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Confinamento está a dificultar acesso a contracetivos

Serviços de planeamento familiar fecharam em muitos pontos de África e da Ásia. Mesmo onde permanecem em funcionamento, as limitações à circulação restringem acesso. Na Europa, cem associações exigem melhor acesso a cuidados reprodutivos.

O confinamento causado pela pandemia da Covid-19 tem consequências no acesso à saúde reprodutiva. E a Federação Internacional de Planeamento Familiar considera o seu impacto significativo, tendo as suas delegações nacionais avaliado as situações dos diferentes países. Segundo as contas da FIPF, 5.633 clínicas estáticas e móveis fecharam em 64 países. Mais de uma em cinco das clínicas estáticas conhecidas em 2018, 546 no total, estão encerradas.

O panorama e impactos são diferentes consoante as realidades locais. A pior situação encontrada é a do sul da Ásia, onde fecharam 1.872 clínicas e outros serviços de saúde reprodutiva. Em África, a preocupação passa pelo encerramento de um número elevado de clínicas móveis: 447. Na Europa contabilizaram-se 208 clínicas estáticas encerradas. No mundo árabe foram 56.

Segundo a FIPF, os países mais afetados pelos encerramentos foram o Paquistão, El Salvador, a Zâmbia, o Sudão, a Colômbia, a Malásia, o Uganda, o Gana, Alemanha, Zimbabwe e o Sri Lanka.

Faltam testes e medicamentos para o HIV, há menos cuidados de saúde contracetiva, menos serviços de combate à violência de género. No relatório, informa-se que 44 países diminuíram os testes de HIV, 41 diminuíram cuidados de saúde contracetiva, 36 cortaram serviços de combate à violência de género, 29 tem falta de contracetivos, 23 reduziram acesso a cuidados de saúde em caso de aborto, 16 falta de medicamentos para o HIV.

O diretor-geral da instituição, Alvaro Bermejo, diz que “estes números mostram que milhões de mulheres e raparigas em todo o mundo enfrentam agora um desafio ainda maior ao tentar tomar conta da sua saúde e dos seus corpos”.

De acordo com Bermejo, as mulheres enfrentam agora falhas graves no acesso à saúde sexual e reprodutiva. E “se estas perdas não forem corrigidas, as consequências para as mulheres e raparigas serão catastróficas; resultando em perdas de saúde, de autonomia e de vida”. Este médico salienta que, apesar das ordens de confinamento, “é vital assegurar acesso a cuidados de saúde sexual e reprodutiva críticos como contraceção, aborto seguro, teste a doenças sexualmente transmissíveis e tratamento e cuidados do HIV e SIDA”.

Governos europeus devem assegurar acesso seguro e atempado a planeamento familiar

Esta quarta-feira, cerca de cem associações não-governamentais europeias lançaram um apelo conjunto em que consideram “vital” que se adotem medidas para “salvaguarda a saúde, a dignidade humana, a integridade física e mental, a saúde reprodutiva das mulheres e raparigas da região”. Dizem que em muitos dos países europeus, “há falta de medidas governamentais para assegurar acesso a informações, bens e serviços essenciais de saúde sexual e reprodutiva.

As ONGs destacam os problemas de acesso atempado a cuidados abortivos e pós-abortivos e à contraceção de emergência. Estas restrições “têm impacto desproporcional em indivíduos pertencentes a grupos marginalizados, onde se incluem mulheres que vivem em situação de pobreza, portadoras de deficiência, ciganas, migrantes sem documentos, adolescentes, mulheres em risco ou sobreviventes de violência doméstica e sexual.”

Realçam-se ainda que os problemas são acrescidos nos países em que o aborto é ilegal ou severamente restringido, onde muitas vezes se viaja para um outro país para se interromper uma gravidez. Aliás, os pesados procedimentos administrativos de acesso ao aborto também se complicam nesta altura.

Exige-se assim a reforma das leis que ilegalizam a interrupção voluntária da gravidez num contexto em que as viagens estão travadas e por isso não há alternativas seguras, o fim das barreiras que se colocam noutros países em que o aborto é legal mas dificultado ao extremo, respostas atempadas, teleconsultas gratuitas e acessíveis a grupos desfavorecidos, entre várias outras medidas.

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