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Eduardo Metzner, fundador do PCP e tradutor de Trotsky

“Anarquista comunista”, combateu a monarquia, foi crítico da República e analisou a revolução russa antes de morrer, há um século, aos 35 anos, vítima da tuberculose. Por Luís Carvalho.
Eduardo Metzner retratado por Almada Negreiros [Diário de Lisboa, 20/02/1922, p.5]
Eduardo Metzner retratado por Almada Negreiros [Diário de Lisboa, 20/02/1922, p.5]

Em 1919 e 1920, Trotsky foi o dirigente bolchevique mais vezes traduzido pelo jornal «A Bandeira Vermelha», de Lisboa. Este era o órgão da «Federação Maximalista Portuguesa», estrutura embrião do futuro Partido Comunista Português (PCP). Teve por diretor o ferroviário Manuel Ribeiro.1

Antes disso, já em Janeiro e Fevereiro de 1918 tinha havido dois textos de Trotsky traduzidos e publicados em Portugal, pela revista «A Sementeira». Esta era uma publicação anarquista, dirigida por Hilário Marques, operário do Arsenal da Marinha.2

Tais traduções refletem o interesse e simpatia que a revolução bolchevique suscitou à época em militantes sindicais e anarquistas portugueses.3 E refletem também o papel central de Trotsky nessa revolução, sendo apontado, “ao lado de Lénine”, como “a personalidade mais marcante”.4

Estamos aqui a falar de pequenos artigos de imprensa, alguma carta aberta ou uma entrevista.

Um texto de Trotsky um pouco mais desenvolvido, veio à língua portuguesa pela mão do jornalista Eduardo Metzner.

Surgiu em jeito de prefácio à 3ª edição da «Constituição Política da República dos Sovietes» traduzida por Metzner. E fez parte do importante contributo que este deu para a divulgação da Revolução Russa e para a fundação do PCP.

I

22 de Dezembro de 1920. Rua António Maria Cardoso, em Lisboa.

No mesmo edifício que será depois sede da PIDE: tem início a primeira reunião da “comissão organizadora” do PCP5.

Na altura o que funcionava ali era a sede de um sindicato. Ou «associação de classe», como era mais comum dizer-se à época. Neste caso, dos «Caixeiros de Lisboa».6

Quem preside a essa reunião é Eduardo Metzner. Mas a polícia invade o edifício e proíbe a continuação dos trabalhos. Parece que “além dos promotores da referida reunião não possuírem a autorização do chefe do distrito [o governador civil], não devia ela realizar-se numa associação de classe, onde não podem ser discutidos assuntos políticos”!7

Acresce que, logo à partida, um dos 18 membros dessa comissão, não podia participar, pois estava na situação de preso político há já dois meses: o mencionado Manuel Ribeiro.

Era o Portugal da 1ª República…

II

6 de Março de 1921. Rua da Madalena, Lisboa.

Noutra sede sindical, a dos «Empregados de Escritório»: são aprovados os primeiros estatutos do PCP e eleitos os seus primeiros “corpos diretivos” centrais.

Eram três: a “Junta Nacional”, a “Comissão Geral de Educação e Propaganda” e o “Conselho Económico Nacional”.8

Eduardo Metzner faz parte da Comissão de Educação e Propaganda”. A este órgão cabia promover a formação política, cultural e profissional dos trabalhadores, por meio de “conferências científicas, literárias e artísticas”, escolas e bibliotecas.

Quanto ao “Conselho Económico”, ficava responsável pela “administração financeira do Partido”.

A “Junta Nacional” era “o mais alto corpo executivo”, a quem competia “dirigir superiormente a acção política geral do Partido”. E teve como secretário Henrique Caetano de Sousa.9

Esta estrutura tripartida funcionou apenas por um ano. Em março de 1922 foi substituída por um “comité executivo”. Mas Metzner já não assistiu a isso…

III

20 de Fevereiro de 1922. Hospital de S. José.

Eduardo Metzner tem uma morte precoce, com apenas 35 anos de idade. Vitimado pela tuberculose, como tanta gente no Portugal daquele tempo.

O mesmo aconteceria aliás a vários outros fundadores e quadros iniciais do PCP. Foi esse o caso, entre outros, de Sebastião Eugénio e António Teixeira Danton, dirigentes do sindicato dos funcionários públicos; e de José Tavares dos Santos, líder sindical no Arsenal da Marinha.

O funeral de Metzner saiu da sede do sindicato dos jornalistas que existia à época, a «Associação dos Trabalhadores da Imprensa». E com o caixão coberto pela bandeira desse sindicato.10

Foi o primeiro funeral de um dirigente do PCP.

IV

O tempo de Metzner como dirigente do PCP não chegou a durar um ano. Mas ainda deu um contributo para a divulgação das primeiras ideias deste partido. Desde logo em duas entrevistas à imprensa.

Na primeira, em Fevereiro de 1921, ainda como membro da «comissão organizadora» do PCP, expressa duas preocupações centrais para o novo partido: a repressão política e a injustiça social.

Defende uma ampla amnistia para “presos por questões políticas e sociais, sem distinção de bandeiras ou escolas, - monárquicos, sindicalistas implicados em delitos de greve e soldados [acusados de deserção ou de amotinação no contexto da 1ª Guerra Mundial]. A estes últimos, chama de “mártires sobreviventes das monstruosas hecatombes da Grande Guerra”.

Metzner traça uma análise crítica do percurso da 1ª República: “demagogia - negação da liberdade, - nepotismo, compadrio e clientelas - triângulo basilar do enredo politicante - protecionismo descarado aos potentados do alto comércio e da finança - fulcro de sórdidos interesses materiais, - eis, em suma, os vértices [...] em que se tem debatido o país em dois lustros de pseudo democracia”.

Nesta entrevista, reitera ainda as suas convicções marcadas pelo anarquismo: “revolucionário de sempre, mais uma vez afirmo em público que, sendo comunista libertário, não transijo com qualquer movimento de regressão ao passado”.11

V

Numa segunda entrevista, agora como membro da “Comissão Geral de Educação e Propaganda” do PCP, Eduardo Metzner defende duas ideias que já não eram consensuais no seio do novo partido. Por um lado, advoga a intervenção eleitoral e parlamentar. Por outro lado, considera algo longínqua a perspectiva de uma revolução social. E alvitra que esta seria fruto de um contexto europeu.

Explica que o PCP nasceu da “necessidade de criar uma organização extra-sindical”, dado que o sindicalismo revolucionário, de influência anarquista, “tratando só”, essencialmente, de reivindicações económicas, “tem repugnância em tomar parte nas lutas políticas e é obstinadamente anti-parlamentarista”.

Ora, para Metzner é preciso “a luta dos avançados com os conservadores dentro do parlamento”. Segundo ele, o jovem PCP “pretende aproveitar a intervenção parlamentar para criar atmosfera revolucionária ao mesmo tempo que organiza o operariado revolucionariamente como milícia para [no] momento da revolução poder agir”.

Quando seria esse momento? Remete-o para “quando se der a revolução social no Ocidente Europeu”. O que não está muito próximo, “devido ao reacionarismo do proletariado francês e ao isolamento do proletariado inglês”.

Até lá, é preciso fazer “pressão sobre os burgueses, obrigando-os a concessões sucessivas”.12

VI

Eduardo Henrique Metzner nasceu a 20 de março de 1886, em Lisboa. Na Travessa das Parreiras à Rua de Santa Marta.

Viveu algum tempo em Coimbra e em Loures. Também teve alguma ligação a Setúbal13. Mas foi na cidade de Lisboa que passou a maior parte da sua vida.

Ultimamente, morava no Bairro Alto, no 3º andar do nº 14 da Rua das Salgadeiras. E era um dos clientes mais assíduos no café «A Brasileira», no Chiado, na altura um importante ponto de encontro de jornalistas e escritores.

Filho de um encadernador, estudou na Casa Pia de Lisboa, em cuja biblioteca terá começado a despertar para a poesia. Chegou a ser seminarista em Coimbra. Mas cedo abandonou o horizonte de uma carreira eclesiástica. Jovem revoltado com a desigualdade e a injustiça social, “tornou-se um dos mais audazes panfletários contra a monarquia”.14

VII

Eduardo Metzner saltou para a ribalta aos 21 anos de idade. Publicou então vários poemas dedicados a vultos republicanos como António José de Almeida, Guerra Junqueiro e Afonso Costa. Mas já lhe vibrava no espírito um ideal mais avançado, o anarquismo.

E logo a repressão monárquica ‘reparou’ nele…

Metzner teve uma primeira experiência como preso político em 1907, sob a ditadura de João Franco. No último ano do reinado de D. Carlos. Segundo diferentes relatos da época, terá sido detido quando estava à conversa com alguns amigos, numa rua da baixa de Lisboa. Terá criticado um recente caso de repressão. Um agente da polícia que ia a passar ouviu a conversa... E Metzner ‘ganhou’ uma ‘estadia’ de oito dias na prisão.

Nesse momento, foi enaltecido pela imprensa republicana. Mas esse apoio durou pouco tempo. Até Metzner começar expressar o seu sentido crítico como anarquista…

Marcou a distância ao publicar um volume intitulado «A República é uma mentira política: resposta ao opúsculo de Bernardino Machado “Só a República é a verdade”». E não tardou a ser alvo da resposta típica que na imprensa republicana seria disparada contra muitos militantes operários e sindicais: a insinuação de estar feito com os monárquicos!

VIII

Tornado crítico do Partido Republicano, Metzner não deixou todavia de visar o regime que ainda vigorava. Em 1909, lança e dirige o jornal A Revolta. Durou pouco tempo, mas deu mais uma estocada na monarquia. Logo no primeiro editorial aponta o dedo: “a sociedade portuguesa desconjunta-se e precipita-se num abismo de corrupção”. 15

Para ele, a dicotomia Monarquia ou República é uma questão secundária. O que advoga é uma “atitude democrata radical”.16 A seu ver, “só com uma democracia honesta se pode salvar o país”… Que seja “uma monarquia democrata ou uma República radical”, mas “sem oligarquias burguesas odiosas como em França, como nos Estados Unidos da América do norte ou do Brasil".17

Como referência teórica, Metzner divulga excertos da obra «As mentiras convencionais da nossa civilização», de Max Nordau.18

É um livro que teve uma projeção significativa em Portugal, no universo de ativistas republicanos e anarquistas. Somou por cá pelo menos sete edições entre 1887 e 1911. Nordau critica as "mentiras convencionais” em instituições como a religião, a monarquia e a família, mas também visa a política liberal e oligárquica da época, incluindo a política republicana.

IX

O regime político monárquico é derrubado a 5 de outubro de 1910, numa revolução que desperta um certo entusiasmo em Eduardo Metzner, com a sua forte participação popular em Lisboa e arredores.

Ele terá de seguida trabalhado ao serviço de uma das reformas que o novo regime concretiza: o registo civil (como serviço do Estado) que vem substituir os antigos registos paroquiais (na alçada da Igreja Católica).

Mas Metzner não perde o seu sentido crítico. Numa perspetiva semelhante a outros militantes libertários e a sindicalistas, não se coíbe de contestar a política fiscal e económica ou a repressão política sob o novo regime.

Dois anos depois da “data inesquecível de 5 de Outubro”, brada que “as promessas não foram cumpridas” e que o Estado está capturado por “mamíferos famélicos da vaca do orçamento”, à custa da qual alimentam “as fortunas e os créditos colossais dos seus estabelecimentos de comércio”.19

Há todavia um aspecto fulcral em que, a exemplo de outros anarquistas (como Carlos Rates, Emilio Costa e Manuel Ribeiro), Metzner acompanha o regime republicano. É quando toma partido pela aliança franco-inglesa (e russa) contra a Alemanha, na 1ª Guerra Mundial. Publica mesmo um opúsculo de poesia bradando contra os alemães a quem se refere como os «Bárbaros do Norte».20

Porém, a guerra arrasta-se. Com “monstruosas hecatombes” nos campos de batalha. E gera uma profunda crise social à escala europeia, para as populações civis.

Nesta altura, Metzner traduz um livro de reflexão sobre «As primeiras consequências da Guerra», do antropólogo francês Gustave Le Bon.21

É um autor que está longe de ser socialista. Mas afirma que com a guerra, “desvaneceram-se muitas das ilusões, que eram consideradas como certezas”. Que “o bloco constituído pelas tradições desagrega-se”, que “os antigos alicerces da vida social afundam-se”. E que ”tudo se transforma ou está em via de transformação”.22

X

Uma das tradições que a guerra desagregou foi a monarquia czarista na Rússia, em março de 1917. Oito meses depois, um partido operário tomava o poder. Era a Revolução Bolchevique, liderada por Lénine e Trotsky!

Em Lisboa, um mês depois, a república parlamentar é derrubada pelo golpe militar de Sidónio Pais. E a crise social é profunda. Em 1918, Metzner denuncia: “o Povo sofre! É preciso ir aos bairros excêntricos da capital… a Fome estabeleceu ali os seus arraiais… as Famílias proletárias estiolam-se nos seus casebres infectos; andrajosos e famintos, os filhos dos operários pedem esmola… nos Lares dos miseráveis não há pão [...] Não há carvão, não há batatas, não há arroz…”

Considera que “estamos em vésperas duma convulsão tremenda… O povo, que tem fome, agita-se”. E refere-se ao impacto da Revolução Bolchevique: “o vento revolucionário que sopra das steppes russas, rajada alucinante, sugestiona de uma maneira extraordinária o espírito meridional das nossas multidões”. O movimento bolchevique “está exercendo uma poderosa sugestão”.23

Metzner entusiasma-se, mas sem perder o seu sentido crítico.

Desdenha a precipitação em Portugal de “um movimento revolucionário, que, sem a conveniente preparação da consciência colectiva, resultaria nulo, fazendo-nos regressar, como sucederá na Rússia, ao regimen absolutista ou à oclocracia desvairada”.

Advoga uma reforma fiscal: “a tributação dos novos ricos, os que têm lucrado com a guerra”. E que esse “imposto seja aplicado, sem demora, à resolução da crise económica que nos assoberba”.24

Apesar deste tom moderado e ‘reformista’, Metzner volta a ser preso político, agora sob a ditadura de Sidónio Pais.

XI

No contexto da guerra, da crise social e da revolução russa, há um conjunto significativo de intelectuais anarquistas que se aproximam do velho Partido Socialista Português. Há um repensar acerca do papel do Estado na transformação social.

Alguns, como Sobral de Campos e Campos Lima, vão colaborar com o primeiro socialista a ser ministro na história de Portugal: Augusto Dias da Silva, que assume a pasta do trabalho em 1919. Já o casal Lucinda Tavares e Afonso Manaças, esses filiam-se mesmo no Partido Socialista.

Da parte de Metzner também é visível alguma aproximação. Publica pelo menos um poema no jornal do sindicato dos operários do Arsenal da Marinha, na altura liderado por militantes socialistas. E torna-se depois redator do diário socialista O Combate.

XII

Entretanto, Metzner dedica-se a estudar e a divulgar o que está a acontecer na Rússia. Além de traduzir a «Constituição Política da República dos Sovietes», a que acrescenta o dito texto de Trotsky, publica também um livro de sua autoria: «A verdade acerca da Revolução Russa» (1919).

Longe de ser um mero livro de propaganda, denota uma clara preocupação de procurar informação documentada. A mesma postura seria aliás visível noutros fundadores do PCP, como Manuel Ribeiro, ao traduzir o livro «A Rússia Sovietista» de Etienne Antonelli (1919). Ou José da Silva Oliveira, ao editar o livro «Um notário espanhol na Rússia», de Diego Hidalgo (1930).

No seu livro, aos documentos Metzner acrescenta o seu sentido crítico.

Não esconde, em prefácio, o entusiasmo pelo que afirma ser “a mais espantosa transformação social de todos os tempos”. Mas não deixa de lhe reprovar alguns “excessos” e “abusos contra a Liberdade”.

Como referência intelectual, e ética, Metzner evoca o escritor Máximo Gorki. E conta que este mantinha na altura uma certa distância em relação ao Partido Bolchevique: “censurou por vezes em linguagem fustigante o procedimento de Lénine, Trotsky e muitos dos seus satélites, quando estes desvairados pelo tóxico corrosivo do poder, se esqueceram da missão pacificadora que lhes competia após a vitória do movimento revolucionário”.

Por outro lado, Metzner considera que o sistema de sovietes é de “difícil adaptação” aos países ocidentais. E manifesta a sua preferência pelo modelo do sindicalismo revolucionário, de inspiração anarquista - no qual seriam os sindicatos a assumir o controlo da produção e a substituir o poder do Estado.

Reafirma-se como “anarquista comunista”, que “oportunamente” adota uma postura “intervencionista”. Recupera aqui um termo, “intervencionista”, que já tinha sido utilizado por anarquistas envolvidos na luta pela implantação da República portuguesa, em 1910.

Teria sido certamente interessante ouvir Metzner acerca da evolução do regime soviético depois de 1922…

XIII

Anexo: A República dos Soviets, por Lev Trotsky

[tradução de Eduardo Metzner]25

 

É já conhecida a diferença fundamental que existe entre o parlamentarismo e os soviets.

Estes não outorgam nenhum direito político às classes não produtoras, as quais estão inibidas até de exercer o direito ao sufrágio. O país é governado pelos soviets, eleitos pela povoação trabalhadora, nos próprios locais em que se trabalha, nas fábricas e oficinas, nas minas, nas aldeias.

A burguesia, os proprietários territoriais, os intelectuais burgueses, os banqueiros, os negociantes e especuladores, os comerciantes, os sacerdotes e os frades, enfim, todos os que constituem o exército negro do capitalismo, ficam privados de direitos e sob a alçada do poder político.

A base da república parlamentar é a Assembleia Constituinte; na república comunista a representação máxima da soberania corresponde ao Congresso dos soviets.

Em que diferem uma da outra?

É em que, para a Constituinte, não são apenas os representantes dos operários e dos camponeses, mas também os representantes dos proprietários, dos banqueiros, dos capitalistas: a burguesia com todos os seus cúmplices.

A prática demonstra que, onde a burguesia desfrutar de todos os direitos, se serve deles para ludibriar a classe operária e os camponeses.

Porquê? Pela razão de que a burguesia é detentora da Imprensa e está de posse de grandes riquezas, pode corromper os funcionários, aproveitar os serviços de milhares de agentes dedicados, ameaçar, intimidar sempre todos os seus escravos e organizar as coisas de forma tal que parte alguma do poder escapa à sua influência.

O povo participa, aparentemente, nas eleições; contudo, sob essa ficção, oculta-se o domínio do capital que se arroga de conceder ao Povo o direito do sufrágio e de todas as liberdades democráticas.

No entanto procura manter os seus privilégios.

E tanto assim é que, nos países da república burguesa, apesar do sufrágio universal, o poder encontra-se plenamente nas mãos dos grandes potentados do capital.

No sistema parlamentar os cidadãos vão, de quatro em quatro ou de cinco em cinco anos, deitar a lista do voto na urna e deixam o campo livre aos deputados, aos ministros e aos presidentes que dirigem os negócios da nação alheados por completo das massas trabalhadoras, e estas são exploradas pelos funcionários do Estado burguês que não lhes consente participar na administração pública.

Na República sovietista a administração apoia-se numa base inteiramente nova. Não é um organismo de funcionários independentes das multidões e dependentes da burguesia. O governo central tem como sustentáculo as grandes organizações da classe dos operários e dos camponeses: os sindicatos, de fábrica, os soviets locais de trabalhadores e camponeses, os agrupamentos de soldados e marinheiros.

Da organização central partem os milhares de fios condutores que unem a ela os soviets provinciais, de distrito, de município e, por último, os das fábricas e oficinas.

Por exemplo, o soviet superior de economia política é composto pelas comissões sindicais, dos comités das fábricas e de organizações similares.

Por um lado, os sindicatos abrangem toda a atividade industrial, têm ramificações que se estendem pelas diferentes cidades e têm como apoio as massas operárias organizadas; por outro lado, existe em cada fábrica um comité eleito pelos operários.

Estes comités constituem-se em grupo e enviam os seus representantes ao soviet superior de economia política que elabora os projetos de transformação económica e administra a produção.

Desta maneira, o organismo central da administração acha-se constituído pelos representantes operários e tem o seu sustentáculo na massas da classe trabalhadora.

Outra instituição é esta que difere da República burguesa não só porque a burguesia não tem direito ao voto, nem porque o país se encontre administrado pelos operários e camponeses, mas também porque o Governo dos soviets se encontra em relação permanente com as massas organizadas e por esta forma, a todo o tempo, a maior representação popular participa na administração do Estado.

Cada trabalhador organizado exerce uma influência não apenas porque elege, uma ou duas vezes por mês, os seus homens de confiança, mas também porque os sindicatos podem de si para si elaborar os seus próprios projectos de organização.

Estes projectos são examinados nos soviets correspondentes e, no caso de serem aprovados, têm força de lei desde o momento em que sejam ratificados pelo comité executivo dos soviets.

Desta maneira, qualquer sindicato ou comité de fábrica pode tomar parte no trabalho comum de edificação das novas formas de vida.

Na república burguesa a situação do estado é tanto melhor quanto mais limitada for a atividade das multidões, porque os interesses das multidões estão em antagonismo com os interesses do Estado capitalista.

A república dos soviets que encarna a ditadura das massas populares não pode subsistir, um momento só que seja, sem o apoio delas. Pelo contrário, é tanto mais forte quanto as massas forem mais conscientes e desenvolvam maior atividade nas fábricas, oficinas, cidades e aldeias.

Antes da Revolução de Outubro as organizações operárias e camponesas limitavam-se a ser instrumentos de luta de classe contra a burguesia imperante e detentora.

Combatiam o capital para obter salários mais elevados e horário de trabalho mais reduzido; e, nas aldeias, pugnaram pela expropriação das terras.

Atualmente, por que o poder se acha nas mãos dos trabalhadores e camponeses, são rodas do maquinismo governamental.

Os sindicatos não combatem somente o capitalismo, mas toma parte, também, como órgãos do governo dos soviets, na organização da produção e da atividade económica.

De igual maneira os soviets aldeões não combatem contra os usurários, contra a burguesia e os proprietários territoriais, mas no conceito de órgãos do Governo, como rodas desse maquinismo gigantesco que constitui o Estado operário e camponês, e trabalham na elaboração de novas leis agrárias.

Por forma que, a pouco e pouco, em virtude das organizações operárias e camponesas, uma enorme maioria da população ativa concorre na intervenção nos negócios do Estado.

Nenhum outro país oferece um exemplo semelhante, porque, na verdade, nenhum outro conhece o que é a vitória da classe trabalhadora, a ditadura do proletariado, a república dos soviets.

Muito se havia escrito acerca da ditadura do proletariado, contudo ninguém sabia com precisão a forma de pô-la em prática.

A revolução russa mostra-nos a forma da ditadura.

É a república dos soviets sob cuja bandeira militam as melhores falanges do proletariado internacional.

 

Notas

1 A coleção da revista A Sementeira pode ser consultada aqui.

3 Antonelli (1919), La Russie bolcheviste, Paris: Bernard Grasset, p.48

4 A “comissão organizadora” do PCP tinha sido formada três dias antes, no mesmo local. Resultou de um debate “entre militantes operários sindicalistas e socialistas” [A Batalha, 20.12.1920, p.1].

5 A ditadura de Salazar não foi original ao instalar a sede da sua polícia política num edifício marcante na história do movimento operário. Seguiu um exemplo de Adolf Hitler, como já aflorado no artigo ”A primeira reunião do PCP foi logo proibida, ainda em 1920”, in Voz do Operário (2021).

6 O Mundo, 23/12/1920, p.2

7 A Batalha, 07/03/1921, p.1

8 O Comunista, 23/10/1921, p.4

9 Imprensa de Lisboa, 28/02/1920, p.1

10 O Século (edição da noite), 18/07/1921, p.1

13 A Revolta, 26/09/1909, p.1.

14 Ibidem, 03/10/1909, p.2.

15 Ibidem, 03/10/1909, p.1.

16 ibidem, 03/10/1909, pp. 1 e 2; 10/10/1909, p.1

17 Metzner (1915), Os bárbaros do norte, Lisboa: Tipografia A Modesta

18 Le Bon já anteriormente tinha conquistado uma certa audiência em Portugal, com o livro «A psicologia das multidões», traduzido pelo destacado republicano Agostinho Fortes.

19 Le Bon (s/d), As primeiras consequências da guerra, Lisboa: Tipografia Francisco Luís Gonçalves, p.5

20 A Vanguarda, 06/03/1918, p.1

21 ibidem, 08/03/1918, p.1

22 In A Constituição da República dos Sovietes (sem data indicada, mas cerca de 1919), Lisboa: Empresa Editora Popular, pp. 3-8. Transcreve-se aqui com atualização ortográfica e a correção de algumas gralhas evidentes.

23 Os outros autores bolcheviques traduzidos pelo jornal A Bandeira Vermelha, mas de uma forma mais espaçada ou pontual, foram: Lénine (o líder bolchevique), Lunatcharski (responsável pela cultura), Zinoviev (responsável pela Internacional Comunista) e Lozovsky (responsável pela «Internacional Sindical Vermelha»). A coleção deste jornal está disponível para consulta aqui.

24 A «Associação dos Trabalhadores da Imprensa» tinha um carácter misto, simultaneamente sindicato e associação mutualista. Em 1925, destrinçaram-se estas vertentes, dando-se lugar a duas estruturas autónomas, o «Sindicato dos Profissionais de Imprensa de Lisboa», que acabaria encerrado pela ditadura de Salazar, no final de 1933; e a associação mutualista «Casa da Imprensa», que ainda hoje existe.

25 Metzner (1912), Falperra de gorro frígio, Lisboa: edição do autor, p. 5-6.

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