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Deputada sueca denuncia "traição ao povo que libertou o mundo do Estado Islâmico"

No Parlamento sueco, a deputada de ascendência curda Amineh Kakabaveh acusou o Governo de se "curvar perante o tirano" Erdogan e de querer entrar na NATO à custa do sacrifício do povo curdo.
Amineh Kakabaveh. Foto de Anders Henrikson/Flickr

Mesmo entre os apoiantes da adesão da Suécia à NATO está a causar indignação o entendimento alcançado com o Governo turco que permitiu o convite à Suécia para participar na cimeira da NATO em Madrid e uma aproximação à entrada formal na aliança militar.

É o caso da deputada independente Amineh Kakabaveh, de ascendência curdo-iraniana, que há poucas semanas foi o voto determinante para chumbar uma moção de censura contra o ministro da Justiça. Citada pela Reuters, considerou que a troca da autorização turca para entrar na NATO pelo fim do apoio aos curdos sírios por parte da Suécia foi "um dia negro para a história da política externa sueca" e que vem trazer ansiedade acrescida às pessoas que encontraram um abrigo seguro naquele país e veem agora ser vendidos os seus direitos mais elementares.

"Isto é uma traição por parte do governo sueco, dos estados membros da NATO e do Secretário Geral da NATO, Jens Stoltenberg, ao enganarem todo um povo que libertou o mundo inteiro do Estado Islâmico", prosseguiu Amineh, citada pelo diário Dagens Nyheter, destacando em particular a luta das mulheres, "que a Suécia afirma apoiar". "Milhares de mulheres sacrificaram-se para libertar o mundo do Daesh", recordou. Para a deputada, a Suécia "curvou-se perante um tirano" ao aceitar aquelas condições, em vez de negociar um acordo que permita que a adesão à NATO "não se faça à custa dos curdos".

Amineh Kakabaveh, uma antiga combatente peshmerga, quer que a ministra dos Negócios Estrangeiros, Ann Linde, venha ao Parlamento dar explicações sobre o acordo com a Turquia e ameaçou apresentar uma moção de censura por causa deste assunto.

"Será que vamos armar a Turquia na sua guerra de ataque na Síria?"

Para a oposição à esquerda, enquanto os Verdes consideram "muito preocupantes" as anunciadas mudanças à lei da exportação de armamento para permitir a venda de armas à Turquia, a líder do Partido da Esquerda, Nooshi Dadgostar, lembrou que "já tínhamos avisado sobre os perigos de colocar a política externa sueca nas mãos do déspota Erdogan". E deixou duas perguntas: "Será que vamos armar a Turquia na sua guerra de ataque na Síria? Quais os dissidentes que serão extraditados?".

A diáspora curda na Suécia conta com cerca de cem mil pessoas, com uma boa parte a comunidade a apoiar as posições do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que liderou a resistência armada do povo curdo durante décadas. Ao mesmo tempo que se discute o futuro da NATO, o presidente turco Erdogan ameaçou fazer uma incursão militar para capturar cidades no norte da Síria que as Forças Democráticas Sírias, onde se destacam os combatentes curdos do YPG, tinham tomado ao Estado Islâmico com o apoio norte-americano.

"Os curdos já foram traídos muitas vezes ao longo da História", disse à Reuters Osman Aytar, um professor universitário que fugiu da Turquia para a Suécia nos anos 1990 para escapar à prisão. "Talvez Erdogan tenha apostado que consegue invadir novas parte de Rojava (regiões de maioria curda no norte da Síria) enquanto o Ocidente fica quieto por causa deste assunto da adesão à NATO. Se o Ocidente fechar os olhos, ele ficará feliz", resume Aytar.

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