Na semana passada discursei num painel que debatia a desindustrialização e o socialismo. O painel foi organizado pelo Spring, um grupo com sede em Manchester, na Inglaterra, e que se tornou num fórum para a discussão dos desenvolvimentos do capitalismo e as suas implicações nas perspetivas do socialismo.
O tema principal da discussão foi o facto evidente de que o setor industrial (indústrias, energia, mineração, etc) teve um declínio nítido como parte da produção e do emprego nas economias capitalistas maduras durante o século vinte. A questão em debate era: isso significa que a classe trabalhadora também entrou em declínio e não é mais a força principal da mudança no capitalismo?; e também, que uma sociedade socialista ou pós-capitalista será um mundo sem indústria ou emprego dos trabalhadores industriais?
O primeiro ponto que notei na discussão foi que o mundo não está a desindustrializar-se. Globalmente, existiam 2,2 mil milhões de pessoas a trabalhar e produzir valor em 1991. Agora são 3,2 mil milhões. A força produtiva global aumentou em mil milhões nos últimos 20 anos. Mas não houve desindustrialização globalmente. A desindustrialização é um fenómeno das economias capitalistas maduras. Não se dá nas economias capitalistas 'emergentes'.
Usando as figuras fornecidas pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), podemos ver o que está a acontecer globalmente, com a ressalva de que há um menosprezo sério dos trabalhadores industriais nessas figuras e muitos trabalhadores hitech, de transporte e comunicação são colocados no setor de serviços.
Globalmente, a força produtiva industrial cresceu em 46% desde 1991, de 490 milhões para 715 milhões em 2012 e irá ultrapassar largamente os 800 milhões antes do final da década. De facto, a força produtiva industrial cresceu em 1.8% desde 1991, e desde 2004 em 2.7% ao ano (até 2012), uma taxa de crescimento mais rápida do que a do setor de serviços (2.6% ao ano)! Globalmente, a proporção de trabalhadores industriais na força produtiva total cresceu moderadamente, de 22% a 23%. É nas economias capitalistas maduras desenvolvidas onde houve a desindustrialização. A força produtiva industrial caiu 18%, de 130 milhões em 1991, para 107 milhões em 2012.

Título: Força produtiva global. Subtítulo: Força produtiva industrial global (milhões). Linha azul: Economia de desenvolvimento. Linha vermelha: Economia de mercados emergentes
A grande queda não aconteceu no número de trabalhadores industriais globalmente, mas no de trabalhadores da agricultura. O processo de sucção pelo capitalismo de camponeses e agricultores das áreas rurais e da sua transformação em trabalhadores industriais nas cidades não acabou. A proporção da força de trabalho agrícola na força produtiva global decaiu de 44% para 32%. Então não devemos falar de desruralização, como Marx fez no meio de 1800? Esse é o grande fenómeno global dos últimos 150 anos.
Claro, a maioria dos trabalhadores são do setor de serviços. Esse setor é mal definido: pertence a este setor qualquer um que não seja trabalhador industrial ou da agricultura. Esse setor era menor que a agricultura em 1991 (34% para 44%) mas agora é maior, alcançando os 45%, contra os 32% da agricultura.
Enquanto eu discursava em Manchester, o centro da revolução industrial na Grã Bretanha no início do seculo dezanove, fui recordado do trabalho de Friedrich Engels, o parceiro de Marx, e que geria a firma alemã do seu tio na época. Quando jovem (24 anos), Engels escreveu "A condição da classe trabalhadora na Inglaterra" (publicado em 1845) e descreveu as condições horrendas de pobreza a que os homens, as mulheres e crianças rurais se sujeitavam quando foram trabalhar nas cidades urbanas de industrialização rápida no norte da Inglaterra. É a mesma história agora na Índia, China, sudeste da Ásia e na América Latina. Engels concentrou-se nas condições de trabalho, mas num prefácio de uma nova edição do seu livro em 1892, ele comentou que a Grã Bretanha estava a ser substituída rapidamente como o maior poder industrial e capitalista pela França, Alemanha e pelos EUA. "Os seus produtores são muito mais novos do que os da Inglaterra, mas crescem num nível bem maior que o da última. Eles alcançaram a mesma fase de desenvolvimento que a industria inglesa em 1844". E isso acontece agora para as tais economias emergentes da Ásia, América Latina e África, quando comparadas às economias capitalistas maduras da Europa, Japão e América do Norte.
Mas é verdade que a proporção dos trabalhadores industriais nas economias maduras decaiu de 31% em 1991 para 22% agora. De facto, de acordo com McKinsey, o emprego industrial caiu 24% nas economias avançadas entre 1995 e 2005.

Linha horizontal: emprego trimestral em milhões, ajustado sazonalmente. Linha azul: Emprego total privado. Linha vermelha: Emprego industrial
Então isso quer dizer que o futuro do capitalismo dar-se-á sem um proletariado industrial capaz de ser um agente de mudança e, por esse motivo, o 'pós capitalismo' será uma sociedade sem indústrias, onde as pessoas podem esperar a redução das suas horas de trabalho com períodos maiores de 'lazer'?
Esse foi o tema que o meu companheiro de painel Nick Srnicek propôs. Nick é um camarada da Geopolítica e Globalização na UCL (Universidade Global de Londres). Ele é o autor, juntamente com Alex Williams, de "Inventing the Future" (Verso, 2015) e o editor juntamente com Levi Bryant e Graham Harman de "The Speculative Turn" (Re.press, 2010). Nick explicou que, enquanto novas economias estavam a ser industrializadas, o seu pico de industrialização veio antes do que para economias como a britânica no século dezanove. De facto, nenhuma economia alcançou mais de uma proporção de 45% no emprego industrial. Então o futuro não é a indústria e uma classe trabalhadora industrial. E não resultou defender o regresso às manufaturas e indústrias como o único caminho para uma sociedade melhor.
Tenho certeza que Nick está certo nesses pontos. Divergi no facto de que ele não esclarecia se uma sociedade pós-capitalista, não-industrial, seria conquistada gradualmente enquanto o capitalismo se expandiria globalmente e a tecnologia substituiria o trabalho industrial pesado e as pessoas trabalhariam menos horas e poderiam usar o seu tempo para si mesmas. A ideia de uma mudança em direção a uma sociedade prazerosa e não industrial foi o conceito de Keynes em 1930, argumentando a favor do capitalismo para os seus estudantes no auge da Grande Depressão pelos 1930, quando muitos deles começaram a olhar para o marxismo como a explicação para crises e a alternativa para o socialismo (veja o meu post, http://thenextrecession.wordpress.com/2013/05/04/keynesbeinggayandc… ).
Keynes reconheceu que o mundo capitalista alcançaria um enorme crescimento do PIB per capita e entraria numa economia de lazer, sem pobreza. Bem, este blogue tem revelado dados que mostram que a pobreza é ainda um terrível espectro sobre o mundo todo, uma característica inerente ao capitalismo, e longe de uma economia de lazer, as horas de trabalho diminuíram nas economias maduras e se mantiveram altíssimas em setores industriais de economias emergentes. Ainda trabalhamos duro para viver (exceto o 1%), em trabalhos cada vez mais precários.
Não acho que podemos atingir uma sociedade pós-capitalista de economia de lazer através de uma mudança gradual. Será necessário um impulso revolucionário para mudar o modo de produção e as relações sociais de maneira global, mesmo que o potencial de produtividade de robôs e novas tecnologias já estejam disponíveis para a transição em direção à libertação do trabalho duro. O capitalismo mantém-se no caminho como um entrave sobre a produção, com os capitalistas como uma classe poderosa oposta à liberdade.
A razão de as economias capitalistas maduras perderem a sua base industrial tem a ver com o facto de que não era mais lucrativo para o capital investir na indústria britânica no fim do século XIX ou na indústria dos países da OCDE no final do século XX. Então o capital contra balanceou esta queda de lucratividade ‘‘globalizando-se’’ e encontrando mais força de trabalho para explorar.
E a lucratividade caiu porque a acumulação capitalista corta força de trabalho. Os capitalistas competem entre si para lucrarem mais. Aqueles com mais tecnologia podem passar à frente dos outros ao aumentar a sua produtividade reduzindo os custos laborais cortando trabalhadores. A direção que seguem é sempre a de reduzir a quantidade de força de trabalho e aumentar os lucros. A contradição central, tal como foi explicada por Marx na lei da lucratividade, é que a redução da força de trabalho e o aumento da mecanização levam a uma eventual queda na lucratividade, o que faz com que a força de trabalho industrial seja reduzida nas economias maduras e expanda a indústria de maneira global. O capitalismo é um modo de produção que caminha na direção da mecanização, mas a mecanização também levará à sua própria morte, pois ela é um modo de produção voltada para o lucro e não para uma necessidade social, e mais mecanização significará menos lucro. Isto mostra que enquanto caminhamos para uma economia de robôs, o lucro do capital e os interesses sociais tornar-se-ão cada vez mais incompatíveis. E uma sociedade de lazer é apenas um sonho impossível.
O crescimento do emprego está a cair em economias capitalistas avançadas, ele tem sido muito menor do que 1% ao ano no século XXI.

Crescimento médio de empregos nas economias avançadas (em %)
O engenheiro computacional e empresário do Vale do Silício, Martin Ford, coloca a situação da seguinte maneira: “enquanto as tecnologias avançam, as indústrias tornam-se cada vez mais intensivas em capital e menos intensivas em trabalho. A tecnologia pode criar novas indústrias e elas são quase sempre intensivas em capital”. A luta entre capital e trabalho é então intensificada.
E tudo isso depende da luta de classes entre os trabalhadores e os capitalistas sobre a apropriação do valor criado pela produtividade do trabalho. E claramente os trabalhadores têm perdido esta batalha, particularmente em décadas recentes, sob a pressão das leis antissindicais, o fim da proteção ao emprego, a redução dos benefícios, o aumento do exército de mão-de-obra de desempregados e subempregados e através da globalização das indústrias.
De acordo com o relatório da OIT, em 16 economias desenvolvidas, os trabalhadores obtiveram 75% do rendimento nacional nos anos 1970, mas este valor caiu para 65% alguns anos antes da crise económica. Este valor cresceu em 2008 e 2009 — mas apenas porque o rendimento nacional afundou-se nestes anos — antes de retomar o seu curso descendente. Mesmo na China, onde os salários triplicaram na última década, a fatia de rendimento nacional para os trabalhadores diminuiu. De facto, isto foi o que Marx queria dizer com “pauperização da classe trabalhadora.”
E isso será diferente com os robôs? A economia marxista diria que não, por duas razões. A primeira, a teoria econômica marxista começa a partir do facto de que apenas quando os seres humanos realizam qualquer trabalho é que uma coisa ou um serviço é produzido. Então, apenas o trabalho pode criar valor no capitalismo. E o valor é necessário para o capitalismo. O valor é a substância do modo capitalista de produção. Os donos do capital controlam os meios de produção criados pelo trabalho e só o colocarão a uso para se apropriar do valor criado pelo trabalho. O Capital não cria valor por si só.
Agora, se toda a tecnologia, produtos e serviços pudessem reproduzir-se a si mesmos sem trabalho vivo, apenas a partir de robôs, as coisas e os serviços seriam criados, mas a criação do valor (em particular, o lucro e a mais-valia) não seriam. Como Martin Ford declara: quanto mais as máquinas se auto comandarem, o valor que o trabalhador médio adiciona começa a cair.” Então a acumulação sob o capitalismo cessaria imediatamente antes de os robôs tomarem conta de tudo, porque a lucratividade desapareceria. Esta contradição não pode ser resolvida sob o capitalismo.
Nós nunca chegaremos a sociedades robóticas; nós nunca chegaremos a sociedades livres do trabalho — não sob o capitalismo. Crises e explosões sociais ocorreriam muito antes disso.
Texto original em inglês
Tradução de Isabela Palhares e Roberto Brilhante