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Documentário “A Guitarra de Coimbra” disponível na RTP Play

Este documentário de Soraia Simões de Andrade conta a história deste património imaterial da Coimbra popular, "com a ajuda de intérpretes mulheres e intérpretes homens, documentos inéditos, estudiosos, espaços de referência e... a poesia que lhe subjaz”.
Raul Simões - Making of A Guitarra de Coimbra. Foto de João Fontes da Costa, publicada na página de facebook do Mural Sonoro.

Em agradecimento aos inúmeros “emails comoventes” que recebeu acerca do seu documentário, disponível na RTP Play, Soraia Simões de Andrade publicou uma nota no Mural Sonoro dando conta de como se desenrolou este projeto:


 

A relação entre uma narrativa dominante, oficial, e discurso invisível, essa relação casuística, é-me familiar em vários domínios musicais na cultura popular. No caso da guitarra de Coimbra ela foi ainda mais sentida.

Desocultar outros lados da história, outras reflexões, foi portanto uma missão, uma tomada de posição evidente, à semelhança de muitos dos projectos que tenho desenvolvido ao longo destes anos. Aqui acrescendo o factor familiar e afectivo e a homenagem que pretendo claramente fazer à minha avó paterna, colocando mulheres, e ao meu pai, recentemente falecido em Coimbra, um amante de música do mundo.

Houve quem escrevesse, acerca da canção de Coimbra (Rodney Gallop), que "é [esta] a canção de quem ainda guarda e anima as suas ilusões e não dos que irreversivelmente as perderam".

Vivi uma Coimbra alternativa a esta, que dialogou com outras tipologias musicais e outras geografias, pelo que retratar uma guitarra viva e com outras possibilidades, existentes desde o seu início mas inteiramente silenciosas e silenciadas de um discurso público sobre a sua história, tornou-se uma demanda.

Uma das condições (auto) impostas no meu guião e na minha narrativa foi portanto não ter neles, uma vez mais, a saturação e a sobrevalorização do que é sobejamente (re) conhecido e já inscrito em variadíssimos dispositivos (literários, documentaristas, por aí fora). Isto é, aquilo que é a minha história, e a minha visão sobre aquilo que me é familiar: uma história alternativa (que existe desde o início à margem da oficial) não podia, portanto, de maneira alguma estar fechada nos seus nomes de culto (António Pinho Brojo, Aeminium, António Menano, Fernando Rolim, Praxis Nova, Jorge Tuna, Edmundo Bettencourt, Manuel Branquinho, António Bernardino, Alma Mater, Luiz Goes, Alta Medina, Toada Coimbrã, José Carvalheiro, Armando Goes, José Miguel Baptista, etc), nas etiquetas (Alvorada, Rapsódia, Columbia ou Valentim de Carvalho), nem no cariz de Hilário e espírito futrica. Porque não era esse documentário que eu queria fazer.

Estou muito contente pela avalanche de mensagens positivas que perceberam, que conseguiram, justamente, entender o fundamental da obra. Mas sobretudo, se emocionar com ela. Objectivo cumprido.

Esta guitarra de Coimbra é a guitarra que não está, nem quer estar, fechada na mitificação de um conjunto de intérpretes ou no prolongamento da adolescência, do estroina de corpo e de alma, de amadores em serenatas de paixão ou na boémia universitária. É a guitarra que desafiou fronteiras e fórmulas estanques, que viajou e se encontrou com Lisboa e o mundo. Tal como Carlos Paredes.

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