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Como podemos voltar a ter imunidade de grupo face ao fascismo?

Há uma clara correlação entre a ofensiva neoliberal que começou nos anos 1980 e a ascensão do neofascismo e do fundamentalismo religioso. Por Gilbert Achcar no The Nation.
Cartaz anti-Trump. Foto de Derek Simeone/Flickr.
Cartaz anti-Trump. Foto de Derek Simeone/Flickr.

O conceito de “imunidade de grupo”, ou seja a imunização de toda uma população como resultado de uma alta percentagem que adquiriu resistência à doença, teve muita repercussão desde o início da pandemia de Covid-19. Há uma longa tradição das ciências sociais pedirem emprestados termos e conceitos às ciências médicas e a situação global atual ainda induz mais a isso. Assim, há fundamentos razoáveis para descrever metaforicamente como uma pandemia a propagação mundial de movimentos de extrema-direita nos anos mais recentes, incluindo governos dirigidos ou co-dirigidos por forças políticas que reproduzem alguns dos principais princípios ideológicos do fascismo em países tão variados como o Brasil, a Hungria, a Índia, as Filipinas, a Rússia e os Estados Unidos.

O início desta pandemia de extrema-direita remonta aos anos 1980 e esta foi fortemente impulsionada na década seguinte, como os editores do livro coletivo Fascism and Neofascism, reconheceram em 2004: “Embora um renascimento da atividade extremista na Europa Ocidental tenha começado nos anos 1980, o colapso do comunismo resultou numa vaga de extrema-direita por todo o continente. Durante os anos 1990, o fascismo, ou algo parecido, ressurgiu súbita e inesperadamente.” Como o fascismo clássico das três décadas que se seguiram à Primeira Guerra Mundial, este “neofascismo” – sem dúvida a melhor designação uma vez que se refere ao mesmo tempo às afinidades históricas e à renovação das suas formas adaptada aos nossos tempos – toma diferentes formas de acordo com os países nos quais se desenvolve.

Karl Polanyi dedicou várias páginas do seu clássico de 1944, A Grande Transformação, a realçar a grande variedade de fascismos e de ideologias fascistas. “De facto”, comentou, “não havia nenhum tipo de antecedente – de tradição religiosa, cultural ou nacional – que tornasse um país imune ao fascismo, assim que surgissem as condições para a sua emergência”. Ele até afirmava que “a existência de um movimento fascista propriamente dito” não fazia necessariamente parte dos sintomas daquilo a que chamava uma “situação fascista”. Pelo menos tão importante quanto isso eram sinais como disseminação de ideias irracionais, visões racistas e ódio à configuração democrática.

Lido à luz dos atuais acontecimentos nos Estados Unidos, o comentário seguinte de Polanyi soa assustador: “Apesar de habitualmente se dirigir a uma audiência de massa, a força potencial do fascismo pesava não pelo número dos seus aderentes mas pela influência em pessoas em posições elevadas cuja boa vontade os fascistas utilizavam e com cuja influência na comunidade se podia contar para os proteger das consequências de uma revolta falhada.” Para o pensador hungaro-americano, o fascismo era acima de tudo uma “solução para o impasse a que o capitalismo liberal tinha chegado” procurando uma “reforma da economia de mercado alcançada com o preço de extirpar as instituições democráticas.” A esta luz, a imunidade de grupo aos fascismo alcançada pela maior parte dos países ocidentais após 1945 não foi apenas o resultado da derrota das potências do Eixo mas também e acima de tudo um resultado de uma solução alternativa para o impasse do capitalismo liberal: a solução democrática keynesiana que descartava a ideia do “mercado auto-regulador” a que Polanyi chamava uma “utopia total”.

Noutro e muito mais antigo clássico das ciências sociais, o fundador da Sociologia, Émile Durkheim, já lamentava, no seu livro de 1897 Suícidio, o facto de “durante um século inteiro, o progresso económico consistiu principalmente em libertar as relações industriais de toda a regulação… Em vez de regular a vida económica, o governo tornou-se a ferramenta desta e o seu criado.” Para o sociólogo francês, esta desregulação económica era a principal fonte daquilo a que chamava “anomia”, isto é “um estado de exasperação e de cansaço irritado” resultante da perda de segurança económica e da disrupção de padrões sociais.

A anomia leva os indivíduos a procurar refúgio em algum tipo de identidade de grupo e – a não ser que seja orientada internamente (suicídio) – a estender a sua exasperação contra outras identidades consideradas responsáveis pelo aumento da precariedade da sua condição social, primariamente através de uma lógica racista e/ou xenófoba. Assim, a ascensão de ideologias e movimentos de tipo fascista iniciada nos anos 1980 ia a par com a ascensão de outros tipos de grupos identidade exclusiva, sendo o fundamentalismo religioso o mais óbvio.

Isto coincide totalmente com a observação feita por Eric Weitz e Angelica Fenner, os editores do já mencionado livro sobre o ressurgimento do fascismo: “Os renascimentos da direita foram uma resposta às deslocações políticas e sociais dos anos 1990, incluindo um desemprego substancial, a erosão da rede de segurança que os Estados Providência, tanto de leste como do ocidente, providenciavam e a deterioração das vizinhanças urbanas. Foram também uma resposta às migrações populacionais em larga escala que aconteceram nos eixos norte/sul e este/oeste da Europa desde 1945.”

Há na verdade uma correlação clara e inegável entre a ofensiva neoliberal que começou nos anos 1980, dirigida por Margaret Thatcher e Ronald Reagan – uma ofensiva que fez da “desregulação” um dos seus objetivos principais – e a ascensão de fenómenos como o neofascismo e o fundamentalismo religioso depois de décadas de marginalização. Da mesma forma, a Grande Recessão, despoletada em 2007, deu um impulso importante às forças neofascistas, tal como a grande onda de refugiados, a maior parte deles sírios, que chegaram à Europa em 2015. Os factos resultantes destas duas crises ainda afetam em grande medida o nosso mundo e a enorme crise económica que está atualmente em gestação como consequência da pandemia de Covid-19 apenas pode agravar severamente as condições anómicas em termos globais (a exploração da extrema-direita dos movimentos anti-confinamento é disso indicador), a não ser que seja contraposta por políticas económicas semelhantes às adotadas depois de 1945.

Acrescente-se a isto o facto de que, por mais significativa que tenha sido a derrota de Donald Trump na mais recente eleição presidencial, esta não teve uma dimensão comparável à derrota dos poderes fascistas na Segunda Guerra Mundial. A sua derrota ocorreu não por causa do descontentamento dos seus apoiantes mas apesar de um enorme aumento dos seus números (11 milhões de eleitores a mais) numa altura em que, ao contrário de 2016, não há ilusões possíveis acerca do que Trump representa e, portanto, dificilmente haverá ambiguidade no que significa votar nele. Também a nível global também não há presentemente sinais de que o neofascismo esteja em declínio: a persistência da popularidade de figuras como de Jair Bolsonaro (até muito recentemente, pelo menos), Narendra Modi, ou Viktor Orbán não mostra qualquer definhamento na pandemia de extrema-direita num futuro previsível.

Alcançar um novo estado de imunidade de grupo ao fascismo, como a adquirida nos anos do pós-guerra, requer não apenas a derrota política dos movimentos neofascistas mais proeminente e uma luta intransigente contra as suas ideologias. Requer também, mais crucialmente, um afastamento global do paradigma neoliberal que tem sido dominante nas últimas quatro décadas.


Gilbert Achcar é professor da Escola de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres.

Texto publicado no The Nation.

Tradução de Carlos Carujo para o Esquerda.net.

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