus descansos, deixam de ter as suas folgas, deixam de ter vida familiar e, portanto, chega desta sobrecarga. É preciso que o Governo, de uma vez por todas, admita mais, e que seja com vínculo efetivo, de forma que se estabilizem e não andem a saltar de instituição para instituição", assinalou.
A conferência de imprensa foi marcada para uma concentração de uma dezena daqueles profissionais junto ao Hospital de São João, com cartazes onde se podia ler: “Temos de vacinar e temos de contratar”, “Somos necessários, não podemos estar precários”, “Enfermeiros a cumprir devem progredir”, “O risco é profissão! Para todos exigimos compensação”, “Fartos de exploração, exigimos progressão” ou “Enfermeiros exigem admissão de enfermeiros. Justo descongelamentos das progressões. Pagamento do suplemento remuneratório a todos os enfermeiros especialistas”.
Fátima Monteiro exigiu a vinculação de todos os precários que, “só aqui no Porto são cerca de 300” e para os quais “não tem havido autorizações para os efetivar. [Queremos] que haja admissão de mais enfermeiros e que essa admissão não seja por vínculo precário. Estão a dar resposta a necessidades permanentes, devem ter um vínculo permanente", concluiu.