Irão

A crise mundial de petróleo já acabou?

09 de abril 2026 - 14:45

O cessar-fogo entre os Estados Unidos da América e o Irão fez o preço do barril de petróleo baixar a pique, mas as expectativas de um “regresso à normalidade” podem ser exageradas.

porDaniel Moura Borges

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VLCC
Fotografia de Alexander Prevot/Flickr

Foram 40 dias de bombardeamentos ilegais dos Estados Unidos da América e de Israel no Irão. Em retaliação, o regime iraniano bloqueou o estreito de Ormuz, por onde passa 20% do combustível do mundo, e o preço do petróleo subiu a pique. O cessar-fogo devolveu confiança aos mercados e significou a descida histórica do barril de Brent, mas a crise mundial de petróleo está longe de estar resolvida.

A verdade é que o cessar-fogo é frágil e já está a ser contestado. Israel continuou a bombardear o Líbano depois do acordo de cessar-fogo e o Irão protestou, ameaçando voltar a encerrar o estreito de Ormuz. O belicismo de Trump e Netanyahu impulsiona uma nova escalada de tensões e não sabemos ao certo quanto tempo é que a trégua dura.

Mas mesmo que o cessar-fogo dure, a guerra de Trump já causou impactos de longo alcance no mercado dos combustíveis. O encerramento do estreito de Ormuz dispersou os petroleiros e desmobilizou operações logísticas, o que significa que todas as operações de transporte de mercadorias demorarão a recomeçar e terão um custo acrescido. Há milhões de barris de petróleo em armazenamento, cuja mobilização demorará semanas ou ainda mais, se a segurança do cessar-fogo não for garantida.

Segundo a Al Jazeera, em março as exportações de petróleo dos Estados árabes diminuíram em 206 milhões de barris, uma descida de 44%, que equivale à carga de 103 petroleiros e a dezenas de milhares de milhões de dólares. O Iraque foi o Estado mais afetado, com uma descida de 82% nas exportações. Já o Kuwait registou um colapso de 75% e o Qatar de 70%.

Para além disso, os ataques do Irão tiveram como alvo várias infraestruturas de produção de energia em Estados vizinhos. Nos Emirados Árabes Unidos, no Bahrain e no Kuwait, refinarias de petróleo e outras infraestruturas foram visadas nos bombardeamentos iranianos como forma de pressionar a administração estadunidense. Ou seja, o reinício da produção de petróleo será muito mais lento.

Soluções de curto e longo prazo

Apesar disso, há soluções de curto e longo prazo para proteger as famílias que vivem do seu trabalho do aumento do custo de vida. Enquanto tanta gente tem dificuldade em pagar as contas, os lucros do setor energético e das grandes distribuidoras sobem a pique.

As desigualdades aprofundam-se. Para proteger a maioria da população e baixar o preço dos combustíveis, gás e bens alimentares essenciais, é possível diminuir os impostos sobre o consumo e controlar as margens de lucro. Outra solução é que se coloquem os lucros extraordinários das gasolineiras e da grande distribuição a pagar a crise de custo de vida e a proteger quem está mais vulnerável. Ou seja, se há lucros extraordinários enquanto a maioria da população vê o preço geral aumentar, esses lucros podem ser colocados a pagar a crise.

Mas, a longo termo, é preciso repensar o sistema de capitalismo fóssil e o modelo do mercado marginalista da União Europeia. A produção de energia renovável garante uma maior soberania energética a Portugal, mas só se o mix energético garantir que não estamos dependentes da energia fóssil.

A transição energética pode criar empregos públicos, bem remunerados e estáveis, para garantir que Portugal tem mais soberania energética e que cumpre as metas estipuladas para a transição climática com uma economia mais robusta e à prova da loucura de Trump. 

Daniel Moura Borges
Sobre o/a autor(a)

Daniel Moura Borges

Militante do Bloco de Esquerda.