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Como se chegou a este Brasil triste?

A pandemia prossegue a mortandade, um quinto da população ativa está desempregada, Amazónia é incendiada criminosamente, mas Bolsonaro se aguenta no governo com um auxílio de emergência aos mais pobres. Neste artigo, Valerio Arcary discute como se chegou até aqui e o que a esquerda pode fazer para dar a volta por cima.
Sem vacina, sem aula. Foto: Jornalistas Livres
Foto: Jornalistas Livres

Uma pandemia que coloca o país em primeiro lugar no mundo, proporcionalmente à população, em número de vítimas; nove milhões de novos desempregados desde março, e uma taxa acima de 20% da PEA (população economicamente ativa); incêndios criminosos no Pantanal e na Amazónia motivados pela expectativa de futura legalização da posse de terras; a bizarra mobilização de grupos de extrema-direita contra o direito ao aborto de uma menina de dez anos, violentada desde os seis anos pelo próprio tio1; uma onda de violência com aumento da obscena taxa de homicídios2, e uma guerra aberta entre cartéis nos morros do Rio de Janeiro com tiroteios de horas, balas perdidas e morte; uma ofensiva da classe dominante para impor uma reforma na Constituição que permita a redução nominal dos salários do funcionalismo em até 25% do seu valor, além de privatizações relâmpagos: já fizeram a do saneamento básico, e perseguem a dos Correios e a da Eletrobrás, a distribuidora de energia elétrica; e um padrão crónico de corrupção, com investigações que se aproximam, perigosamente, de Jair Bolsonaro com a prisão de Fabrício Queiroz, um histórico assessor por três décadas, são o contexto do último mês de um Brasil triste. E muito infeliz.

Desde 1982, o Rio elegeu oito governadores, mas seis foram afastados, e cinco deles foram presos, um recorde nacional

A ameaça de impeachment cerca, também, três governadores eleitos na onda neofascista das eleições de 2018, Carlos Moisés em Santa Catarina e Wilson Lima na Amazónia Mas as manchetes se concentram na decisão de um juiz que afastou o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, acusado de corrupção. Desde 1982, o Rio elegeu oito governadores, mas seis foram afastados, e cinco deles foram presos, um recorde nacional3.

Mas há de tudo, um horror. Repercute o sinistro assassinato de Anderson do Carmo, marido de Flordelis, a deputada federal carioca mais bem votada, uma das pastoras evangélicas mais populares do país, com milhões de seguidores,mãe de 55 filhos – quatro biológicos e 51 adotados –, um episódio que mistura enriquecimento fulminante, estranhos rituais religiosos, e sexo em casas de swing. Seis dos filhos são acusados de participar do homicídio.4.

O famoso debate entre Lula e Fernando Collor no 2º turno das eleições de 1989

Marx comentou uma vez que a história podia ser, estupidamente, lenta. É bom lembrar que a ditadura militar tinha muito apoio popular no início dos anos setenta, mas depois mais de cinco milhões de pessoas foram às ruas nas Diretas Já, em 1984: demorou vinte anos; que o governo Sarney foi ultrapopular no ápice do Plano Cruzado em 1986, mas depois milhões aderiram à greve geral em 1989, e Lula chegou ao segundo turno: foi muito mais rápido; que o governo Collor era superpopular enquanto a inflação não disparou em 1991, mas depois outra vez, alguns milhões foram às ruas para derrubá-lo: dois anos; que o governo FHC era megapopular em 1994, e foi reeleito em primeiro turno em 1998, mas depois em 1999 a campanha Fora FHC mobilizou centenas de milhares, e abriu caminho para a eleição de Lula em 2002.

Bolsonaro não vai cair amanhã, mas tampouco vai demorar, indefinidamente. Na verdade, a atual conjuntura expressa um desenlace parcial e temporário de uma luta política inconclusa. Vai exigir uma luta titânica, vai passar, só não sabemos quando. Na sequência, em sete notas vamos considerar as circunstâncias e as perspetivas.

  1. As grandes batalhas políticas da última década foram as jornadas de junho de 2013, o impeachment de Dilma Rousseff de 2016, e as eleições de 2018. A esquerda perdeu todas. Mas está dividida em três interpretações diferentes.

A relação entre os três processos é a chave da situação atual. Existem, grosso modo, três interpretações na esquerda brasileira sobre o significado do governo Bolsonaro. Elas são incompatíveis. O debate entre as três pode e deve ser intelectualmente honesto.

A primeira posição defende que junho de 2013 inaugurou uma onda conservadora, e abriu o caminho para uma ofensiva burguesa em 2015/16 que derrubou o governo Dilma Rousseff, criminalizou e prendeu Lula, e culminou com uma derrota histórica, a eleição de Bolsonaro e é maioritária no campo petista-lulista. O governo Bolsonaro teria resultado de uma reação às reformas progressivas dos governos de coalizão liderados pelo PT, ou seja, seus acertos. Contextualiza o giro da burguesia para o impeachment na pressão de Washington, sublinha o papel das agências de inteligência e serviços secretos (a formula das guerras híbridas), adverte que o deslocamento da classe média seria produto de um incontível ressentimento social, e explica a debilidade da mobilização popular contra o golpe pela reestruturação produtiva. A ideia impressiona porque tem um grão de verdade. Mas nenhum governo é derrotado quando acerta.

O governo Bolsonaro só foi possível em função de derrotas acumuladas pelos erros da direção do PT, mas seu significado histórico repousa numa reação burguesa impulsionada pelo imperialismo.

A segunda considera que Junho de 2013 foi uma mobilização democrática progressiva em toda a linha; que as mobilizações contra a corrupção em 2015 estavam em disputa; e a eleição do governo Bolsonaro resultou, fundamentalmente, dos limites e dos erros dos governos do PT, e é abraçada por uma parcela da esquerda radical, minoritária no Psol, ou no seu exterior. Despreza o peso acumulado das derrotas na consciência da classe trabalhadora, e sobrevaloriza as tensões do governo Bolsonaro com frações da classe dominante. Explica o governo Bolsonaro como um acidente histórico.

Manifestação em São Paulo no dia 20 de junho de 2013, na Avenida Paulista. Foto de Marcelo Camargo/Agência Brasil

A terceira, maioritária no Psol, sustenta que as jornadas de junho de 2013 estavam, socialmente, em disputa, mas que as mobilizações da classe média em 2015/16 eram, politicamente, reacionárias, e se posicionou frontalmente contra o impeachment de Dilma Rousseff. Identifica, dialeticamente, as contradições sociais e políticas do processo. Bolsonaro não foi nem um acidente, nem uma derrota histórica. Não fosse Bolsonaro, seria outra liderança. A eleição de Bolsonaro é incompreensível sem a Lava Jato, a prisão de Lula, a facada em Juiz de Fora, e tem, portanto, muito de aleatório, fortuito, contingente. A ruptura da burguesia brasileira com o governo Dilma Rousseff, não. Conclui que o governo Bolsonaro só foi possível em função de derrotas acumuladas pelos erros da direção do PT, mas seu significado histórico repousa numa reação burguesa, em escala continental, impulsionada pelo imperialismo.

  1. Nas últimas seis semanas aconteceu uma inflexão desfavorável na conjuntura brasileira, com uma estabilidade maior do governo. Assistimos a uma mudança na relação política de forças no marco de uma situação ainda reacionária.

Prevaleceu, entre março e julho, uma tendência ao enfraquecimento, mas se confirmaram como exageradas tanto as análises que consideravam plausível, ou até iminente, fosse um deslocamento ou um autogolpe de Bolsonaro.

Seis fatores principais incidiram na inversão de tendência:

(a) o impacto da distribuição de cinco parcelas mensais do auxílio emergencial de 600 reais (cerca de 95 euros) para 65 milhões de desvalidos, a mais volumosa e abrangente política pública de assistência da história, que impediu um aumento da miséria5, favoreceu um aumento na taxa de aprovação de Bolsonaro nas sondagens de agosto, especialmente entre os beneficiados6;

O impacto da distribuição de cinco parcelas mensais do auxílio emergencial de 600 reais (cerca de 95 euros) para 65 milhões de desvalidos favoreceu um aumento na taxa de aprovação de Bolsonaro nas sondagens
O impacto da distribuição de cinco parcelas mensais do auxílio emergencial de 600 reais (cerca de 95 euros) para 65 milhões de desvalidos favoreceu um aumento na taxa de aprovação de Bolsonaro nas sondagens 

(b) um recuo de Bolsonaro da estratégia de autogolpe após a prisão do assessor por três décadas Fabrício Queiroz, a demissão do neofascista ministro da educação Weintraub, e um reposicionamento diante do STF face às investigações contra seus filhos, um deputado e outro senador, de “gabinete do ódio”, fakenews e de corrupção na rachadinha, iniciando uma fase “paz e amor”, ou menos conflitiva com a imprensa e a Justiça 7;

(c) a renegociação do arco de alianças no Congresso Nacional incorporando a maior parte do Centrão na base do governo, o que lhe garantiu uma blindagem contra quarenta pedidos de impeachment apresentados ao presidente da Câmara dos Deputados8;

(d) a repactuação com a burguesia da emergência de um orçamento para 2021 que mantenha o teto de gastos, de uma reforma administrativa que introduza o gatilho para reduzir os salários do funcionalismo, e uma reforma tributária que simplifique a arrecadação, mas não aumente a carga fiscal.9

(e) a tendência de “naturalização” da pandemia na base social de Bolsonaro. Diferentes pesquisas identificaram que há uma forte correlação entre os que não tem medo da pandemia, e aqueles que apoiam o governo. 10

(f) por último, a impossibilidade da esquerda se apoiar em mobilizações de massas nas ruas em função da pandemia, ainda que tenham acontecido valentes lutas defensivas como a pioneira greve dos entregadores de aplicativos por melhores condições de trabalho, contra demissões na Renault de Curitiba, em defesa de direitos dos trabalhadores do Metro de São Paulo, e a resistência à volta às aulas dos professores e estudantes;

  1. A pandemia continua à deriva, quando considerada a escala nacional, superando neste início de setembro os 120.000 mortos e, oficialmente, quase quatro milhões de pessoas infetadas. Mas deve se considerar uma subnotificação tanto de óbitos, que os especialistas apostam ser de pelo menos 30% e, sobretudo de contágios, porque o volume de testagem é irrisório, que deve estar perto de 10% da população nas vinte regiões metropolitanas das grandes cidades, ou quinze milhões de pessoas.

Entre todos os fatores que incidiram na inversão de tendência ao desgaste de Bolsonaro, a menos compreendida é a banalização da pandemia, especialmente, entre os apoiadores de Bolsonaro. Acontece que eles correspondem a um terço da população, pelo menos. Trata-se de um problema. Um problema, para marxistas é uma questão por ser ainda bem investigada.

Há uma visão de mundo que sustenta a banalização da pandemia

Bolsonaro tem mais apoio entre homens que nas mulheres, entre os mais velhos que nos jovens, entre os menos escolarizados que nos mais instruídos, e mais no sul que no nordeste.11

A banalização da pandemia traduz, grosso modo, a tendência a desresponsabilizar os governos pela calamidade sanitária, e repousa em muitos fatores:

  1. no Brasil, um terço da população com quinze anos ou mais, muito concentrada entre os com mais de cinquenta anos, é analfabeta, ou semiletrada, sem condições de atribuir sentido ao texto escrito, e há muita confusão sobre o que é a doença, e desconfiança da informação científica12; (b) há uma perceção de que é uma fatalidade que castiga com a morte os mais velhos e doentes; (c) há uma responsabilização das próprias vítimas, porque não seriam capazes de se cuidar; (d) há a pressão pela reativação da atividade económica, muito mais intensa entre empresários de pequenos negócios e trabalhadores informais; (e) há uma fadiga da quarentena, depois de cinco meses, e a ansiedade pelo retorno de uma rotina de vida normal; (e) há uma perceção de que o auge da pandemia já passou e os riscos são aceitáveis.

A banalização da morte não é normal. Mas a verdade é que a brutalização da vida não é uma surpresa no Brasil.

Ainda que estes e outros fatores sejam considerados, o crescimento em parcelas da população do marasmo, apatia, indiferença e insensibilidade diante de uma tragédia humana tão devastadora como a pandemia deve ser suficiente para nos provocar. Afinal, por quê? A banalização da morte não é normal. Mas a verdade é que a brutalização da vida não é uma surpresa no Brasil. Ela é uma rotina social e política. Ela repousa na desumanização dos mais pobres, dos negros, dos desvalidos, e tem raízes profundas que distinguem o Brasil: a escravidão e a desigualdade social e racial. Portanto, sustenta-se numa força ideológica. Há uma visão de mundo que sustenta a banalização da pandemia.

  1. A situação económica deteriorou-se, vertiginosamente, com o impacto da pandemia. A retração no segundo trimestre foi de 8,7%, a maior da história desde que há registros13. Estima-se que o desemprego vitimou quase nove milhões de trabalhadores14.

Quando a pandemia atingiu o país, a maioria da esquerda, moderada e radical, avaliou que seria um desafio enorme e sem precedentes impulsionar uma estratégia sanitária e política de redução de danos na escala necessária para conter uma deterioração tão acelerada.

A parcela da população, economicamente ativa, com contratos, restringe-se a menos da metade: pouco mais de trinta milhões no setor privado, e doze milhões no funcionalismo público. Outros quarenta milhões não teriam sequer como sobreviver sem apoio do Estado. A construção de uma quarentena rigorosa não seria possível, por variadas razões, sendo que a maioria burguesa era contra.

A análise era que a combinação de uma calamidade humanitária e uma crise económica deixaria o governo Bolsonaro fragilizado. Viriam centenas de milhares de mortes, dezenas de milhões de desempregados, crise social aguda e, portanto, um desgaste acelerado e uma oportunidade. Essa previsão confirmou-se durante os quatro primeiros meses.

Mas a aprovação de um orçamento de emergência, com autorização de gastos na escala de 10% do PIB, dos quais 250 mil milhões de reais (quase 40 mil milhões de euros) para o auxílio de emergência, elevando a dívida pública bruta de 75% para estimados 90% do PIB, teve consequências. Ao mesmo tempo, a recessão profunda reduziu as expectativas de inflação para abaixo do centro da meta, e o Banco Central reduziu a taxa básica de juros para 2% ao ano, a menor da história.

No mês de agosto a conjuntura mudou, e Bolsonaro se recuperou. Há boas razões para pensar que seja uma oscilação temporária

No mês de agosto a conjuntura mudou, e Bolsonaro se recuperou. Há boas razões para pensar que seja uma oscilação temporária, efémera, transitória. Há tendências e contratendências. Fatores que pressionam para uma direção, e outros que os neutralizam, parcialmente. A verdade é que ainda prevalece a incerteza.

  1. O impacto do auxílio emergencial, o reposicionamento do governo diante das instituições, a retaguarda dos militares e os planos do governo: orçamento de 2021, a reforma administrativa, reforma tributária, teto de gastos, privatizações, fortaleceram Bolsonaro.

A esquerda é ainda mais influente entre os trabalhadores com contrato e funcionários públicos e na juventude, e a oposição a Bolsonaro maioritária entre as mulheres e negros, mas a confiança popular na força das mobilizações permanece baixa. Estamos há cinco anos numa situação reacionária, e a oscilação na conjuntura do último mês foi desfavorável.

A influência da corrente neofascista é maioritária entre os empresários, se consideramos a burguesia brasileira de conjunto, ainda que haja divisões; ainda mantém maioria nas camadas médias, embora sofra desgaste; e avança entre os trabalhadores informais, aqueles que não têm contrato de trabalho. E o governo ampliou o apoio entre os militares com mais cinco mil oficiais em cargos de gestão pública, além de uma imensa influência nas polícias de todas as esferas, nacional, estadual e municipal.

O paradoxo é que a experiência com o governo de extrema-direita, ainda que esteja em desenvolvimento, é lenta. Essa lentidão não deve ser exagerada, mas é real. Um bom momento para lembrar a máxima de Spinoza: “nem rir, nem chorar, compreender”. Não é um mistério. São variados e conhecidos os fatores objetivos e subjetivos que explicam estas flutuações: impacto da injeção dos 250 mil milhões de reais do auxílio emergencial, elevação do consumo, adaptação fatalista à longa duração da pandemia, reativação parcial da atividade económica, isolamento da esquerda ao espaço das redes, etc. 15

O paradoxo é que a experiência com o governo de extrema-direita, ainda que esteja em desenvolvimento, é lenta.

Mas não é sustentável a manutenção do auxílio emergencial para 2021. E o fim do auxílio emergencial deve produzir uma elevação do mal estar social. A psicologia social das massas populares reage contrariada à perda de direitos. Bolsonaro defende uma elevação do Bolsa Família, rebatizado de Renda Brasil, um programa de transferência focada de rendimento estabelecido durante os governos Lula, que distribui em média 200 reais, ou 38 euros, para 13 milhões de famílias, para 300 reais e 20 milhões.

A maioria da classe dominante já se posicionou contra uma extensão para o ano que vem de uma violação da Lei do Teto dos Gastos16. Esta lei é uma extravagância brasileira, quase única no mundo, e foi aprovada durante o mandato de Michel Temer. Ela impõe uma redução dos gastos do governo como proporção do PIB. A regra limita o crescimento das despesas públicas à variação da inflação.

  1. Uma resistência que persevera, apesar da situação reacionária.

Nos últimos dois meses, assistimos a corajosas lutas defensivas. A greve na Renault de Curitiba contra a demissão de 700 operários conseguiu uma heroica vitória17. A greve dos trabalhadores do Metro de São Paulo contra a perda de direitos, também18. Em ambos processos a justiça deu ganho de causa aos trabalhadores. Uma greve dos Correios em escala nacional desafia a suspensão do contrato de trabalho19.

Mobilização dos trabalhadores que entregam nas residências comida dos restaurantes,encomendada através de aplicações de telemóvel, já em plena pandemia. Foto Mídia Ninja

Os entregadores de aplicativos fizeram jornadas de luta, em várias grandes cidades, em julho. A revolta dos professores e estudantes contra a volta às aulas em diferentes Estados, e em defesa do Fundeb foram, igualmente, vitoriosas. Tiveram repercussão os protestos dos movimentos feministas em defesa do direito ao aborto. Assim como o impacto do Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) no maior país de maioria negra fora da África.

Simultaneamente, por iniciativa da Frente Brasil Popular20 e Frente Povo Sem Medo21 vieram sendo construídas duas campanhas: (a) a solidariedade com as massas populares mais desamparadas durante a pandemia com a distribuição de alimentos e produtos de primeira necessidade; (b) jornadas de luta sob a bandeira Fora Bolsonaro, com Atos nas ruas, pelo critério de representação, em função do perigo de contaminação, e Atos nas redes sociais.

  1. Um lento e contínuo processo de reorganização na esquerda

A questão central é que estão em disputa diversos projetos sobre a dinâmica de para onde vai a reorganização da esquerda. O desafio estratégico é como abrir o caminho para a derrota de Bolsonaro. Mas ele desdobra-se em encruzilhadas táticas.

E assim como há, num plano da tática, uma luta da esquerda pela liderança da oposição a Bolsonaro contra a oposição liberal de direita, que pode se expressar através de uma candidatura de centro-direita de Sérgio Moro, ou do governador de São Paulo, João Dória, há noutro plano uma disputa entre os partidos da esquerda.

Esta luta de partidos se explica porque os projetos são diferentes, mas são ainda mal compreendidos. Há vários projetos na esquerda, porque os programas são distintos. Simplificando, e sendo por isso um pouco brutal, há o da maioria do PT, o do PSol, e o do PCdoB. E claro que, por último, mas não menos importante, há Lula, a esfinge.

O julgamento do Habeas Corpus de Lula na segunda turma do STF deve acontecer nos próximos noventa dias. Há, em princípio, dois desenlaces. Ou Lula perde o HC, e não poderá ser candidato em 2022, ou Lula recupera os direitos políticos e, se quiser, passa a ser pré-candidato. Se Bolsonaro não cair até lá, e Lula podendo ser candidato, desenha-se um segundo turno em que o enfrentaria. O julgamento consiste do ponto de vista jurídico, essencialmente, numa avaliação dos procedimentos de Sergio Moro e da sua relação com os procuradores de Curitiba. Mas o que está em jogo, politicamente, é o destino de Lula, e ele é indivisível do futuro da Lava Jato. Se Lula ganhar, a Lava-Jato sofre uma derrota irreparável. Se Sergio Moro ganhar, Lula estará, politicamente, neutralizado.

O projeto da maioria do PT é, essencialmente, a expressão dos seus governadores, da maioria dos senadores, e grande parte do aparelho sindical e eleitoral. Enfrentam uma permanente luta interna com a sua ala esquerda.22 Defendem a tática da Frente Ampla unindo a oposição e, por isso, apoiaram a eleição de Rodrigo Maia para a presidência da Câmara dos Deputados; preferem que a medição de forças com Bolsonaro só seja feita nas eleições de 2022; se Lula não puder ser candidato, o que é a hipótese mais provável, apoiarão Haddad; e, finalmente, inspiram-se na vitória peronista na Argentina, porque defendem um programa de impulso ao crescimento económico, e à extensão de políticas públicas compensatórias. Querem fazer, pela segunda vez, o mesmo caminho de 2018.

O projeto do PSol é ser um instrumento de luta anticapitalista útil para construir, nas condições de uma situação reacionária, uma Frente de Esquerda para resistir ao governo Bolsonaro, sair da defensiva e derrotar a corrente neofascista do bolsonarismo, investindo na ação direta de massas; o PSol não luta pelo poder para o PSol, luta por um governo de esquerda que seja um governo dos trabalhadores e dos oprimidos, indo além dos limites do atual regime de dominação, o presidencialismo de coalizão, e sustentado na mobilização e organização popular; porque o PSol quer ir além, também, dos limites das experiências dos governos de concertação do PT durante mais de treze anos que, finalmente, resultaram nas derrotas que vêm desde 2016. A aposta que une o PSol, em sua diversidade, é que sem disposição revolucionária não é possível no Brasil conquistar direitos sociais. Ainda que seja muito difícil chegar a um segundo turno, pela primeira vez o PSol poderá superar o PT nas eleições municipais no centro decisivo do país, no triângulo do sudeste, São Paulo, com Guilherme Boulos, Belo Horizonte, com Áurea Carolina e Rio de Janeiro, com Renata Sousa.

O projeto do PCdB foi apresentado por Flávio Dino e é uma aposta numa Frente Ampla amplíssima para resistir agora, com máxima redução de danos durante o mandato de Bolsonaro, bloqueando os intuitos de autogolpe, e garantir a derrota de Bolsonaro em 2022; isso só seria possível com uma candidatura de centro-esquerda, como a de Ciro Gomes, ou do próprio Flávio Dino, senão outro nome; essa Frente poderia inclusive assumir uma forma orgânica num novo partido legal, definido metaforicamente, como um MDB de esquerda, unindo setores do PT, insatisfeitos com a insistência na candidatura de Haddad, a setores do PSB, PDT, talvez, Rede e, possivelmente, outros, além do próprio PCdB.

Mas tudo é muito complicado, porque os partidos não são homogêneos. No PSol, por exemplo, há quem faça formulações parecidas com as do PSTU, mas há, também, outros que não estão muito longe do que defende a esquerda do PT, e até quem flerte com as ideias do PCdB. No PT há muita diversidade: além da sua maioria, há quem concorde com o da sua ala esquerda, quem apoie o do PSol, e quem prefira o do PCdB. No PCdB há uma aposta preferencial, mas há, também quem considera a hipótese defendida pela esquerda do PT.

Tudo é muito incerto, não é simples, e o que está em jogo é, dramaticamente, importante. Assim como é necessária a lucidez estratégica, é indispensável a inteligência tática. E um pouco de sorte é sempre bem vinda.

Publicado originalmente na Jacobin Argentina


Notas:

1Vídeos que circulam nas redes sociais mostram algumas pessoas hostilizando o médico responsável pelo procedimento e a vítima na tentativa de impedir o aborto induzido. Também é possível ver manifestante fazendo orações na frente da unidade do hospital. Apesar da presença de polícias militares no local, os manifestantes não se intimidaram para fazer o tumulto. Em alguns momentos houve confusão e bate boca”.

https://www.folhape.com.br/noticias/brasil/grupo-tenta-impedir-procedimento-em-menina-de-10-anos-gravida-apos/151074/ Consulta em 29/08/2020

2Em todo o ano passado, houve 41.635 assassinatos no país, contra 51.558 em 2018 – ou seja, quase 10 mil mortes a menos. Trata-se do menor número de crimes violentos intencionais de toda a série histórica”.

https://g1.globo.com/monitor-da-violencia/noticia/2020/02/14/numero-de-assassinatos-cai-19percent-no-brasil-em-2019-e-e-o-menor-da-serie-historica.ghtml

Consulta em 29/08/2020

3Wilson Witzel (PSC-RJ) é o sexto governador do Estado do Rio de Janeiro investigado por corrupção. Desde 1998, todos os cinco ex-governadores que foram eleitos no Rio de Janeiro e estão vivos já foram presos. Todos respondem em liberdade, exceto Sergio Cabral -- já condenado a 300 anos de cadeia e réu confesso: Pezão, Moreira Franco, Rosinha Garotinho, e Anthony Garotinho”.

https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2020/08/28/witzel-e-o-6governador-do-rj-na-mira-da-justica-em-menos-de-4-anos.ghtml Consulta em 29/08/20202

4 Anderson do Carmo foi assassinado em junho de 2019 na casa em que morava com a família em Niterói (RJ). Nove integrantes da família, que tem o casal e 54 filhos, foram denunciados. Oito deles estão presos.

https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2020/08/24/investigacao-conclui-que-flordelis-mandou-matar-marido-policia-faz-buscas.htm Consulta em 29/08/20202

5 “A maioria dos brasileiros que recebem auxílio emergencial do governo federal na pandemia usa o dinheiro principalmente para comprar comida. É o que revela pesquisa do Datafolha feita em 11 e 12 de agosto. Segundo aferiu o instituto, 53% dos ouvidos afirmam ter usado os R$ 600 mensais que recebem de preferência com sua alimentação. A seguir vêm como prioridades dos brasileiros pagar contas (25%) e custear despesas domésticas (16%)”. https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/08/brasileiro-usa-auxilio-eme...Consulta em 28/08/20202

6 Vulneráveis garantem aprovação recorde de Bolsonaro em meio a paradoxos da pandemia, indica Datafolha. Três pontos do crescimento na aprovação vêm de grupos que são alvo do auxílio emergencial.

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/08/vulneraveis-garantem-aprovacao-recorde-de-bolsonaro-em-meio-a-paradoxos-da-pandemia-indica-datafolha.shtml Consulta em 28/08/20202

7 Em almoço no Palácio da Alvorada, um grupo de empresários pediu ao presidente Jair Bolsonaro que mantenha o atual clima de pacificação com o Judiciário e o Legislativo e que adote medidas econômicas para destravar o acesso ao crédito no país. O encontro foi articulado pelo presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Paulo Skaf, e teve as presenças de empresários como Luiz Carlos Trabuco, do Bradesco, Francisco Gomes, da Embraer, Rubens Ometto, da Cosan, e Lorival Nogueira, da BRF. Conferir em: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/07/empresarios-pedem-a-bolsonaro-para-manter-pacificacao-e-destravar-credito.shtml Consulta em 28/08/20202

8 Novo capítulo na aproximação de Bolsonaro com o centrão, a substituição já era especulada desde o fim de julho. O presidente quer dar mais espaço ao grupo político, do qual se aproximou nos últimos meses para ter apoio no Congresso. Além do PP, o centrão reúne partidos como PL e Republicanos e ajuda a sustentar o governo em votações na Câmara, https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/08/bolsonaro-troca-lideranca-da-camara-e-coloca-deputado-do-centrao.shtml Consulta em 28/08/20202

9 Após força-tarefa do governo, o Congresso manteve nesta quinta-feira (20/08) o amplo congelamento salarial de servidores públicos até o fim de 2021, defendido pelo ministro Paulo Guedes (Economia).Um esforço de articulação política , acionando o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e líderes do centrão (como PP, PL e Republicanos). O resultado também representa êxito, no primeiro grande teste, do novo líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR). Foram 316 votos de deputados a favor do veto, e 165 contra. https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/08/com-apoio-de-maia-governo-reverte-derrota-e-mantem-veto-a-reajuste-do-funcionalismo.shtml Consulta em 28/08/20202

10 Entre quem reprova a gestão, 56% afirmam ter muito medo de ser infectado, contra 32% entre bolsonaristas.https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/08/veja-a-distancia-de-opiniao-entre-quem-aprova-e-rejeita-bolsonaro-de-economia-e-politica-a-pandemia.shtml Consulta em 28/08/20202

11 O presidente continua com taxa de reprovação mais alta entre as mulheres (39%) do que entre os homens (29%), na parcela dos jovens de 16 a 24 anos (41%), entre os brasileiros com grau de escolaridade superior (47%) e nas faixas de renda mais altas (40% na faixa de 5 a 10 salários, e 47% entre os que têm renda acima de 10 salários).A aprovação ao governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) cresceu de 32% para 37% desde a segunda quinzena de junho e atingiu sua melhor taxa de ótimo ou bom desde o início do mandato nesta segunda semana de agosto. A reprovação, soma da avaliação ruim e péssima, teve recuo mais acentuado e caiu de 44% para 34% no mesmo período. 

http://datafolha.folha.uol.com.br/opiniaopublica/2020/08/1988832-aprovacao-a-bolsonaro-cresce-e-e-a-mais-alta-desde-inicio-de-mandato.shtml Consulta em 28/08/20202

12 Testes cognitivos aplicados em 2018 em 2.002 pessoas residentes em áreas urbanas e rurais de todo o país verificou que 29% das pessoas podem ser consideradas analfabetas funcionais e que não superam o nível rudimentar de proficiência. Apenas 12% da população é considera “proficiente”. https://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2019-09/analfabetismo-resiste-no-brasil-e-no-mundo-do-seculo-21 Consulta em 28/08/20202

13 O consumo das famílias caiu 11,6%, com retração de 51% no consumo de semiduráveis e de 30,2% no de bens duráveis. Os investimentos (formação bruta de capital fixo) tiveram queda de 20,9%, com recuo de 35,9% em máquinas e equipamentos. A exportação teve queda de 0,4%; enquanto a importação encolheu 14,2%https://g1.globo.com/economia/noticia/2020/08/18/economia-brasileira-tem-contracao-de-87percent-no-segundo-trimestre-aponta-monitor-do-pib-fgv.ghtml Consulta em 28/08/20202

14 O número de pessoas ocupadas caiu 9,6% no período, em relação ao trimestre anterior, o que representa 8,876 milhões a menos trabalhando. É a maior redução desde o início da série histórica, em 2012. Em relação ao segundo trimestre de 2019, o recuo foi de 10,7% (10 milhões de pessoas a menos), também um recorde https://economia.uol.com.br/empregos-e-carreiras/noticias/redacao/2020/08/06/pnad-continua-desemprego-ibge.htm Consulta em 28/08/20202

15 Considerando os valores já pagos ou previstos, o aumento de renda para os mais pobres será de aproximadamente R$ 250 bilhões (3,6% do PIB) neste ano. Se o auxílio de R$ 600 durar até dezembro, o valor subirá para cerca de R$ 450 bilhões (6,4% do PIB). Tudo isso em apenas um programa, necessário e crucial para atenuar o impacto da pandemia na economia. A injeção de renda é tão grande que, em vários casos, as famílias beneficiadas ganham mais hoje do que antes da pandemia. https://www1.folha.uol.com.br/colunas/nelson-barbosa/2020/08/renda-basica-universal.shtml Consulta em 29/08/20202

16 “Pesquisa da XP Investimentos mostrou nesta sexta que a maioria dos investidores institucionais consultados vê alguma forma de ajuste no teto de gastos para permitir despesas adicionais em 2021. De acordo com a sondagem, o dólar poderia ir a R$ 6,50 em caso de extinção do mecanismo”.

https://agora.folha.uol.com.br/sao-paulo/2020/08/jair-rousseff.shtml Consulta em 29/08/20202

17 No dia 21 de julho, os trabalhadores da fábrica Renault na cidade de São José dos Pinhais, na região metropolitana de Curitiba, receberam o anúncio de 747 demissões. https://esquerdaonline.com.br/2020/07/28/todo-apoio-a-greve-na-renault-parana-readmissao-dos-747-demitidos-ja/ Consulta em 29/08/20202

18 Os cortes são referentes à redução de benefícios conquistados com muita luta ao longo dos últimos anos, como periculosidade, adicional noturno, vale transporte, entre outros. A justificativa para o ataque seria a diminuição no caixa do Metrô devido à redução no número de passageiros imposta pela pandemia. https://esquerdaonline.com.br/2020/07/07/greve-dos-metroviarios-de-sao-paulo-pode-comecar-nesta-quarta-08-de-julho/

19 Nos Correios esses ataques visam enxugar a folha de pagamento, cortando os poucos direitos que ainda temos, para que a empresa, ainda mais sucateada, torne-se mais atrativa para a privatização. Não é surpresa que a iniciativa privada queira somente a parte lucrativa da empresa e com isso atender somente 600 cidades, pois hoje os Correios atendem a todos os municípios do país e o serviço postal é o único serviço de fato fornecido pelo governo que une todo território nacional. https://esquerdaonline.com.br/2020/08/14/greve-funcionarios-dos-correios-se-preparam-para-uma-dura-batalha/ Consulta em 29/08/20202

20Participam da Frente Brasil Popular a CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil) e a UNE, influenciadas pelo PCdB e a CUT (Central Única dos Trabalhadores) e dezenas de movimentos sob influência do PT, além do MST e a Consulta Popular. http://frentebrasilpopular.org.br/ Consulta em 29/08/2020

21 A Frente Povo Sem Medo surgiu durante o governo do PT liderado por Dilma Rousseff por iniciativa do MTST, um dos movimentos de luta por moradia popular mais combativos, e tem o apoio do Psol e outras organizações da esquerda radical.

https://mtst.org/tag/frente-povo-sem-medo/

22 O projeto da esquerda do PT, que mantém diálogo com o MST e a Consulta Popular, é muito plural, mas que influencia quase um terço do partido é diferente, porque são ultradefensistas do PT, e apostam tudo na capacidade de que Lula seria capaz de se reinventar com a campanha Fora Bolsonaro, e ter um protagonismo na mobilização social; estão comprometidos com a luta contra Bolsonaro antes de 2022, inclusive, com a perspectiva de sua derrubada; defendem a prioridade da Frente de Esquerda como tática de oposição; e têm forte referência na experiência chavista na Venezuela de combinação de disputa eleitoral e participação popular.

Sobre o/a autor(a)

Historiador e professor universitário em São Paulo, Brasil. Dirigente do PSOL.
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