COP26 chegou a acordo: insuficiente, dizem ambientalistas

13 de novembro 2021 - 22:23

Os países mais afetados pelas alterações climáticas, vários ambientalistas e o secretário-geral da ONU alertam que o texto final não toma as medidas necessárias para evitar uma catástrofe. Se o quadro geral já não era visto com simpatia, piorou depois da Índia fazer uma alteração de última hora que deixou cair o fim do carvão.

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Alok Sharma, presidente da COP26, no final do evento. Foto de ROBERT PERRY/EPA/Lusa.
Alok Sharma, presidente da COP26, no final do evento. Foto de ROBERT PERRY/EPA/Lusa.

Depois de alterações de última hora, o “Pacto Climático de Glasgow” foi finalmente adotado na tarde deste sábado. No texto agora assinado os cerca de 200 países presentes mantêm o compromisso estabelecido no Acordo Climático de Paris, de limitar o aquecimento global a um máximo de 1,5 graus centígrados acima do que acontecia na era pré-industrial. Isto implica, escreve-se, “reduções rápidas, profundas e sustentadas nas emissões globais de gases com efeito de estufa, incluindo uma redução de 45% das emissões de dióxido de carbono até 2030, comparando com os níveis de 2010, e da neutralidade carbónica até meio do século, bem como reduções profundas noutros gases com efeito de estufa”.

O resultado não é um acordo internacional obrigatório e as medidas nele constante são apenas recomendações. Ainda assim a discussão prolongou-se e a sessão plenária final da COP26 ficou marcada pela intervenção de última hora da Índia sobre o carvão que conseguiu mudar uma única palavra. Só que com consequências. Onde se lia “phasing out” passou a ler-se “phasing down”, ou seja o abandono deste combustível fóssil passou a ser uma mera diminuição. A União Europeia e a Suíça ainda se opuseram, o presidente da sessão, Alok Sharma, ainda se emocionou, chorou, e disse-se "profundamente desolado" mas a alteração acabou por ficar consagrada no documento.

Na véspera, a China tentara fazer uma outra alteração que faria com que o corte de emissões de gases com efeito de estufa passasse a dever ser feito ao ritmo de cada país. Esta alteração não foi aprovada.

Os países mais afetados pelas alterações climáticas já tinham apresentado críticas fortes ao texto final por não ser suficiente. Um dos pontos quentes da cimeira foi a discussão sobre compensações a alguns países mais vulneráveis e pobres que contribuíram pouco para a crise climática mas que têm sido os mais afetados. Uma das protagonistas desse debate foi Lia Nicholson, representando Antigua e Barduda, país que preside à Aliança dos Pequenos Estados-Ilha que conta com 37 membros. Disse-se “extremamente desapontada” com o desfecho e que iria tomar medidas mas concedeu que aceita o texto para que haja qualquer coisa em vez de nada.

Quem também não ficou satisfeito com o resultado da cimeira foi secretário-geral das Nações Unidas que emitiu rapidamente um comunicado em que considera que a declaração final está cheia de contradições e que, apesar de “passos em frente que são bem-vindos” isso “não chega” e “a catástrofe climática continua a bater à porta”.

As vozes dos ambientalistas juntam-se a este coro. Em comunicado conjunto, as três organizações portuguesas que participaram no encontro, a Oikos, a FEC e a Zero”, também falam em “avanços”, também dizem que são “insuficientes”. Apesar das declarações de intenções, dizem que o resultado da cimeira fica “bem aquém de assegurar uma trajetória que garantisse” a meta do Acordo de Paris.

A alteração da Índia é considerada “desastrosa”, “lamentável e mostra a enorme dependência de muitos países deste combustível fóssil em particular que é um elemento fundamental da descarbonização global”.

Greta Thunberg, a jovem ambientalista sueca que se tornou conhecido com o movimento Fridays for Future que deu origem a várias greves climáticas estudantis, criticou igualmente este acordo resumindo-o como "blá, blá, blá”. Para ela, “o verdadeiro trabalho continua fora dessas salas. E nunca, jamais, desistiremos”.

Ao contrário das vozes mais cautelosas e diplomáticas, Thunberg defende que classificar o sucedido como “pequenos passos na direção certa”, como “fazer algum progresso“ ou como “ganhar gradualmente” seria o “equivalente a perder".

No próximo ano as discussões continuarão no Egito. Aí se vão rever os planos de cada país para cumprir o acordo.