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Djaimilia Pereira de Almeida vence prémio Oceanos

O romance “Lisboa, Luanda, Paraíso” recebeu o prémio Oceanos deste ano. Com a mesma obra, Djaimilia já tinha vencido os prémios literários Fundação Eça de Queiroz e Fundação Inês de Castro.
Fotografia: Djamilia Pereira de Almeida/Lusa
Fotografia: Djamilia Pereira de Almeida/Lusa

O resultado do prémio Oceanos foi anunciado esta quinta-feira, em São Paulo, Brasil. O romance, que se sucede a “Esse cabelo”, publicado pela Teorema em 2015, já tinha recebido os dois prémios mencionados, para além de ter sido finalista do prémio APE e do prémio PEN. A autora publicou ainda “Ajudar a cair” (FFMS, 2017).

O prémio, que resulta de uma parceria entre o Ministério da Cultura de Portugal e o Instituto Itaú Cultural, do Brasil, respresenta, segundo a ministra da Cultura portuguesa, “um diálogo fundamental entre as várias culturas que partilham a mesma língua, expressando, em simultâneo, a sua transversalidade e a força de diversos géneros literários, da prosa à poesia, promovendo a língua portuguesa como um património comum de vários países”. Pereira de Almeida é a quinta portuguesa a vencer este prémio, juntando-se a Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe, José Luís Peixoto e Ana Teresa Pereira.

“Lisboa, Luanda, Paraíso”

 

No centro da narrativa deste romance agora premiado estão Cartola de Sousa, parteiro num hospital em Luanda, e o seu filho, que, por ter nascido com uma malformação no calcanhar, recebeu o nome de Aquiles. Não bastasse esse problema, a mãe, Glória, ficou doente e imobilizanda na cama.

Após indicação do médico, estando Aquiles quase com 14 anos, pai e filho rumam a Portugal, na década de 80, para que a criança tenha os tratamentos médicos necessários. Não só, chegados a Lisboa, nenhum sabe que não voltará a Angola como não são recebidos pela Lisboa idílica com que sonhavam, que os trataria como portugueses, mas por um lugar onde os sonhos se vão dissipando, desfiando-se uma história tradicional da diáspora, com a experiência do desenraizamento e a da tentativa de integração.

A doença de Aquiles condiciona e motiva a sua vinda para Portugal, e nenhum deles imagina que não haverá regresso. Em simultâneo, o ambiente em que as duas personagens são recebidas também vai deixando subtilmente a noção de que estão num espaço que parece reservados a outros, cabendo-lhes a margem (ambiente narrativo para o qual contribuirá a mudança para um lugar que fica nas margens da capital). Vindos para Portugal à procura de tudo, e iludidos por um sonho que iria enformar-lhes as expectativas de um tratamento pessoal e médico, acabam desapossados de tudo num bairro de lata, e longe do resto da família.

É que Cartola sempre imaginou que, chegado a Portugal, seria reconhecido como português. Chegado ao país, apercebe-se enfim não só de que ninguém o esperava como de que inicia uma época em perde o poder do seu destino, no que se inclui a capacidade de alimentar a família e num constante distanciamento daquele que foi e que sonhou.

O bairro de lata para onde se mudam chama-se Paraíso. Como aí as personagens criam relações de afeto, têm a ilusão de que podem recomeçar do zero. Mas Paraíso é afinal um lugar de miséria: trabalho nas obras, madrugadas perdidas em autocarros, jantares comidos de uma lata.

Esta obra vem suceder-se a “Esse Cabelo”, obra publicada em 2015 pela Teorema, em que Djaimilia Pereira de Almeida juntou elementos biográficos com romance e ensaio, partindo da experiência de uma miúda negra chegada a Portugal, vinda de angola, na década de 1980. Após essa obra, a autora publicou “Ajudar a Cair” (2017), da coleção da Fundação Francisco Manuel dos Santos, um retrato da vida dos residentes no centro Nuno Belmar da Costa, pertencente à Associação de Paralisia Cerebral.

Prémio Oceanos de 2019

Em segundo e terceiro lugar, respetivamente, ficaram Dulce Maria Cardoso, com “Eliete”, e Nara Vidal, com “Sorte”. Nesta edição, o valor total do prémio foi aumentado de 230 mil reais (49 mil euros), em 2018, para 250 mil reais (53,5 mil euros). A vencedora recebe 120 mil reais (27 mil euros), a segunda classificada 80 mil reais (18 mil euros) e a terceira 50 mil reais (11 mil euros).

O romance de Djaimilia Pereira de Almeida foi distinguido entre 1467 concorrentes, com obras lançadas por 314 editoras de 10 países. Patrocinada pelo Banco Itáu, a edição do prémio teve curadoria da gestora cultural Selma Caetano, da linguista Adelaide Monteiro e dos jornalistas Isabel Lucas e Manuel da Costa Pinto. No júri final, estiveram Daniel Jonas e Manuel Frias Martins (Portugal) e Maria Esther Maciel, Veronica Stigger e Eliane Robert Moraes (Brasil).

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