Está aqui

A demissão de Cabrita “só peca por tardia”

Para Catarina Martins, o ex-ministro “não perdeu as condições para ser ministro agora” mas sim “há quase dois anos, quando o cidadão Ihor Homenyuk foi assassinado e torturado pelas forças de segurança”.
Foto de Mário Cruz/Lusa.
Foto de Mário Cruz/Lusa.

Em declarações este sábado durante o comício no Barreiro, a coordenadora do Bloco de Esquerda abordou a demissão de Eduardo Cabrita. Ministro da Administração Interna desde 2017, Cabrita justificou a demissão esta sexta-feira com a reação pública às suas declarações sobre a acusação no acidente rodoviário em que esteve envolvido.

Eduardo Cabrita não perdeu as condições para ser ministro agora. Perdeu-as há quase dois anos quando o cidadão Ihor Homenyuk foi assassinado e torturado pelas forças de segurança portuguesas.

O Bloco de Esquerda disse-o na altura: ter prolongado este mandato de equívoco em equívoco e de declaração desastrosa em declaração desastrosa não fez nenhum bem ao país. Se esta saída não é o centro do debate, seguramente só peca por ter vindo muito tarde.

Quando os problemas do SEF se tornaram um escândalo público, a necessidade de uma reestruturação já estava identificada há vários anos, com relatórios da Procuradora da Justiça ou várias entidades internacionais a denunciarem uma offshore de impunidade no SEF. Eduardo Cabrita nunca agiu sobre o assunto até ao escândalo provocado pela morte de Ihor.

“Eu sou passageiro”, afirmou Eduardo Cabrita ao ser confrontado com a acusação de homicídio por negligência ao condutor do veículo oficial onde seguia na A6 em junho passado. A reação pública a estas declarações serviram de pretexto para o ministro apresentar a demissão do cargo. 

Na acusação conhecida na sexta-feira, é imputado um crime de homicídio por negligência ao motorista. Marco Pontes admitiu que seguia "na faixa mais à esquerda", à frente de uma "viatura de segurança", que circulava na faixa à direita e de um terceiro carro, também com elementos da comitiva governamental, "igualmente na faixa da esquerda".

Segundo o motorista, este procedimento "seguiu as orientações do Corpo de Segurança Pessoal da PSP", mas o MP considerou-o decisivo para que tivesse ocorrido o atropelamento mortal. A velocidade do automóvel - 163 km/hora - também foi, por ser excessiva, fundamental para que Marco Pontes não tivesse conseguido evitar o acidente. Eduardo Cabrita disse no inquérito que "não deu qualquer indicação sobre a velocidade a adotar, nem de urgência para chegar ao destino".

O motorista declarou que, "uns metros à frente do local onde se deu o embate com o peão, estava parada, na berma do lado direito, uma viatura sem qualquer sinalização luminosa, tendo apenas acoplado um sinal de sentido obrigatório e um sinal de triângulo, colocado na parte traseira do lado esquerdo".

O oficial de ligação da GNR no MAI que seguia na viatura, Paulo Machado, também não viu "sinais estáticos de sinalização na faixa de rodagem ou bermas", mas referiu que, "já próximo do local onde ocorreu o embate, verificou um veículo parado na berma" e que o mesmo, "sem qualquer sinalização luminosa", tinha "apenas acoplada na viatura sinal de sentido obrigatório".

Logo após o acidente, em reação às críticas a Cabrita, o seu gabinete disse que "não havia qualquer sinalização que alertasse os condutores para a existência de trabalhos de limpeza em curso". 

No entanto, o MP dá como certo que os trabalhos de limpeza estavam "devidamente sinalizados por veículo de proteção" com um "sinal de trabalhos na estrada", outro de "obrigação de contornar obstáculos à esquerda", além de "duas luzes rotativas".

Termos relacionados Política
(...)