“Disputamos outra economia que sirva as pessoas que trabalham”

11 de julho 2021 - 14:43

Na apresentação da candidatura do Bloco em Vila do Conde, Catarina Martins falou na recuperação pós-pandemia e criticou governo por entregar mecanismo para recuperar a economia e emprego a quem “está ligado aos escândalos financeiros”. Em resposta a António Costa disse que isto “é inaceitável e não se trata de casos ou casinhos”.

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Catarina Martins na apresentação da candidatura autárquica de Vila do Conde. Foto de MANUEL FERNANDO ARAUJO/LUSA.
Catarina Martins na apresentação da candidatura autárquica de Vila do Conde. Foto de MANUEL FERNANDO ARAUJO/LUSA.

No pós-pandemia serão precisas “políticas diferentes e que lutem por um novo tipo de economia”. Por isso, à frente do mecanismo governamental para a recuperação da economia e do emprego não pode estar “alguém que está ligado aos escândalos bancários sucessivos que temos vivido nos últimos anos”. A convicção é de Catarina Martins e foi um tema principal da sua intervenção neste domingo na apresentação da candidatura autárquica do Bloco em Vila do Conde.

A coordenadora do Bloco referia-se à nomeação de Vítor Fernandes para chefiar o Banco de Fomento e utilizou a referência António Costa de que “temos de nos centrar no controlo da pandemia, na vacinação, na recuperação da economia e do emprego e não em casos e casinhos que vão aparecendo” para explicar que “debater as escolhas que hoje se fazem sobre a recuperação, o investimento, o combate à pandemia não são casos e casinhos”. É, diferentemente “a democracia a funcionar e é escolha sobre o que queremos ser e como queremos estar no pós-pandemia, que país queremos, que economia queremos”.

Catarina Martins lembrou que Vítor Fernandes “estava na administração do Novo Banco quando Luís Filipe Vieira recomprou dívida que era sua de mais de 50 milhões por apenas nove milhões”. Um negócio “tão mal explicado que agora uma das medidas a que Luís Filipe Vieira está sujeito é precisamente não poder estar em contacto com Vítor Fernandes”. E que, antes disto, já o Bloco de Esquerda denunciara no Parlamento, por intermédio de Mariana Mortágua, que Vítor Fernandes tinha estado com Santos Silva nas administrações da Caixa Geral de Depósitos que fizeram os “empréstimos nunca explicados” que serviram para que Joe Berardo comprasse ações do BCP e esteve igualmente ligado à administração de Armando Vara no BCP. Um percurso, portanto, “sempre ligado aos sucessivos escândalos financeiros, a esta economia do casino e da especulação imobiliária que afunda o nosso país”. Daí que a sua nomeação seja “inaceitável” e que “não se trata de casos ou casinhos”.

Para o Bloco, “nunca iremos recuperar” se o investimento for “igual ao que foi feito até agora em que o sistema financeiro se dirige a estes grandes negócios imobiliários de bolhas especulativas que fazem alguns muito ricos para depois deixar dívidas de milhões aos contribuintes.” Por isso, o partido disputa “uma outra economia, que sirva as pessoas que trabalham, que trabalharam toda a sua vida neste país, que sirva quem constrói este país e que acabe com esta elite de privilégio que nos tem vindo a assaltar a cada ano”.

As autarquias têm uma “enorme responsabilidade” para “acabar com esta economia da especulação imobiliária”

O modelo económico e a necessidade de mudança foi também o mote para falar de política local. A dirigente partidária pegou na ideia de António Louro Miguel, o cabeça de lista do Bloco à Câmara Municipal de Vila do Conde, de que esta autarquia se tem “comportado como um promotor imobiliário” para afirmar que isso não acontece só neste concelho: “autarquias por este país fora têm-se comportando como promotores imobiliários. Têm estado neste triângulo de promiscuidade entre a política, a finança e o imobiliário, com o futebol tantas vezes também à mistura, e que provoca esta calote de milhões para os contribuintes pagarem.”

O Bloco apresenta-se para “disputar força para uma nova política” que sabe que “precisamos de casas sim mas não de especulação imobiliária”. É assim necessário um “investimento num parque público habitacional que garanta que no nosso país toda a gente tenha direito a um teto digno e que os preços das rendas possam ser pagos com os salários e com as pensões que se ganham”.

Nesse sentido, as autarquias têm uma “enorme responsabilidade” para “acabar com esta economia de especulação imobiliária”. Já que a construção de um parque habitacional público não só dá “um teto a quem não tinha nada” ou “a quem vive em habitação precária” como também intervém sobre

“o preço das rendas no país para regular o mercado que está desregulado”.

Com investimento público é possível ainda “ajudar quem vive numa habitação degradada e precisa de fazer obras”. Se em Portugal “há tanta gente que vive numa casa que não lhe serve, seja porque tem pouca mobilidade, tem alguma incapacidade, pela idade, por deficiência e a casa não está adaptada às suas necessidades” porque não poderia uma autarquia “chegar-se à frente e adaptar as casas das pessoas pode e deve”.

Nas preocupações sublinhadas por Catarina Martins estão também as questões ambientais. Entre elas a necessidade de ter um programa para a eficiência energética das casas “num país em que se morre de frio no Inverno e de calor no verão” e que é “um passo fundamental na resposta à urgência climática”. Também a mobilidade é uma questão ao mesmo tempo social e ambiental. Nesta “o transporte coletivo” a “mobilidade suave” têm de ser regras. “Em quantas freguesias pura e simplesmente não existe qualquer resposta de transporte coletivo para aceder aos mais básicos serviços públicos, aos bens essenciais” questionou.

O mesmo se pode dizer de outra tema caro ao Bloco, a água como bem comum. Num concelho com a água privatizada e que é “a segunda mais cara do país” vincou-se a necessidade da sua recuperação para a esfera pública. Uma batalha que o partido assumiu no Parlamento “para que as autarquias pudessem fazê-lo”. A água é um “bem essencial” que “não pode ser gerido para o lucro privado”, defendendo-se igualmente a criação da tarifa social automática da água.