No dia 29 de Julho, Alexia Richard e Lézana Placette ganharam a sua primeira partida de voleibol de praia nos Jogos Olímpicos. Mas a dupla francesa deu que falar mais pelo que tinha vestido do que pela sua vitória. No voleibol, o equipamento tradicional para as mulheres é o bikini, mas Alexia e Lézana entraram em campo de calções, questionando o facto de haver dois pesos e duas medidas para os equipamentos desportivos entre homens e mulheres.
Nos primeiros Jogos Olímpicos em que há um número igual de mulheres e homens entre os 10.500 atletas, uma das principais diferenças entre géneros é a forma como são representados pelos media e como se vestem os e as atletas. Apesar de o Comité Olímpico ter desde 2018 uma política que sumarizou na frase “Sport appeal, not sex appeal” (“Apelo desportivo, não apelo sexual”), as atletas femininas ainda veem as suas escolhas de vestuário restringidas por vários fatores, desde as regulações das federações internacionais, às tradições e normas sociais que vigoram na prática desportiva.
As regras variam dependendo do desporto, mas há muitos casos nos quais as mulheres têm muito mais limitações que os homens. Na ginástica, por exemplo, o código da Federação Internacional de Ginástica obriga os homens a usar calças de ginástica e uma camisola de alças, enquanto as mulheres são obrigadas a usar maillot que “deve ter um design elegante” e cujas dimensões são especificadas ao centímetro, não podendo, por exemplo, “exceder a linha horizontal em torno da perna, delineada por não mais de 2 cm abaixo da base das nádegas.”
O problema muitas vezes está relacionado não só com o equipamento desportivo, mas também com a forma como este é imposto pelas especificações da federações internacionais. No andebol de praia, a federação determinou que os homens devem usar camisola de alças e calções que “devem ficar dez centímetros acima da rótula”, enquanto que para as mulheres, o equipamento consiste num top e biquini, ambos com “ajuste apertado”, que segundo a federação “contribui para ajudar as atletas a melhorar a sua performance e permanece coerente com a imagem desportiva e atraente do desporto”.
Estes exemplos desdobram-se por vários desportos, do atletismo ao voleibol de praia. Em alguns casos, como na natação, as mulheres estão sujeitas a uma “lei de decência”, enquanto noutras, como no voleibol de praia, já foram adotadas alterações que permitem às mulheres utilizar camisolas interiores e calções de treino por razões religiosas e culturais, mas apenas com o consentimento do árbitro.
Em alguns desportos, como no judo ou no andebol, as regras das federações internacionais já preveem as especificações para mulheres e homens, mas as diferenças nos equipamentos desportivos dependem das idiossincrasias dos desportos em si e do contexto cultural do qual surgiram e no qual se encontram, sendo que as federações têm a última palavra
Vozes de resistências
Como Alexia Richard e Lézana Placette, várias atletas têm usado o seu espaço nos Jogos Olímpicos e nas competições internacionais para apontar a desigualdade nos equipamentos e na forma como são representadas pelos media.
Em 2018, Serena Williams gerou uma tempestade mediática no mundo desportivo ao usar um fato de corpo inteiro, que à luz de muitos críticos não correspondia às especificações da federação, que preveem “um equipamento de ténis limpo e em conformidade com as práticas aceites”.
Em abril deste ano, a antiga atleta americana Lauren Fleshman utilizou as redes sociais para criticar o equipamento de atletismo que tinha sido escolhido pela Comitiva Olímpica estadunidense para os Jogos Olímpicos de 2024.
Nos Jogos Olímpicos de 2000, na Austrália, a atleta Cathy Freeman conseguiu uma vitória emblemática ao vencer a corrida de 400 metros com um fato de corpo inteiro e um capuz, que segundo a atleta a ajudou a concentrar-se.
As questões de género têm tido um lugar de destaque nos jogos olímpicos, não só pela insatisfação e desobediência cada vez maiores às normas do equipamento desportivo, mas também pelo caso particular da pugilista argelina Imane Khelif, que tem sido acusada de ser um homem, inclusivamente pela Associação Internacional de Boxe. Há medida que as mulheres vão ganhando mais destaque no desporto, novos obstáculos têm surgido à sua participação numa esfera onde as instituições ainda são muitas vezes dominadas por homens.