França

Direita e macronistas ameaçam derrubar governo com ministros do maior partido da esquerda

23 de agosto 2024 - 17:05

Na ronda de audições com o Presidente francês, o primeiro-ministro demissionário e o líder dos Republicanos afirmaram que apresentarão uma moção de censura a um governo que inclua ministros da França Insubmissa.

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Manuel Bompard, Marine Tondelier, Lucie Castets, Olivier Faure e Fabien Roussell a caminho do Eliseu
Manuel Bompard, Marine Tondelier, Lucie Castets, Olivier Faure e Fabien Roussell a caminho do Eliseu. Foto publicada na conta X do líder do PSF.

“Iremos bloquear a França Insubmissa. Eles são perigosos para a República”, disse o presidente do grupo parlamentar dos Republicanos, Laurent Wauquiez, à saída do encontro no Eliseu com Emmanuel Macron na tarde desta sexta-feira. Este partido da direita francesa, que após as eleições se aliou ao campo macronista para reeleger a presidente do Parlamento, impedindo assim que esse cargo fosse conquistado pela esquerda, confirmou que não pretende fazer parte de nenhuma coligação governamental.

Esta foi a terceira delegação a reunir com Macron o primeiro dia da ronda de audiências antes do anúncio da nomeação de um novo chefe de governo. Antes dos Republicanos e para um encontro que incluiu almoço, entraram o atual primeiro-ministro demissionário com outros líderes dos partidos do campo presidencial, reunidos no Juntos pela República. Numa mensagem enviada aos seus deputados após a reunião e citada pelo Le Monde, Gabriel Attal diz que a vontade do Presidente é a de encontrar uma solução estável e que evite uma nova dissolução. Junto de Macron, Attal defendeu a nomeação de uma figura fora dos partidos do bloco central e capaz de agrupar um governo que junte sensibilidades que vão da esquerda à direita republicana.

Em comum com a direita, o líder do partido macronista que foi um dos grandes derrotados das últimas legislativas e acabou por bater neste dia o recorde de longevidade de um governo demissionário em França, deixou a promessa de apresentar uma moção de censura caso o próximo governo inclua ministros da França Insubmissa, o principal partido da Nova Frente Popular que para surpresa de Macron e Le Pen foi o bloco mais votado pelos franceses na segunda volta da eleição.

A ameaça de veto já era conhecida e a figura avançada para liderar o governo da Nova Frente Popular, a economista Lucie Castets, tinha já respondido aos jornalistas que todos os partidos da coligação estariam no seu executivo e que deixar de fora o maior está fora de hipótese, acusando os macronistas de inventarem manobras para afastar do poder o bloco mais votado pelos franceses.

Castets foi a primeira a ser recebida por Macron na manhã de sexta-feira, em conjunto com dirigentes dos vários partidos que compõem a NFP. À saída da reunião mostrou-se agradada por ter ouvido da boca do Presidente a admissão que os franceses votaram na mudança política, embora menos tranquila quanto ao que sentiu ser a vontade de Macron de compor o próximo governo através de alianças entre os vários grupos parlamentares. “Nós dissemos-lhe que cabe à força política que ficou em primeiro lugar, a NovaFrente Popular, a tarefa de formar um governo e de construir alianças com parceiros políticos no Parlamento”, disponibilizando-se ela própria para o fazer.

Ao seu lado, o líder socialista Olivier Faure também considerou um “sinal importante” que Macron tenha dito que a estabilidade que defende não significa a continuação das políticas anteriores que a sua maioria promoveu. Quanto ao próximo executivo, Faure constata que “não há hoje nenhuma outra proposta em cima da mesa, há apenas rumores e balões de ensaio lançados através dos media. Mas a única proposta tangível é a nossa”.

Na mesma linha, o coordenador da França Insubmissa, Manuel Bompard, afirmou ser positivo que Macron “comece a reconhecer o resultado das eleições. Mas agora já é tempo de tirar as conclusões” e começar a responder aos problemas dos franceses. Quanto à posição de Macron neste processo, “ele lembrou-nos que deve ser o árbitro no seu papel constitucional, mas ficamos um bocado com a impressão que ele tem mais vontade de ser o selecionador, ou seja, aquele que vai escolher quem entra no futuro governo do país”, acrescentou Bompard.  

Por seu lado, a líder ecologista Marine Tondelier considerou o adiamento da formação do próximo governo “extremamente inquietante” e até “uma forma de obstrução” por parte do Presidente, apelando ao fim da “novela institucional” “Há problemas urgentes e deixar passar as semanas sem lhes dar resposta é grave e até irresponsável”, afirmou a secretária nacional dos Ecologistas, sublinhando, pelo lado positivo, que Macron reconheceu que os franceses querem uma coabitação entre Presidente e Governo de tendências políticas diferentes, dado que os resultados mostraram que “73% dos franceses quiseram romper com o macronismo”.

O líder comunista Fabien Roussel, que não conseguiu a reeleição  na primeira volta das legislativas, contou aos jornalistas o que disse ao Presidente: “Queremos encarnar a mudança e uma política que rompa com o que os franceses vivem há sete anos. Queremos aumentar os salários, investir nos serviços públicos. Queremos que as coisas mudem. Está disposto, Senhor Presidente da República, a aceitar que a sua política mude, que a política da França mude?”. Mas não disse qual foi a resposta de Macron.

Após reunir ao fim da tarde com representantes dos grupos centristas, independentes e ultramarinos, Macron concluirá a ronda de audições na segunda-feira com os representantes da extrema-direita e os presidentes do Parlamento e do Senado