Derrotado, Bolsonaro emudeceu durante 45 horas

01 de novembro 2022 - 23:20

Quebrando um mutismo de quase dois dias, o candidato derrotado fala em sentimento de “indignação e injustiça” quanto ao resultado das presidenciais brasileiras e pede apenas que manifestações pró-golpe respeitem o direito de ir e vir. Por Luis Leiria.

porLuís Leiria

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Conferência de imprensa de Bolsonaro esta terça-feira. Foto Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

E finalmente, quase 45 horas após o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ter declarado a vitória de Lula da Silva na segunda volta das eleições presidenciais do Brasil, Jair Bolsonaro convocou a imprensa para revelar a sua atitude diante da derrota sofrida e das manifestações desencadeadas por fanáticos bolsonaristas a pedir um golpe militar.
O discurso de dois minutos que leu parecia estar em código, um amontoado de frases mal alinhadas destinadas a contentar vários públicos e defender-se de possíveis ameaças.

O que mais se esperava, o reconhecimento do resultado das eleições, não existiu na sua intervenção. A admissão de derrota só apareceu depois do discurso, quando um envergonhado chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira, informou que seria ele o responsável pela transição de governo nos próximos dois meses.

No discurso propriamente dito, as eleições apareceram apenas quando Bolsonaro se identificou com o sentimento de “indignação e injustiça” alardeado por partidários seus que desencadearam múltiplos bloqueios de estradas contra o resultado das eleições, denunciando imaginárias fraudes e pedindo “intervenção militar com Bolsonaro no governo”.

Só depois de contentar estes bolsonaristas fanáticos que cortaram estradas em todo o país, Bolsonaro pediu o desbloqueio das rodovias, argumentando que “os nossos métodos não podem ser os da esquerda” com o “cerceamento do direito de ir e vir”.

Não se prevê que estas palavras venham desanimar os manifestantes. Bem pelo contrário. O resto do discurso foi dedicado a enaltecer o crescimento de uma “verdadeira direita” no país, da qual ele será o líder.

Uma jornada histórica

Mas voltemos atrás, ao domingo, quando o TSE proclamou a vitória de Lula e esta foi comemorada com grandes manifestações de rua. Foi uma jornada histórica, em que pela primeira vez um presidente candidato à reeleição foi chumbado nas urnas e em que o vencedor, também de forma inédita, conquistou o terceiro mandato. Enquanto Luiz Inácio Lula da Silva, o vencedor, comemorava nas ruas, junto ao seu povo, a vitória mais renhida da história do Brasil, o derrotado, Jair Messias Bolsonaro, ia dormir cedo sem reconhecer a vitória do adversário e sem dizer um pio sobre o resultado das eleições. Os seus eleitores ficaram sem saber o que dizer nem fazer. Um grupo que se concentrara frente ao Palácio da Alvorada, residência oficial do presidente, debandou, depois que as luzes do palácio foram apagadas.

Nas 45 horas que se seguiram à proclamação do resultado das eleições pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o tempo em que o sempre falante Bolsonaro ficou mudo, a ala mais fanática dos seus adeptos recusou-se a aceitar a vitória de Lula e desencadeou uma mobilização golpista, procurando paralisar o país com bloqueios de estradas. Os camionistas, aliados de Bolsonaro, foram apontados como estando à frente deste movimento, mas a maior parte deles não teve qualquer atuação, tendo muitos cortes de estradas sido da responsabilidade de bolsonaristas sem caminhões.  A mobilização da extrema-direita envolveu também apelos a manifestações na frente dos quartéis para “exigir uma intervenção militar com Bolsonaro no poder”, a forma como designam a sua intenção golpista. 

Diante da imobilidade do governo, o presidente do TSE, e também integrante do Supremo Tribunal Federal, Alexandre Moraes, decidiu que a Polícia Rodoviária Federal (PRF) tinha de dispersar imediatamente os bloqueios, mas a instituição, uma das mais infiltradas de bolsonaristas, fez ouvidos de mercador e os bloqueios mantiveram-se. Vídeos divulgados nas redes sociais mostraram polícias solidarizando-se com os manifestantes, ao mesmo tempo em que as desculpas se acumulavam para justificar o injustificável: a permanência das interrupções do tráfego nas estradas, mais de 300 bloqueios na noite de segunda-feira. O movimento de bolsonaristas já era responsável pelo cancelamento de voos no aeroporto de Guarulhos (São Paulo), quebras de abastecimentos em supermercados, falta de combustível nalguns postos.

Polícia Rodoviária Federal apenas fingiu que atuava

Valério Arcary
Valério Arcary

O “terceiro turno”

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Na manhã de terça-feira, diante da inoperância da PRF, o juiz Moraes autorizou as Polícias Militares (estaduais) a fazer o que fosse necessário para pôr fim aos bloqueios. Foi o suficiente para verificar o isolamento em que Bolsonaro caiu: os governadores do Rio de Janeiro, de São Paulo e de Minas Gerais associaram-se à decisão do juiz e comprometeram-se a agir nos seus estados, através das respetivas Polícias Militares, para pôr fim ao movimento. Recorde-se que os três governadores apelaram ao voto em Bolsonaro no segundo turno das eleições.

O isolamento de Bolsonaro já tinha ficado patente quando o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, e do Senado, Rodrigo Pacheco, reconheceram a vitória e parabenizaram Lula da Silva pelo seu terceiro mandato. O resultado das urnas foi também reconhecido pelo atual vice-presidente, Hamilton Mourão, e pelo já citado ministro da Casa Civil do governo Bolsonaro, Ciro Nogueira. Além de ministro, Nogueira é também o presidente do Partido Popular (PP), o maior do “centrão”.

Pela Constituição de 1988, o presidente eleito a 30 de novembro apenas toma posse no dia 1 de janeiro, havendo nestes dois meses intermédios tempo para que a transição entre os dois governos se possa fazer sem sobressaltos. Essa era a ideia quando a Constituição foi aprovada. Mas ninguém sonhava que anos depois esses dois meses pudessem se transformar num pesadelo devido à resistência do presidente derrotado a deixar o poder.

Metalúrgicos puseram fim a bloqueio

Entretanto, nem só os bolsonaristas se mobilizaram. Vídeos divulgados mostraram como os metalúrgicos do estaleiro Brasfels, em Angra dos Reis, desfizeram um bloqueio na rodovia Rio – Santos (BR-101) na noite de segunda-feira. Presos no bloqueio e irritados com a atuação dos bolsonaristas, os trabalhadores saíram do autocarro da empresa e removeram as barricadas, dispersando os manifestantes golpistas e restabelecendo o tráfego.

Também o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), de Guilherme Boulos, divulgou nota em que constata o movimento de “travamentos que contestam o resultado eleitoral e pedem intervenção militar”, sublinhando que os protestos “acontecem com a complacência de forças de segurança, como a PRF”. Diante esta situação, o MTST orientou a sua militância “a organizar manifestações para desbloquear as principais vias de acesso, exigindo o respeito ao resultado eleitoral”.

A decisão, porém, foi criticada por Gleisi Hoffman, presidente do PT, que afirmou que o desbloqueio é responsabilidade do Estado. “O Estado tem que tomar as providências”, argumentou. Confiar que o Estado garantirá a transição sem percalços nos próximos dois meses, sem a necessidade de mobilizar a esquerda, parece ser uma estratégia perigosa diante de um Bolsonaro fortalecido com os seus 58 milhões de votos.

Quem viver verá.

Luís Leiria
Sobre o/a autor(a)

Luís Leiria

Jornalista do Esquerda.net