É mais um escândalo a ensombrar a cimeira do clima que se realiza no próximo mês de novembro. Se as críticas à escolha do chefe da petrolífera estatal dos Emirados já eram muitas, a investigação publicada esta quarta-feira no Guardian vieram ampliá-las.
A Abu Dhabi National Oil Company (Adnoc), que tal como a COP28 é presidida por Sultan Al Jaber, teve acesso a todos os mails enviados e recebidos pela organização e até foi consultada sobre a forma de responder a perguntas da imprensa. A resposta a um email enviado pelo Guardian ao gabinete da organização da COP28 comprova-o, ao incluir no texto uma referência que não deixa margem para dúvidas: "Classificação da Adnoc: interno". Nem as perguntas do jornal britânico nem as respostas da organização da COP28 tinham qualquer referência à petrolífera.
O jornal voltou a questionar a organização da próxima cimeira do clima sobre como é que a resposta ao seu email teria passado pela Adnoc. A resposta foi que a COP28 "procurou ouvir vários especialistas sobre emissões, incluindo a Adnoc", pelo que aquela referência terá passado a integrar o texto da troca de emails.
Em janeiro, o portal Politico já tinha noticiado que a organização da COP28 e a Adnoc partilhavam os mesmos serviços de apoio informático e o Guardian insistiu em maio para saber se partilhavam igualmente os mesmos servidores de email. A resposta da COP28 foi que se tratavam de servidores separados e que o apoio técnico também era dado por uma equipa diferente da que trabalha para a Adnoc.
Mas um especialista informático da Universidade de Cambridge discorda, ao apontar que o registo MX dos emails da COP28 apontam para o mesmo servidor usado pela petrolífera. Assim, o servidor da COP28 permite ao servidor da petrolífera ler todas as mensagens enviadas e recebidas. A 2 de junho um porta-voz da COP28 afirmou que o gabinete da cimeira estava a tratar da migração para outro servidor, esperando que essa operação fosse concluída até esta terça-feira.
"É como ter uma tabaqueira a controlar o trabalho da OMS"
Para a eurodeputada da Esquerda europeia Manon Aubry, que subscreveu um apelo internacional para afastar Sultan Al Jaber da liderança da COP28, "isto é um escândalo absoluto" e é como "ter uma multinacional da indústria tabaqueira a controlar o trabalho da Organização Mundial de Saúde".
Para Pascoe Sabido, do Corporate Europe Observatory, "é totalmente inapropriado que uma petrolífera seja consultada e isso mostra o quão influente tem sido na formulação do que é apresentado ao mundo" por parte da COP28. "Até que os governos mundiais aceitem que os combustíveis fósseis devem ficar no solo e os seus lobistas não devem poder escrever as regras da ação climática, isto vai voltar a acontecer", avisa.