Nas últimas semanas a empresa Thames Water tem sido notícia pelas suas tentativas de evitar a nacionalização parcial por parte do governo britânico, mas também pelos escândalos sobre as descargas de águas não tratadas para os rios e o facto de ser a campeã das fugas de água das canalizações.
A empresa serve um quarto da população britânica e foi privatizada há três décadas. Em 2006 foi adquirida por fundos australianos, que criaram uma estrutura complexa para alavancar a dívida da empresa enquanto retiravam dividendos para os acionistas. Depressa a Thames Water se tornou altamente endividada, com o maior rácio de dívida do setor, e alvo de sucessivas multas por causa da falta de investimento numa infraestrutura muito antiga e na adaptação às alterações climáticas, mas também pelos crimes ambientais como as descargas ilegais de águas não tratadas que mataram milhares de peixes em vários rios.
Uma dessas descargas foi o motivo invocado para a saída da CEO Sarah Bentley no final de junho, com o colapso financeiro como pano de fundo. Os custos do serviço da dívida, calculada em mais de 16 mil milhões de euros, dispararam com a inflação desde a pandemia, levantando o cenário da entrada no regime de administração especial por parte do Estado, o que na prática equivale a uma nacionalização temporária da empresa. Esta semana, a Thames Water anunciou ter obtido cerca de 880 milhões de euros em financiamento injetado pelos atuais acionistas, sobretudo fundos de pensões canadianos e britânicos. Um valor que ficou aquém dos 1.170 milhões pretendidos com esta operação, mas que afasta para já a intervenção do Estado.
A nova CEO interina, Cathryn Ross, esteve à frente do regulador do setor, a Ofwat, entre 2013 e 2017. E é justamente a ação do regulador que está na mira dos políticos, com audições parlamentares onde a nota dominante tem sido a crítica à ausência de intervenção do regulador junto das empresas de água desde as privatizações.
Thames Water e Águas de Portugal: o plano de Sócrates e Lino que ambos desmentem
Em plena campanha eleitoral de 2011, quando a direita e o PS já se tinham comprometido com o memorando da troika mas o PSD não escondia o desejo de ir "além da troika", discutia-se a proposta laranja para privatizar a Águas de Portugal, com José Sócrates a qualificá-la de "aventura irresponsável".
Com o título "Sócrates e Mário Lino prepararam privatização das águas em 2000", o jornalista do Público José António Cerejo citava documentos confidenciais a que teve acesso e que mostravam que onze anos antes, durante o Governo de António Guterres que teve José Sócrates como ministro do Ambiente e Mário Lino à frente da Águas de Portugal, a administração preparou a entrada de privados na holding que controlava o setor das águas. O plano passava pela venda de 30% da AdP à EDP para ser posteriormente vendida à Thames Water quando, numa segunda fase, se procedesse à abertura do restante capital da AdP a privados em bolsa. O Público dizia ainda que o plano para a "parceria estratégica" entre AdP e EDP - que previa que a EDP subscrevesse o aumento de capital da AdP - chegou a ser passado para o papel por Sócrates e Pina Moura, então ministro das Finanças. Mas a queda do Governo Guterres em 2001 veio encerrar o assunto.
A notícia deste plano com onze anos de distância provocou um imediato desmentido de Sócrates quanto à intenção de privatizar a AdP. “Se eu quisesse privatizar a Águas de Portugal, ao fim de seis anos como primeiro-ministro já o tinha feito. Quem quer isso é o PSD, eu estou contra e acho que isso é uma aventura”, afirmava o então primeiro-ministro demissionário. Por seu lado, Mário Lino também negou terem existido planos para privatização, mas admitiu à TSF que "o que foi estudado com a EDP foi uma participação, na ordem dos 20 por cento, no capital das Águas de Portugal na base de uma atividade conjunta em áreas de interesse comum".
Semanas depois, a direita conquistava a maioria absoluta, mas não conseguiu cumprir a promessa da privatização integral do setor das águas, prosseguindo a política das concessões e a restruturação do sistema com vista à futura privatização, impondo a agregação de 19 sistemas multimunicipais em meia dúzia de empresas. Em 2020, o regulador português conclui que dos 25 municípios onde a gestão da água é mais cara, 24 são de responsabilidade privada, o mesmo acontecendo quanto às tarifas pagas pelos consumidores, cuja diferença pode ser pagar seis vezes mais pela água consumida. E já em 2014, após analisar 19 contratos de concessão de água a privados, o Tribunal de Contas tinha concluído que as concessões não trouxeram nenhum benefício para o consumidor ou para as autarquias.