Angola

Contra a fome, milhares dizem “hoje é Frelimo, amanhã é MPLA”

24 de novembro 2024 - 18:30

A Frente Patriótica Unida fez a convocatória de um protesto que se queria representativo e juntou muitos mais grupos e cidadãos. Muata Sebastião, secretário-geral do Bloco Democrático, diz que não dá para relativizar a fome no país e quer repor um Estado democrático de direito.

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Manifestação contra a fome em Luanda.
Manifestação contra a fome em Luanda. Foto de Ampe Rogério/LUSA

Este sábado, foram milhares as pessoas que responderam ao apelo da Frente Patriótica Unida para uma manifestação em Luanda contra a fome, a pobreza e a violação de direitos democráticos. Apesar de convocada por esta coligação de partidos da oposição angolana, o protesto pretendia-se representativo e cívico e, assim, conseguiu juntar outros ativistas, partidos e grupos.

Nele se ouviram, para além do som do kuduro, palavras de ordem como “hoje é Frelimo, amanhã é MPLA”, uma referência à onda de mobilizações contra o partido de Governo em Moçambique que contesta os resultados das últimas eleições, “não queremos mais ditadura” ou apelos ao presidente da República para se demitir. Também se podiam ler nos cartazes frases como “a fome em Angola é real”.

À RFI Muata Sebastião, secretário-geral do Bloco Democrático, um dos partidos que integram esta coligação explicou que está “farto de 49 anos de MPLA no poder” com um Governo que “usurpa os direitos dos mais simples aos mais complexos”. Mas também afirma que os oposicionistas não vão desistir de lutar pela mudança.

Este dirigente sublinha que há mesmo fome em Angola. Para ele, “se tivéssemos um Estado sério, seria decretado um Estado de emergência porque não se pode compreender que num país rico como o nosso haja famílias a morrer de fome e achar que isso é algo a relativizar como o próprio presidente disse”, tendo aquele dito que a “fome em Angola é relativa”. Para o Bloco Democrático a fome “é absoluta” até porque há gente a morrer por esta causa.

Os manifestantes, diz, reivindicam a “reposição do Estado democrático de direito” como base para se poderem construir os outros direitos como a alimentação, a saúde e a educação.

O responsável político notou ainda o “constrangimento” da polícia ter desviado a marcha da zona central da cidade.

À Lusa, a vendedora ambulante Rosa Faustino dizia das suas razões para também participar na ação:“as panelas estão a gritar não temos comida, o povo, é mesmo fome que tem vindo a gritar, arroz subiu, medicamento nos hospitais nem se fala. A vida está muito difícil não estamos a conseguir comprar o negócio nas lojas para sustentarmos os filhos”.

De acordo com o relatório mundial sobre a crise alimentar, em 2023, a fome atingia cerca de um milhão e trezentos mil angolanos. Dois milhões necessitam de ajuda para se conseguirem alimentar no contexto de uma seca que atinge a região. O país é, contudo, o segundo maior produtor de petróleo ao nível do continente africano.