Contracimeira em Glasgow: Resumo do Dia 2

08 de novembro 2021 - 22:46

Domingo teve início a Cimeira dos Povos e pude assistir a algumas sessões de debate sobre a transição justa e direitos dos trabalhadores, as estratégias de greenwashing e de "neocolonialismo verde" por parte do setor da aviação e as respostas da direita à crise climática. Artigo de Miguel Martins.

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Ação do Extinction Rebellion este domingo o centro de Glasgow. Foto de Miguel Martins.

Como referi no artigo anterior, começou este domingo a verdadeira COP. É na Cimeira dos Povos, com centenas de eventos programados, de forma presencial e digital, que serão discutidos os assuntos que os governos não querem debater na COP-26: respostas para a crise climática.

Juntando cientistas, sindicatos, comunidades indígenas ou jovens estudantes, a Contracimeira, ao dar voz a todo o movimento social pela justiça climática, vai ao fundo das questões, tendo sempre como principal prioridade salvaguardar os interesses dos povos, sem qualquer subordinação aos interesses financeiros.

As respostas da direita à crise climática

Na manhã de domingo participei num debate acerca das respostas da direita à crise climática. Com vários exemplos de todo o mundo, é possível verificar uma viragem na retórica destas forças no que toca ao Clima. Enquanto antes frontalmente negavam a existência das alterações climáticas, vários partidos e figuras da direita e da extrema-direita têm assumido uma narrativa que pretende simular preocupação perante a crise climática que enfrentamos. A razão é bastante simples: as direitas pretendem mostrar que estão a fazer algo para combater as alterações climáticas, procurando tentar disputar este campo com a esquerda.

Esta mudança no discurso é também amplificada através de máquinas de propaganda bem oleadas controladas pela direita, preparadas para divulgar um ideário que, embora seja bastante diversificado (existem várias diferenças nas narrativas assumidas entre os diferentes partidos), assenta num princípio basilar: greenwashing. Ao assumirem uma visão própria acerca das alterações climáticas, as direitas querem desviar o foco da discussão, procurando evitar que se discuta o que importa. Simultaneamente, erguem o discurso da extrema-direita, recorrendo a mentiras e fake news, apelidando as políticas climáticas defendidas pela esquerda de “extremistas” e uma ameaça à vida das pessoas. Em suma, as respostas da direita à crise climática não passam de mais uma forma de negacionismo.

Transição justa e direitos dos trabalhadores: é necessária uma aliança entre o movimento climático e sindical

Ao início da tarde de domingo assisti a um debate organizado pelo Partido da Esquerda Europeia e o Democratic Left Scotland, onde foram discutidos os modos de produção de energia e a necessidade de uma transição energética justa. Como a alcançar? Através da expansão do controlo democrático da energia. Essa transição tem de salvaguardar os direitos de quem trabalha: os trabalhadores do setor da energia são os principais afetados e devem ver os seus direitos e rendimentos protegidos e garantir que não são prejudicados por esta transição, tendo em conta que vivemos num sistema dominado pelos interesses financeiros.

Mas a proposta da transição energética, ainda que procure salvaguardar os interesses dos trabalhadores, enfrenta também alguma incerteza e desconfiança da sua parte. Olham para essa transição como uma fonte de instabilidade que lhes transformará a sua vida de um momento para o outro. Por isso, muitos sindicatos preferem manter o sistema atual para garantir que não há perda de empregos. O debate identificou a necessidade de uma melhor comunicação entre o movimento climático e o movimento sindical, que ajude a uma maior consciencialização dos trabalhadores para mudar este sistema, pois eles devem ser parte da construção deste processo de transição energética. Por outro lado, esse processo não pode ignorar a questão do Norte e do Sul global. Há uma grande diferença entre as suas dinâmicas e a transição energética deve garantir um equilíbrio. Uma transição energética apenas localizada no Norte irá levar à criação de mais dependência no Sul.

O greenwashing e o neocolonialismo verde no setor da aviação

Ao final da tarde de domingo, assisti a uma sessão acerca das táticas de greenwashing usadas pelo setor da aviação. O painel começou por abordar a questão da neutralidade carbónica e a narrativa que lhe está associada e tem eco nas máquinas de propaganda do sistema. Prometem até 2030 desenvolver algum tipo de tecnologia que ainda não existe e que supostamente irá descarbonizar o funcionamento de vários setores como num passe de mágica. O setor da aviação é um dos principais emissores de CO2 e também diz estar à espera deste truque de magia.  

O objetivo desta sessão era o de desmistificar alguns dos temas da “propaganda verde” deste setor, que vai dos aviões elétricos ao marketing sustentável através de combustíveis ou o orçamento de carbono, que tem dado origem a formas de exploração neocolonial em  muitas partes do Sul global. O setor da aviação ignora propositadamente as questões ambientais e disfarça os problemas. Quer manter tudo como está para garantir que os seus lucros continuam a crescer. Sabem que têm os governos do seu lado e por isso utiliza estas táticas com toda a liberdade.

Ouvimos uma ativista indígena do Equador acerca dos efeitos concretos destes orçamentos de carbono na vida das comunidades. Contou o episódio de uma empresa de aviação que pagou milhares de dólares a uma comunidade indígena  para plantar 200 hectares de árvores, supostamente para cobrir as emissões de carbono que lançara para a atmosfera. Esta plantação acabou por destruir a comunidade, que gastou os recursos locais para garantir que a plantação era mantida. Seguiram-se conflitos no interior da comunidade, que além de se manter em situação de pobreza acabou por ficar também na situação de prisioneira da empresa, graças ao vínculo legal que assumira. Isto é um bom retrato do sistema de privilégio por parte do Norte global contra o Sul. As empresas destroem num determinado sítio e compensam com plantações ou doações de dinheiro para outro sítio, criando novas formas de exploração neocolonial.

Continuaremos a acompanhar os debates desta contracimeira nos próximos dias aqui no Esquerda.net.