Nos últimos dias da COP28 - a reunião anual da ONU destinada a salvar a humanidade das alterações climáticas - foi anunciado que a próxima reunião se realizaria em Baku, a capital do Azerbaijão.
"Somos o que fazemos, não o que dizemos", afirmou o Presidente da COP28, Sultan Al Jaber. "Temos de tomar as medidas necessárias para transformar este acordo em ações tangíveis", acrescentou, " afastando-nos dos combustíveis fósseis [transitioning away, formulação que suscita variadas interepretações] nos sistemas energéticos de uma forma justa, ordenada e equitativa, acelerando a ação nesta década crítica para alcançar o zero líquido até 2050, de acordo com a ciência" [1].
Segundo a Agência Internacional da Energia, "os subsídios ao consumo mundial de combustíveis fósseis duplicaram em relação ao ano anterior, atingindo um nível recorde de mil milhões de dólares" [2]. O Fundo Monetário Internacional estima que os subsídios "implícitos e explícitos" - diretos e indiretos [3] - ascenderam a 7.000 mil milhões de dólares no ano passado [4]. Se estes números são demasiado abstratos, considere o seguinte: a humanidade bombeia atualmente 101,8 milhões de barris de petróleo por dia - sem contar com o carvão e o gás. E o consumo de energia está a aumentar 2% ao ano.
Sultan Al Jaber, para além de presidir à COP28, é também diretor executivo da empresa petrolífera nacional dos EAU, a ADNOC. Segundo alguns relatos, a empresa nacional de petróleo e gás dos Emirados Árabes Unidos aproveitou a COP28 para se dirigir às delegações com o objetivo de assinar novos acordos sobre hidrocarbonetos [5].
Se gostou do Dubai, vai adorar Baku.
A caminho do Mar Cáspio
É difícil prever como é que o Azerbaijão vai organizar a COP29 em 2024.
O Azerbaijão não é conhecido pelos seus conhecimentos em matéria de ambiente nem pelas suas iniciativas de luta contra as alterações climáticas. Por outro lado, Baku está historicamente associada ao petróleo. Recorde-se que, em 1900, Baku produzia metade do petróleo do mundo. O Azerbaijão é um país especializado na produção e exportação de hidrocarbonetos. Ainda hoje, mais de 90% das exportações totais do país são de petróleo e gás.
Não existe nenhum partido ecologista no Azerbaijão. Em contrapartida, um "movimento" surgiu a 12 de dezembro de 2022 para bloquear o corredor de Latchine em nome da defesa do planeta, exigindo o fim das atividades mineiras no Nagorno-Karabakh. Nem a polícia azerbaijanesa nem os "capacetes azuis" russos intervieram para os expulsar e abrir a estrada. De facto, os manifestantes eram eles próprios agentes do governo azerbaijanês. Bloquearam a estrada de Latchine até abril de 2023, altura em que foram substituídos pelo exército do Azerbaijão. O Azerbaijão tem um movimento "ambientalista" oficial que participou ativamente em matar de fome o conjunto da população do Nagorno-Karabakh [6].
O Presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev [no poder desde outubro de 2003], não tem "capacidades" de negociação. Mesmo no auge das negociações com a Arménia e os governantes de facto de Karabakh, lançou a sua terceira guerra em setembro passado, atacando Nagorno-Karabakh, causando centenas de vítimas e limpando etnicamente Karabakh da sua população autóctone. Ilham Aliyev também não tem "capacidades" de resolução de conflitos. Afirmou: "Como é que a paz pode ser alcançada por meios militares? [...] Nós provámos que existe uma solução militar para o conflito. Portanto, o conflito está resolvido. [7] Aliyev acredita que a guerra é a paz e a paz é a guerra.
Por outro lado, há verdadeiros protestos ambientais no Azerbaijão. Em junho, os habitantes da aldeia de Soyudlu, situada numa região montanhosa remota, protestaram contra as atividades mineiras da empresa britânica Anglo Asian Mining, que estavam a poluir as fontes de água da aldeia. As autoridades do Azerbaijão enviaram a polícia para reprimir os habitantes e impuseram um cerco à aldeia. No Azerbaijão, os falsos ambientalistas são agentes do governo, enquanto os verdadeiros ambientalistas são espancados e enviados para a prisão [8].
Mukhtar Babayev, Ministro da Ecologia e dos Recursos Naturais do Azerbaijão [desde abril de 2018], é citado como tendo afirmado que o seu país está "totalmente empenhado nos esforços globais" para combater as alterações climáticas, que "até 2020, 30% da eletricidade do seu país será gerada a partir de energias renováveis" e que "as áreas libertadas" serão zonas neutras em termos de carbono [9].
A Abzas Media é um dos poucos meios de comunicação social independentes que noticiou a repressão policial em Soyudlu. O seu diretor, Ulvi Hasanli, foi detido em 20 de novembro e "espancado ou maltratado", segundo a Amnistia Internacional [10]. Continua na prisão até hoje. Desde então, foram igualmente detidos três outros jornalistas da Abzas Media, Mahammad Kekalov, Sevinj Vagifgizi e Nargiz Absalamov, bem como Teymur Karimov, diretor do canal independente Kanal11, e Aziz Orujov, diretor do Kanal13. Em 13 de dezembro de 2023, as autoridades prenderam Hafiz Babaly, outro jornalista independente que estava a investigar a corrupção no Governo. Alguns dias antes e depois do anúncio da candidatura bem sucedida do Azerbaijão para acolher a COP29, três diretores de meios de comunicação independentes e vários outros jornalistas foram presos.
Em preparação para a COP29, o Azerbaijão está a eliminar todos os vestígios de jornalismo independente. Não restará nenhum jornalista que não repita a propaganda de Mukhtar Babayev, ninguém que chame a atenção para o facto de toda a economia do Azerbaijão estar a contribuir para as alterações climáticas, em vez de resolver o problema, e que a chamada "neutralidade carbónica" será alcançada em territórios onde o seu governo matou e deportou toda a população.
No plano diplomático, o Azerbaijão é conhecido pela sua "diplomacia do caviar": milhões de dólares distribuídos no estrangeiro para comprar influência através de políticos, o que permitiu "silenciar o Conselho da Europa" [11]. Em julho de 2023, as autoridades azeris prenderam o professor de economia Goubad Ibadoghlou, um reputado economista azerbaijanês, que ousara investigar e escrever sobre a corrupção na política azerbaijanesa e no sector da energia.
As alterações climáticas já chegaram a Baku
A precipitação está a diminuir devido às alterações climáticas e, no último século, 50% dos glaciares desapareceram [12]. O nível do Mar Cáspio desceu um metro e, até ao final do século, prevê-se que desça mais 9 a 18 metros, perdendo 23 a 34% da sua superfície [13]. Em algumas regiões do Azerbaijão, como Sheki [no noroeste do país], já se registou um aumento da temperatura média de 1,5°C em relação à temperatura média de 1970. De acordo com vários modelos, até ao final do século, o aumento da temperatura média poderá situar-se entre 4 e 6°C. Até ao final do século, as alterações climáticas tornarão inabitável e imprópria para a agricultura uma grande parte das terras baixas do Azerbaijão [14].
Assim, se se trata de um "país vitorioso", como poderá ser uma derrota?
Vicken Cheterian é um jornalista e autor nascido no Líbano, que ensina relações internacionais na Webster University Geneva. Artigo publicaod em A l'Encontre. Traduzido por Luís Branco para o Esquerda.net.