Genocídio

Em Gaza, “a única coisa a entrar são as bombas” e 14 mil bebés podem morrer à fome nas próximas horas

20 de maio 2025 - 11:46

ONU diz que 14 mil bebés podem morrer à fome nas próximas horas se a ajuda não entrar na Faixa de Gaza e diz que os poucos camiões que Israel autorizou “são uma gota no oceano” e nem sequer chegaram aos civis.

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Palestinianos deslocados internamente saem com os seus pertences após uma ordem de evacuação emitida pelo exército israelita do norte da Faixa de Gaza, na Cidade de Gaza esta segnda-feira.
Palestinianos deslocados internamente saem com os seus pertences após uma ordem de evacuação emitida pelo exército israelita do norte da Faixa de Gaza, na Cidade de Gaza esta segnda-feira. Foto Mohammed Saber/EPA

A Agência da ONU para os Refugiados Palestinianos denuncia que “a Faixa de Gaza está provavelmente a viver a sua maior crise humanitária desde outubro de 2023”, com a intensificação dos bombardeamentos israelitas “a partir do ar, terra e mar e que resultaram em centenas de mortes e deslocamentos em massa”.

“Nas últimas 11 semanas, as autoridades israelitas bloquearam deliberadamente todos os mantimentos para Gaza. A única coisa a entrar agora em Gaza são as bombas. Ninguém está seguro”, alerta a UNWRA.

O responsável pela ação humanitária da ONU, Tom Fletcher, afirmou esta terça-feira à BBC Radio 4 que os poucos camiões que Israel deixou passar na véspera, “são uma gota no oceano” e nem sequer chegaram à população civil que precisa desesperadamente dos alimentos nomeadamente para os bebés. Segundo Fletcher, os cinco camiões tecnicamente estão em Gaza, mas do outro lado da fronteira. E se a ajuda suficiente não chegar em 48 horas, o responsável da ONU diz que 14 mil bebés poderão morrer à fome no território.

Ao contrário da vontade de Netanyahu, que pretende instalar o seu próprio sistema de distribuição de alimentos em Gaza, controlado pelo exército, as Nações Unidas e outras redes no terreno dizem estar prontas a distribuir alimentos desde já. Questionado sobre como chegou à estimativa dos 14 mil bebés em risco iminente de vida, Fletcher respondeu: “Temos fortes equipas no terreno - é certo que muitos deles já foram mortos - mas ainda temos muita gente no terreno, estão nos centros médicos, nas escolas, a procurar avaliar as necessidades”.

Esta terça-feira foi também divulgado o apelo de 761 ONG e grupos de ajuda internacionais a apelar ao mundo para pôr cobro à “fome provocada” em Gaza e ao cerco israelita que dura há mais de dois meses.

“Apelamos aos Estados para que se juntem ao comboio humanitário enviando missões diplomáticas oficiais - ao mais alto nível possível - para acompanhar os camiões de ajuda que já estão à espera na passagem de Rafah e para entrar em Gaza ao lado deles”, afirma a petição, acrescentando que “este ato baseia-se nas obrigações legais dos Estados, na coragem moral e na solidariedade humana”.

França, Reino Unido e Canadá sobem o tom das críticas

Com os governos de todo o mundo a assistirem ao agravar do genocídio da população de Gaza por parte de Israel sem mais oposição do que algumas críticas e condenações de circunstância, foi notícia esta segunda-feira o comunicado com palavras mais duras subscrito por Emmanuel Macron, Keir Starmer e Mark Carney.

Neste comunicado conjunto, os três países dizem que “o nível de sofrimento humano em Gaza é intolerável” e apelam ao fim imediato das operações militares israelitas e ao retomar da distribuição da ajuda humanitária, bem como à libertação dos restantes reféns na posse do Hamas. Criticam também as declarações de governantes israelitas em defesa da expulsão dos palestinianos de Gaza e lembram que isso seria uma violação do direito internacional.

Os líderes da França, Reino Unido e Canadá prometem “não ficar de braços cruzados enquanto o governo de Netanyahu prossegue estas ações escandalosas” e ameaçam tomar “outras medidas concretas em resposta”, comprometendo-se ainda a apoiar o reconhecimento do Estado da Palestina “como contributo para a realização de uma solução de dois estados”.

Na resposta, o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu diz que a posição conjunta daqueles países é “uma enorme recompensa” para o Hamas. Afirmando estar a travar “uma guerra da civilização contra a barbárie”, em que ele supostamente estaria do lado da civilização que já matou mais de 50 mil palestinianos, provocou a fome entre os restantes e dizimou infraestruturas por toda a Faixa de Gaza, Netanyahu promete ainda que o Estado sionista irá “continuar a defender-se por meios justos até à vitória final”.

Por seu lado, o ministro das Finanças da extrema-direita, Bezalel Smotrich, acusou os líderes da França, Reino Unido e Canadá de antissemitismo e de estarem apostados em reconhecer o Estado da Palestina, o que diz ser “recompensar o terrorismo”. “Israel não vai baixar a cabeça perante esta hipocrisia moral, antissemitismo e unilateralidade”, afirmou Smotrich num post no X, acusando os três países de “se alinharem moralmente com uma organização terrorista”.