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Doclisboa anuncia “programação urgente” em solidariedade com o cinema brasileiro

A organização do festival internacional de cinema repudia e responde aos “ataques feitos pelo governo do Brasil aos realizadores nesse país, aos nossos colegas e a todo o cinema independente brasileiro”.
Imagem do filme "Chão", de Camila Freitas, em exibição no Doclisboa 2019

A edição deste ano do Doclisboa arranca a 17 de outubro e apresenta dez dias de programação variada com a qualidade a que já habitou o público nas anteriores dezasseis edições. Mas essa programação cresceu este fim de semana, com o anúncio de “uma programação urgente que permitirá debater, pensar e contar armas para uma resistência activa contra o desmantelamento da democracia no Brasil”.

A iniciativa surge na sequência de várias ações promovidas recentemente pelo governo brasileiro que a organização do Doclisboa vê como “ataques aos realizadores nesse país, aos nossos colegas e a todo o cinema independente brasileiro”.

“Na sequência de casos de censura, do anúncio de um ciclo de cinema militar na Cinemateca, e de cortes inexplicáveis à Ancine [Agência Nacional do Cinema], o progressivo desmantelamento desta agência continua, agora suspendendo os apoios atribuídos aos realizadores com filmes programados em festivais internacionais. Esta medida visa evidentemente silenciar os realizadores, criando dificuldades à sua presença em contextos internacionais”, sublinha a equipa do Doclisboa em comunicado.
 
Para a organização do festival, estas ações significam que “é evidente um programa de eliminação da diversidade e da liberdade, visando uma arte que é, pela sua natureza, popular e democrática: o cinema”.

Por isso, este ano o festival trará obras como “o incontornável Cabra Marcado Para Morrer, que transporta a memória das lutas campesinas, mas também a memória do golpe de 64 e da subsequente ditadura; Últimas Conversas, o filme póstumo terminado pela sua montadora Jordana Berg, em que Coutinho conversa com alunos da rede pública de escolas do Rio de Janeiro, mas acaba por se confessar, também ele para a câmara; e Banquete Coutinho, de Josafá Veloso, que parte de uma entrevista ao realizador realizada em 2012, e numa série de arquivos da sua obra, para pensar a importância de Coutinho hoje, a sua memória como resistência necessária”.

Outros filmes do Brasil constam na agenda do Doclisboa 2019, como Chico: Artista Brasileiro, de Miguel Faria Jr, um filme que retrata a vida e obra de Chico Buarque  “e que foi retirado de uma mostra no Uruguai por indicação de representantes do Governo Brasileiro no país”. Mas também outras obras já anunciadas, como Chão, de Camila Freitas, “um pungente retrato da luta do Movimento Sem Terra, que estreou na Berlinale”, ou a Estreia Internacional de O Último Sonho, de Alberto Álvares, “uma invocação da memória do líder Guarani Wera Mirim”.

“Com estes filmes queremos relembrar a força do cinema brasileiro, não só na história como hoje, queremos partilhar este momento de dificuldade com todos os que querem resistir, e queremos dizer ao Governo do Brasil que amanhã vai ser outro dia - um dia construído pelos que respeitam os valores democráticos e a liberdade”, conclui a organização do Doclisboa.

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