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E as pessoas, pá?

O debate entre António Costa e Rui Rio teve, não apenas honras de transmissão nos três principais canais generalistas, mas também doses massivas de promoção ao longo do dia.. Por Jorge Martins
Ambos mostraram que estão relativamente próximos e aquilo que pretendem é conquistar o chamado “centro”
Ambos mostraram que estão relativamente próximos e aquilo que pretendem é conquistar o chamado “centro”

Foi assim a modos de um Benfica-FC Porto decisivo para a atribuição do título de campeão nacional de futebol.

Desde logo, aqui, uma manifesta desigualdade face aos restantes partidos, parlamentares incluídos, cujos líderes se viram relegados para o cabo, exceto quando defrontavam os seus homólogos dos dois maiores partidos.

Mas, voltando à metáfora futebolística, o grande jogo esteve longe das expectativas. Na verdade, assistimos a um futebol pastoso, que terminou com um 0-0 sensaborão. É certo que Rui Rio atacou mais e teve as maiores oportunidades, perante um António Costa estranhamente à defesa e desinspirado no ataque. Embora a exibição lhe possa ter elevado a moral, até porque não era favorito, o líder “laranja” não conseguiu obter a vantagem que lhe daria os três pontos. No fundo, ambos perderam dois, que podem fazer falta nas contas finais do campeonato e beneficiar as equipas mais “pequenas”.

Agora mais a sério, o debate centrou-se muito em números, que cada um utilizou como lhe dava mais jeito. Sinal dos tempos que correm!... Falava-se de milhões e milhares de milhões de euros, de subidas de 90% e descidas de 25%, consoante os indicadores, e a linguagem era típica do “economês” (défice estrutural, consumos intermédios e outras noções do dito). Lembrei-me do delicioso livro “Torturem os números que eles confessam”, do Pedro Nogueira Ramos, professor catedrático da FEUC, que mostra como as estatísticas são facilmente manipuláveis.

Na verdade, quando os líderes dos dois maiores partidos vão para um debate eleitoral discutir números e conceitos do “economês” só mostram o quão longe estão do cidadão comum. Para aqueles/as que sobrevivem com o salário mínimo ou vivem do RSI, 200 mil euros ou 200 milhões são apenas muito dinheiro. Em linguagem popular, “é igual ao litro”. E quem sabe o que é o défice estrutural (conceito, aliás, enviesado) ou o que são consumos intermédios?

Mas foi com números que discutiram o serviço nacional de saúde, como se fosse isso que interessasse às pessoas, que pretendem um SNS com qualidade e que funcione bem. Por outro lado, questões como o emprego e a precariedade (com Costa a repetir a falácia dos 92% de contratos permanentes) ou as alterações climáticas passaram quase ao lado de ambos.

É caso para lhes perguntar: e as pessoas, pá?

No fundo, ambos mostraram que estão relativamente próximos e aquilo que pretendem é conquistar o chamado “centro”. Ambos estão comprometidos com os interesses que, desde sempre, têm (des)governado o país e as pessoas “que se lixem”. É por isso que alguns altos dirigentes do PS afirmam, alto e bom som, querer “livrar-se dos empecilhos” (leia-se, Bloco de Esquerda e PCP). Não é por acaso que os principais dirigentes do patronato, vendo a direita sem hipóteses de vitória, preferem uma maioria absoluta do PS a uma nova “geringonça”. Porque será? Pois…

Texto de Jorge Martins

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