Crise laboral na EDP tem o rosto do novo secretário de Estado

10 de abril 2024 - 19:58

Até entrar no Governo, o novo secretário de Estado do Trabalho representou a empresa e bloqueou as negociações. Trabalhadores voltam à greve por aumentos salariais e progressão das carreiras, enquanto os acionistas recebem milhões em dividendos e decidem aumentos faustosos para os membros da administração.

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Trabalhadores da EDP manifestaram-se junto á sede da empresa.
Trabalhadores da EDP manifestaram-se junto á sede da empresa. Foto de Ana Mendes.

Com assembleia de acionistas marcada para esta quarta-feira, para decidir a distribuição de centenas de milhões de euros em dividendo, os trabalhadores da EDP voltaram à greve e ao protesto. A jornada de luta teve um primeiro momento na noite de terça-feira, com uma vigília que levou algumas dezenas de trabalhadores a pernoitar simbolicamente em frente à sede da empresa.

A greve foi acompanhada de um protesto em Lisboa, com centenas de trabalhadores a desfilarem a partir do Terreiro do Paço e a concentrarem-se na sede da empresa, na Avenida 24 de julho, onde decorria a reunião dos acionistas.

Manifestação entre o Terreiro do Paço e a sede da EDP em Lisboa
Manifestação entre o Terreiro do Paço e a sede da EDP em Lisboa. Foto Ana Mendes.

 

Esta foi a segunda greve geral na empresa em menos de três meses, depois da paralisação de janeiro passado, ambas convocadas pelo conjunto dos sindicatos presentes na EDP: da Fiequimetal (CGTP); o SINDEL (UGT); e o SIEAP, o Sinergia e a Asosi (independentes). Está igualmente em curso uma greve às horas extraordinárias desde dezembro. Este contexto particular de mobilização e unidade, em que despontou também um movimento de base de trabalhadores que se articulou com as organizações sindicais, ilustra bem o clima de indignação que se vive na empresa.

Os trabalhadores continuam a lutar por atualizações salariais dignas e pela valorização nas carreiras, enfrentando a intrasigência por parte da empresa. Depois de quebrar o diálogo com as organizações representativas dos trabalhadores, chegando mesmo a impedir a realização de um plenário em horário laboral, a administração decidiu unilateralmente, por ato de gestão, aumentos salariais de 3% para 2024. Um valor que nem compensa a inflação e vem degradar ainda mais os salários já muito baixos praticados na empresa.

A revolta dos trabalhadores é ainda maior tendo em conta o contexto. Desde logo, a empresa apresentou lucros de mais de 900 milhões de euros em 2023. E, enquanto prossegue esta política de estrangulamento salarial para os trabalhadores, os acionistas decidiram em março passado aumentar os salários dos administradores em 15%.

Secretário de Estado foi a cara da EDP "para enfrentar estes trabalhadores"

Mariana Mortágua marcou presença no protesto desta quarta-feira, considerando a greve e a mobilização dos trabalhadores da EDP "uma manifestação muito importante". Criticou a conduta da empresa, acusando a administração de abrir "guerra aos trabalhadores": "interrompeu negociações, proibiu um plenário de trabalhadores, impôs um aumento de 3% que é abaixo do acordo de rendimentos, que é abaixo da inflação, e certamente muito abaixo das possibilidades dos lucros empresa". Assinalando o contraste das decisões, referiu que "o que está em causa é uma administração que decidiu para si aumentos de 15% de salários, que decidiu distribuir mais de 60% dos lucros e que deixou a estes trabalhadores uma miséria. Não quis negociar com eles, não quis dar aumentos dignos, com um salário base que ronda os mil euros, que é a condenação de tantos trabalhadores em Portugal".

Mariana Mortágua na manifestação de trabalhadores da EDP Mariana Mortágua na manifestação de trabalhadores da EDP. Foto de Ana Mendes.

 

A coordenadora do Bloco de Esquerda denunciou o papel de Adriano Rafael Moreira, que foi o representante da EDP nas reuniões com os sindicatos e é agora secretário de Estado do Trabalho.

Adriano Rafael Moreira
Adriano Rafael Moreira veio da assessoria à EDP para a Secretaria de Estado do Trabalho.

"A crise laboral na EDP tem a marca de uma pessoa: o novo secretário de Estado do Trabalho, que foi a cara que a EDP escolheu para enfrentar estes trabalhadores, para proibir plenários, para interromper negociações coletivas, para impor aumentos salariais abaixo da inflação. Um Governo que enche a boca para falar da necessidade de aumentar salários escolhe para secretário de Estado o responsável por uma crise laboral na EDP, pela imposição de salários baixos e de condições de trabalho que não desejamos a ninguém".

"A economia empobrece quando grandes empresas, que lucram à conta dos recursos naturais do país, à conta do preço da energia, distribuem para si próprios, para os seus acionistas, todos os lucros. Não deixam nada em investimento, não deixam nada no país, não deixam nada nos salários. Esta é uma das causas da miséria da economia do país", concluiu.