Como os gestores europeus e norte-americanos ajudam os oligarcas russos

28 de abril 2022 - 10:01

O trabalho dos gestores de riqueza é o de ajudar os clientes milionários a escapar aos impostos e outras obrigações. No caso dos oligarcas russos, também ajudam a evitar as sanções.

PARTILHAR
Imagem Flazingo Photos.

Desde o início da invasão russa da Ucrânia, a União Europeia, os EUA, o Reino Unido e outros países ocidentais têm apostado em aplicar sanções que enfraqueçam a elite do país. No entanto, a eficácia das sanções anunciadas à oligarquia russa tem merecido discussão. Em relação a esse aspeto, importa perceber de que forma é que os oligarcas tiveram acesso aos serviços financeiros e às diversas opções de investimento nos países ocidentais.

Na imprensa internacional, algumas notícias sobre o assunto surgiram no jornal norte-americano New York Times, no início de março. As duas notícias (acessíveis aqui e aqui) focam-se na Concord Manager, uma empresa de consultoria financeira com sede em Nova Iorque.

A gestora de fortunas de Abramovich

A Concord gere fundos provenientes de empresas sediadas em offshores, o que torna mais difícil perceber quem são os beneficiários efetivos dos investimentos. No entanto, as fontes do NYT asseguram que um dos principais envolvidos é Roman Abramovich, até há semanas o dono do clube de futebol inglês Chelsea e próximo de Vladimir Putin. A empresa gere qualquer coisa como 4 a 8 mil milhões de dólares, canalizando fundos para investimentos em empresas financeiras como a BlackRock, a Sarissa Capital Management ou o Carlyle Group, além de ter realizado investimentos com Bernard Madoff, condenado por ter desenvolvido esquemas financeiros ilegais.

Nas últimas duas décadas, o magnata russo utilizou empresas-fantasma em offshores, como as Ilhas Virgens Britânicas ou as Ilhas Caimão, para movimentar a sua riqueza e participar em investimentos em Wall Street. A Concord Management, que atuava como empresa de consultoria e aconselhamento das empresas-fantasma detidas por Abramovich, procurou manter-se discreta, não tendo um site online nem estando registada nas autoridades de regulação dos EUA.

O secretismo financeiro é uma componente indispensável do processo. Neste sentido, Abramovich e outros oligarcas russos dependem da colaboração de advogados, gestores de fundos de investimento e consultores dos EUA e da Europa. Na revista The Atlantic, a investigadora Brooke Harrington descreve esta rede de facilitadores que aconselha os mais ricos sobre as melhores formas de escapar à regulação e ao escrutínio das autoridades.

Harrington explica como aproveitou uma bolsa de investigação para mergulhar no mundo dos gestores de riqueza através da participação em seminários e palestras sobre direito empresarial, investimentos financeiros e contabilidade com outros gestores do ramo. Pelo caminho, conseguiu entrevistar dezenas de gestores e conhecer o seu trabalho.

Privacidade e discrição garantida para os ultra-ricos

O trabalho dos gestores de riqueza é o de ajudar os clientes milionários a escapar aos impostos e outras obrigações. Também participam em processos de divórcio, aconselhando os clientes sobre as melhores formas de esconder a riqueza em offshores para evitar partilhas, como aconteceu no caso do oligarca russo Dmitry Rybolovlev. Acima de tudo, asseguram privacidade e discrição aos ultra-ricos.

Atualmente, os offshores têm estado novamente envoltos em polémica por dificultarem a aplicação de sanções à oligarquia russa. O secretismo financeiro dificulta a localização dos ativos dos oligarcas e mina, pelo menos em parte, as sanções aplicadas pelos países ocidentais.

PwC também ajudou oligarca a criar império offshore

Uma investigação do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ) mostra como o homem mais rico da Rússia no ano passado - uma fortuna avaliada pela revista Forbes em 29 mil milhões de dólares, que terá caído depois da guerra para 13 mil milhões - teve a ajuda de uma das maiores consultoras do mundo para fazer crescer essa fortuna. Alexei Mordashov conta com o apoio da filial cipriota da PwC desde o início dos anos 2000, nomeadamente na criação e administrção de mais de 65 empresas registadas nas Ilhas Virgens Britânicas, de acordo com as revelações dos Pandora Papers.

Foi com esta rede de offshores que Mordashov investiu em empresas europeias e estendeu os seus negócios para além da área do aço, onde detém a Serverstal, líder do setor, tomando posições importantes nas indústrias do carvão, madeira e comunicação social. Embora jure não ter ligações ao Kremlin, os Pandora Papers identificaram agumas operações financeiras das offshores de Mordashov com uma figura próxima de Putin. Segundo o ICIJ, a PwC também ajudou o bilionário e a esposa a criarem as empresas offshore proprietárias de um super-iate e de um jato Bombardier. Para além, claro está, da restruturação da propriedade das empresas registadas em offshore para melhor poderem iludir as sanções internacionais à Rússia. 


Foto: Flazingo Photos