Egito: combate para desalojar os militares continua a ser eixo fundamental

07 de dezembro 2011 - 15:17

Nesta entrevista ao Esquerda.net, Adam Hanieh, professor da Universidade de Londres, discute os dilemas e desafios da Revolução Egípcia. Entrevista conduzida por Adriano Campos.

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Fila para votar nas eleições egípcias. Foto Kodak-Agfa, FlickR

Qual é a sua principal leitura dos resultados eleitorais nestas eleições egípcias e da realidade pós-eleitoral com que agora se deparam os movimentos populares?

Primeiro, é importante ser claro sobre o que foram estas eleições. A ronda de votações que começou no dia 28 de Novembro foi a primeira de três etapas para a eleição da Assembleia do Povo, que é a câmara baixa do Parlamento. Esta etapa de voto decorreu em nove províncias (há 27 províncias no total). Todas as três etapas desta eleição estarão terminadas no dia 10 de Janeiro.

O sistema eleitoral para esta eleição é um sistema misto com dois métodos de escolha de candidatos. O primeiro método é o da lista partidária onde o voto conta através de representação proporcional. Dois terços dos lugares no parlamento serão decididos desta maneira. O segundo método é através de candidaturas uninominais, onde o candidato com mais votos ganha o lugar (havendo uma segunda volta se nenhum dos candidatos alcançar 50% mais um do total de votos). Um terço dos lugares no parlamento será decidido através deste método. Ambas candidaturas, uninominais e listas partidárias, são escrutinadas simultaneamente.

As eleições para a câmara alta (Shura Council) começam no dia 29 de Janeiro e terminam no dia 11 de Março. Na câmara alta, no entanto, 80 dos 270 lugares serão nomeados pelos militares egípcios.

O resultado final da primeira etapa ainda não está disponível no momento em que escrevo, mas tudo indica que o bloco liderado pela Irmandade Muçulmana (IM) saiu-se muito bem (alcançando provavelmente 40% dos lugares), seguido pelo partido Salafista AlNour (20%) e pelo Bloco Egípcio (uma coligação de esquerda-liberal e forças pró-negócios que se uniu em torno de um programa de oposição à IM) com 15%.

A Esquerda esteve representada pelo Revolution Continues Alliance (RCA), que juntou forças socialistas, partidos recém-criados saídos da revolução e um grupo dissidente da juventude da IM. O RCA vai provavelmente alcançar os 3% e pode dispor de cinco ou mais lugares no novo Parlamento. Um resultado bastante impressionante para uma nova coligação com poucos recursos.

A comparência às urnas foi alta (62%), o que mostra que as pessoas estavam ansiosas por participar no novo processo político na nova era pós-Mubarak (a primeira ronda das eleições parlamentares em 2005 apenas registaram 23% de participação). Embora tenha havido relatos de intimidação e violência, parece que a votação transcorreu sem uma interferência de larga escala.

Os resultados surpreenderam-no?

Os resultados em si não são, na minha opinião, particularmente surpreendentes. A forte presença da IM é indicativa da sua profunda implantação na sociedade e do seu acesso a recursos. Na era Mubarak, a IM foi, com efeito, uma oposição semi-ilegal com uma longa história de organização em todo o país. A maioria dos outros partidos (incluindo os partidos da esquerda) apenas recentemente se formaram ou passaram a organizar-se de forma aberta, e é impossível esperar que alcancem a IM nesta fase.

Os partidos islamitas foram muito bem financiados (particularmente pelos países árabes do Golfo Pérsico) – isto fez muita diferença na sua capacidade de realizar a campanha em todo o país). Além do mais, nas zonas rurais, os outros partidos têm uma presença muito mais fraca que a IM, que construiu redes de suporte e patrocínio durante muitos anos. Talvez o único aspeto surpreendente das eleições foi a forte presença do partido Al Nour. Novamente, isso é devido ao acesso a recursos e a uma organização altamente eficaz através de mesquitas e outras instituições religiosas – não é indicativo do número de aderentes safalistas no Egipto.

Apesar do significado simbólico destas eleições, as verdadeiras questões em face da revolução continuam sem resposta. Uma chave é, claro, a posição dos militares no aparelho de Estado. Mais de 12 mil pessoas enfrentaram os tribunais militares desde a partida de Mubarak. Os militares têm todo o controlo do processo político e têm trabalhado para minar e difamar os movimentos populares. As massivas mobilizações nas semanas que antecederam as eleições foram indicativas da crescente fúria face à tentativa dos militares para manterem o controlo. Estima-se que mais de um milhão de pessoas tomaram as ruas em todo o país durante esse tempo. No principal campo de batalha da revolução no Cairo, a Praça Tahrir, mais pessoas estiverem presentes do que nos protestos contra Mubarak. A violência infligida contra estes manifestantes mostra até que ponto os militares estão dispostos a ir para manter o controlo, e não há nenhuma indicação substantiva que isso vá mudar num futuro próximo. O combate para desalojar os militares continuará a ser um eixo fundamental de luta.

As questões fundamentais, no entanto, vão muito para além do papel dos militares. A revolução despertou enormes expectativas de uma mudança real na vida diária das pessoas. Depois de décadas de neoliberalismo, a sociedade egípcia assistiu a uma extrema polarização da riqueza e à deterioração das condições de vida da vasta maioria da população. Milhões de pessoas foram marginalizadas e lutam para sobreviver no sector informal. Há também a questão da atitude servil do governo e do exército Egípcio para com o poder norte-americano no Médio Oriente, expressa mais claramente no extenso processo, ao longo de décadas, de normalização com Israel. Estas questões políticas e económicas estão interligadas e não é possível resolver a questão da “democracia” sem levar a revolução avante e enfrentar todos estes assuntos. De facto, a posição dos militares está muito ligada à política económica do país e à sua relação com os EUA e Israel. Por estas razões, o capitalismo Egípcio tem uma forte tendência no sentido de uma forma autocrática – seja através do poder de um indivíduo (como Mubarak) ou através de uma democracia liberal de fachada na qual os militares retêm o verdadeiro poder atrás da cena.

Isso quer dizer que a revolução vai retroceder?

O processo de politização que tem ocorrido desde Janeiro é extraordinário. O velho adágio de que as pessoas mudam através do processo de luta é verdade no Egito numa escala de, literalmente, milhões de pessoas. Isto é muito importante, na medida em que fornece a base social potencial de uma liderança mais ampla e forte, que pode levar a revolução adiante. Podemos ver o crescente desenvolvimento de consciência nos últimos meses – o reconhecimento, por exemplo, de que o problema não reside apenas nos indivíduos corruptos como Mubarak mas que também passa por enfrentar o poder de instituições como o Exército. O rápido crescimento de sindicatos independentes (de 90 para 250 em apenas alguns meses) e a greve que ocorreu em Setembro é outra indicação que a revolução começa claramente a interligar as suas exigências políticas e económicas.

Mas apesar do grau de militância e do tamanho das mobilizações antes das eleições (e da recente onda grevista) devemos reconhecer que desafios significativos permanecem. Os protestos de Novembro representam as camadas mais avançadas do movimento que derrubou Mubarak. A vasta maioria da população, no entanto, permanece passiva e inclinada a acreditar na possibilidade de reformar as instituições do Estado pouco a pouco. Embora ache que é verdadeiro dizer que a maioria quer ver os militares fora da política, há ilusões de que isso pode ser alcançado apenas através de eleições. É preciso haver um aprofundamento da experiência para as pessoas perceberem que as eleições não irão mudar radicalmente a situação. Aliás, o Exército está a tentar usar as eleições para fortalecer a sua legitimidade e as suas credenciais democráticas. Por estas razões, é preciso haver um nível muito mais profundo de auto-organização e mobilização entre a classe trabalhadora. Na minha opinião, esse é o maior desafio da revolução egípcia.

Adam Hanieh é professor da Universidade de Londres, ativista da causa palestiniana e autor do livro Capitalism and Class in the Gulf Arab States.

Leia no próximo sábado a segunda parte desta entrevista.