Guiné-Bissau

Embaló instala-se no Senegal, oposição repudia “golpe encenado”

28 de novembro 2025 - 11:31

Para evitar o anúncio da vitória de Fernando Dias da Costa nas presidenciais do passado domingo, militares ligados ao Presidente derrotado nas urnas tomaram o poder e suspenderam o processo eleitoral. Manifestação em Lisboa exigiu intervenção da CPLP em defesa da democracia.

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Manifestação em frente à sede da CPLP em Lisboa
Manifestação em frente à sede da CPLP em Lisboa. Foto Manuel de Almeida/Lusa

Esta quinta-feira deveriam ter sido anunciados os resultados das eleições presidenciais guineenses e as atas divulgadas pela imprensa internacional mostravam uma clara vitória do candidato Fernando Dias da Costa. Mas na véspera, um grupo de militares liderado pelo general Horta N´ta, até então chefe de Estado-Maior particular do Presidente cessante e derrotado nas urnas, Umaro Sissoco Embaló, invocou uma alegada "ameaça crescente à democracia e à estabilidade política" por parte de grupos ligados ao narcotráfico para tomar o poder e suspender o processo eleitoral na véspera do seu desfecho.

Minutos depois do suposto “golpe”, o ainda Presidente Sissoco Embaló dava entrevistas à imprensa internacional a relatar que havia sido preso. Os militares detiveram o líder do PAIGC e candidato excluído das presidenciais, Domingos Simões Pereira, entre outros apoiantes de Dias Costa, como o jurista Octávio Lopes, do PAIGC e o dirigente do PRS Roberto Mbesba.  

Em comunicado divulgado esta sexta-feira, a direção de campanha de Fernando Dias Costa - que conseguiu escapar à detenção e se encontra refugiado em segurança - apela à libertação dos detidos pelos militares e à conclusão do processo eleitoral com a proclamação dos resultados. Exortam ainda a CEDEAO, a União Africana, a CPLP e a ONU “a intervir, o quanto antes, para salvar as conquistas democráticas”. A campanha apela ainda à mobilização popular em defesa da democracia.

"Nomearam o Horta N’ta como presidente interino. Mas quem é que vai ser o Presidente da República? Na verdade, é Umaro Sissoco Embaló, porque ele vai continuar a manipular as actuais chefias militares. Porque são chefias da sua proveniência. Isso é que nós compreendemos", afirmou à RFI o candidato vencedor das presidenciais. Mais tarde, Horta N'ta deu a conhecer a sua escolha para primeiro-ministro: o atual ministro das Finanças e diretor de campanha de Embaló, Ilídio Vieira Té.

Nos bairros de Bissau houve protestos com pneus queimados nas ruas. Em Lisboa, centenas de guineenses concentraram-se na quinta-feira em frente à sede da CPLP para condenar o suposto golpe e exigir a libertação dos detidos, criticando também o papel do Presidente português por conivência com o regime de Embaló. Horas antes, Marcelo Rebelo de Sousa afirmara aos jornalistas ter contactado Embaló na quarta-feira, quando já estaria supostamente detido, e que este lhe disse estar bem de saúde. Na quinta-feira à noite o Senegal anunciou ter enviado um avião a Bissau para retirar Embaló do país.

Tanto a Ordem dos Advogados como a Liga Guineense dos Direitos Humanos condenaram o suposto golpe que veio interromper o processo eleitoral, exigindo o respeito pela vontade do povo guineense expressa nas urnas no passado domingo.

Os militares anunciaram também a suspensão de todos os órgãos de comunicação social e levaram as operadoras de telecomunicações a restringir ou bloquear o acesso às redes sociais. "A suspensão dos meios de comunicação social guineenses é uma grave violação do direito à informação. A população deve poder ser informada sobre o que se passa no país, em particular neste contexto de crise política”, disse em comunicado o  diretor dos RSF para a África Subsariana, Sadibou Marong.