“Iremos bloquear a França Insubmissa. Eles são perigosos para a República”, disse o presidente do grupo parlamentar dos Republicanos, Laurent Wauquiez, à saída do encontro no Eliseu com Emmanuel Macron na tarde desta sexta-feira. Este partido da direita francesa, que após as eleições se aliou ao campo macronista para reeleger a presidente do Parlamento, impedindo assim que esse cargo fosse conquistado pela esquerda, confirmou que não pretende fazer parte de nenhuma coligação governamental.
Nous avons dit deux choses au président de la République :
1) Nous ne participerons pas à une coalition gouvernementale.
2) Nous ferons barrage à la France insoumise en votant immédiatement une motion de censure contre un gouvernement qui comprendrait des ministres insoumis. pic.twitter.com/5jEOSe3eZS— Laurent Wauquiez (@laurentwauquiez) August 23, 2024
Esta foi a terceira delegação a reunir com Macron o primeiro dia da ronda de audiências antes do anúncio da nomeação de um novo chefe de governo. Antes dos Republicanos e para um encontro que incluiu almoço, entraram o atual primeiro-ministro demissionário com outros líderes dos partidos do campo presidencial, reunidos no Juntos pela República. Numa mensagem enviada aos seus deputados após a reunião e citada pelo Le Monde, Gabriel Attal diz que a vontade do Presidente é a de encontrar uma solução estável e que evite uma nova dissolução. Junto de Macron, Attal defendeu a nomeação de uma figura fora dos partidos do bloco central e capaz de agrupar um governo que junte sensibilidades que vão da esquerda à direita republicana.
Em comum com a direita, o líder do partido macronista que foi um dos grandes derrotados das últimas legislativas e acabou por bater neste dia o recorde de longevidade de um governo demissionário em França, deixou a promessa de apresentar uma moção de censura caso o próximo governo inclua ministros da França Insubmissa, o principal partido da Nova Frente Popular que para surpresa de Macron e Le Pen foi o bloco mais votado pelos franceses na segunda volta da eleição.
A ameaça de veto já era conhecida e a figura avançada para liderar o governo da Nova Frente Popular, a economista Lucie Castets, tinha já respondido aos jornalistas que todos os partidos da coligação estariam no seu executivo e que deixar de fora o maior está fora de hipótese, acusando os macronistas de inventarem manobras para afastar do poder o bloco mais votado pelos franceses.
Castets foi a primeira a ser recebida por Macron na manhã de sexta-feira, em conjunto com dirigentes dos vários partidos que compõem a NFP. À saída da reunião mostrou-se agradada por ter ouvido da boca do Presidente a admissão que os franceses votaram na mudança política, embora menos tranquila quanto ao que sentiu ser a vontade de Macron de compor o próximo governo através de alianças entre os vários grupos parlamentares. “Nós dissemos-lhe que cabe à força política que ficou em primeiro lugar, a NovaFrente Popular, a tarefa de formar um governo e de construir alianças com parceiros políticos no Parlamento”, disponibilizando-se ela própria para o fazer.
Ao seu lado, o líder socialista Olivier Faure também considerou um “sinal importante” que Macron tenha dito que a estabilidade que defende não significa a continuação das políticas anteriores que a sua maioria promoveu. Quanto ao próximo executivo, Faure constata que “não há hoje nenhuma outra proposta em cima da mesa, há apenas rumores e balões de ensaio lançados através dos media. Mas a única proposta tangível é a nossa”.
Le président a reconnu que la stabilité qu’il appelle de ses vœux ne signifie pas la continuité de la politique qu’il a menée jusqu’ici. C’est un signal important : le changement est possible et il est nécessaire.
Ma réaction à l'issue du RDV entre le #NFP et Emmanuel Macron pic.twitter.com/KoVGWtCbSv— Olivier Faure (@faureolivier) August 23, 2024
Na mesma linha, o coordenador da França Insubmissa, Manuel Bompard, afirmou ser positivo que Macron “comece a reconhecer o resultado das eleições. Mas agora já é tempo de tirar as conclusões” e começar a responder aos problemas dos franceses. Quanto à posição de Macron neste processo, “ele lembrou-nos que deve ser o árbitro no seu papel constitucional, mas ficamos um bocado com a impressão que ele tem mais vontade de ser o selecionador, ou seja, aquele que vai escolher quem entra no futuro governo do país”, acrescentou Bompard.
Ma réaction à la suite de la rencontre du Nouveau Front populaire avec Emmanuel Macron à l'Élysée pic.twitter.com/tIbDR2Jam6
— Manuel Bompard (@mbompard) August 23, 2024
Por seu lado, a líder ecologista Marine Tondelier considerou o adiamento da formação do próximo governo “extremamente inquietante” e até “uma forma de obstrução” por parte do Presidente, apelando ao fim da “novela institucional” “Há problemas urgentes e deixar passar as semanas sem lhes dar resposta é grave e até irresponsável”, afirmou a secretária nacional dos Ecologistas, sublinhando, pelo lado positivo, que Macron reconheceu que os franceses querem uma coabitação entre Presidente e Governo de tendências políticas diferentes, dado que os resultados mostraram que “73% dos franceses quiseram romper com o macronismo”.
Sortie du rendez-vous entre le #NouveauFrontPopulaire et Emmanuel Macron.
Ma déclaration pic.twitter.com/dQ3cu6gIFn— Marine Tondelier (@marinetondelier) August 23, 2024
O líder comunista Fabien Roussel, que não conseguiu a reeleição na primeira volta das legislativas, contou aos jornalistas o que disse ao Presidente: “Queremos encarnar a mudança e uma política que rompa com o que os franceses vivem há sete anos. Queremos aumentar os salários, investir nos serviços públicos. Queremos que as coisas mudem. Está disposto, Senhor Presidente da República, a aceitar que a sua política mude, que a política da França mude?”. Mas não disse qual foi a resposta de Macron.
Confiants et prêts à incarner le changement !
Nous sommes les seuls à nous présenter unis, avec un programme et une Première ministre @CastetsLucie. pic.twitter.com/CO28mMz9Cd— Fabien Roussel (@Fabien_Roussel) August 23, 2024
Após reunir ao fim da tarde com representantes dos grupos centristas, independentes e ultramarinos, Macron concluirá a ronda de audições na segunda-feira com os representantes da extrema-direita e os presidentes do Parlamento e do Senado