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Du Bois, o sociólogo antirracista

Para W. E. B. Du Bois (23 de fevereiro de 1868 - 27 de agosto de 1963), a questão racial era central na investigação e na luta social e política. Travou a luta pela emancipação do povo negro quer nos EUA, quer à escala internacional. Por Bruno Góis.
Foto Wikimedia.

Naquele tempo as pessoas pensavam assim… Quais pessoas? Que lugar ocupam nas várias hierarquias sociais? W. E. B. Du Bois nasceu a 23 de fevereiro de 1868 em Massachusetts, EUA e faleceu em Accra, no Gana, a 27 de agosto de 1963. Como os seus biógrafos costumam assinalar, nasceu poucos anos após a derrota do esclavagismo na Guerra Civil dos EUA e faleceu na véspera da Marcha sobre Washington por Empregos e Liberdade, na qual Martin Luther King Jr. deu o famoso discurso I have a dream.

Du Bois teria sempre um lugar na história por ter sido o primeiro afroamericano a obter um doutoramentoi mas foi também um destacado ativista pela libertação do povo negro e um pioneiro da sociologia que esteve largas décadas apagado da história das ciências sociais.

Contemporâneo de teorizadores racistas europeus e eurodescentes, que justificavam a supremacia branca nos EUA e o colonialismo em África, Du Bois publicou em 1899 The Philadelphia Negro: a Social Study, a primeira investigação sociológica sobre a comunidade negra dos EUA, um trabalho que inclui etnografia urbana e informação estatística.

Pela mesma altura, foi editor e principal autor do primeiro livro norte-americano de sociologia da religião The Negro Church (1904) bem como de vários ensaios de sociologia rural  - de que são exemplos The Negroes of Farmville, Virginia: A Social Study (1898), The Negro Landholder of Georgia (1901), The Negro Farmer (1904) - onde analisa questões como as relações raciais, de classe, a propriedade, a família, o impacto da industrialização na vida rural, as heranças da escravatura. Vale a pena dizer que na mesma linha de autores como Max Weber, que chegou a conhecer pessoalmente, a apresentação da sua análise social caminha em simultâneo com uma detalhada investigação histórica.

Não cabendo falar de toda a sua extensa produção intelectual, importa ainda destacar a sua obra autoetnográfica The Souls of Black Folk: Essays and Sketches (1903), que introduziu o termo dupla consciência, o conflito interno vivido pelos grupos subalternizados, Black Reconstruction in America: An Essay Toward a History of the Part Which Black Folk Played in the Attempt to Reconstruct Democracy in America, 1860–1880 (1935) e Dusk of Dawn: An Essay Toward an Autobiography of a Race Concept (1940).

Para Du Bois a questão racial era central na investigação e na luta social e política. Travou a luta pela emancipação do povo negro quer nos EUA, quer à escala internacional. Em 1909 foi um dos fundadores da NAACP (Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor), onde editou a revista The Crisis (a partir de 1910). No final da Primeira Guerra Mundial, em 1919, junto com a ativista Ida Gibbs, foi um dos organizadores do I Congresso Pan-Africano, que se realizou em Paris com o objetivo de representar a voz dos africanos e afrodescendentes perante o Congresso de Paz de Versalhes.

Du Bois e o movimento pan-africano tiveram influência também em Portugal. Em 1921, José de Magalhães e Nicolau dos Santos Pinto, dirigentes da Liga Africana, participaram no II Congresso Pan-Africano (que teve sessões em Londres, Bruxelas e Paris). E, em 1924, Du Bois esteve numa reunião em Portugal, a qual foi descrita pelo próprio como a sessão de Lisboa do III Congresso Pan-Africano (a outra sessão foi em Londres).

Nesta fase, Du Bois empenhava-se principalmente na criação de condições e direitos efetivos para as populações negras nas sociedades então existentes. A reivindicação às potência internacionais era para a participação dos africanos no governo dos territórios colonizados, como transição para o total autogoverno. Só com o final da Segunda Guerra Mundial (1939-45), em melhores condições para a sua causa, Du Bois e Congresso Pan-Africano elevam as reivindicações a uma autodeterminação total dos territórios ocupados em África.

Como muitos outros ativistas antirracistas, Du Bois era também socialista e apoiou candidaturas progressistas ao longo da vida. No contexto da Guerra Fria, recusou a política seguida pela associação afroamericana NAACP de corte de contactos com militantes comunistas para sair do radar do FBI. Apesar de ser um confesso simpatizante de Marx, não se considerava então um comunista. Acabaria por ser perseguido pelas suas ideias políticas e teve o passaporte confiscado na sequência de um processo em 1951.

Em 1961, aos 93 anos, aderiu ao Partido Comunista dos EUA como reação à obrigatoriedade de registo público dos militantes imposta pela perseguição MaCarthista.

Fiel ao panafricanismo até ao fim, mudou-se para o Gana, onde viveu mais dois anos, tendo adquirido cidadania ganesa e abraçando o ambicioso projeto de uma enciclopédia da Diáspora Africana financiado pelo governo deste país.


i Tinha um diploma de bacharel pela Universidade Fisk (1888) e outro de Harvard (1890). E, em 1895, após dois anos de estudo na Universidade de Berlim, recebeu o grau de doutor por Harvard. Foi professor universitário de Grego e Latim (1894-1896, na Universidade de de Wilberforce), instrutor assistente de Sociologia na Universidade da Pensilvânia (1896-97) e professor de Economia e História (1897-1910) e presidente do Departamento de Sociologia na Universidade de Atlanta (1934-1944).

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