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Como os custos da guerra são sentidos no Sul Global

Apesar de ser importante analisar as vastas mudanças no mapa geopolítico devido à guerra na Ucrânia, é preciso não esquecer que nos países mais pobres milhões de pessoas estão a passar fome e a pagar o preço de um conflito global do qual não fazem parte. Por Ramzy Barou.
Ajuda humanitária na Somália. Foto da ONU/Flickr.
Ajuda humanitária na Somália. Foto da ONU/Flickr.

Enquanto as atenções mediáticas internacionais continuam amplamente focadas na guerra da Ucrânia, pouca atenção está a ser prestada às horrorosas consequências da guerra que são sentidas em muitas regiões do mundo. Mesmo quando estas repercussões são discutidas, uma cobertura desproporcional é centrada nos países europeus, como a Alemanha e a Áustria, devido à pesada dependência dos recursos energéticos russo.

Um cenário terrível, contudo, espera os países do Sul Global que, ao contrário da Alemanha, não vão provavelmente conseguir substituir os materiais russos. Países como a Tunísia, o Sri Lanka o Gana e muitos outros, estão a enfrentar graves carências alimentares a curto, médio e longo prazo. O Banco Mundial está a alertar para uma “catástrofe humana” como resultado de uma crescente crise alimentar por causa da guerra na Ucrânia. O seu presidente, David Malpass, disse à BBC que esta instituição estima um “enorme” salto nos preços alimentares, atingindo até os 37%, o que poderia significar que os mais pobres seriam forçados a “comer menos e ter menos dinheiro para outras coisas como a educação”.

Esta crise inquietante agrava agora uma já existente crise alimentar global, resultante das importantes perturbações nas cadeias globais de abastecimento, como resultado direto da pandemia de Covid-19 e de problemas pré-existentes que resultavam de guerras, conflitos, corrupção, má gestão económica, desigualdade social entre outras situações.

Mesmo antes da guerra na Ucrânia, o mundo já estava a ficar com mais fome. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) umas estimadas 811 milhões de pessoas “enfrentaram fome em 2020”, um salto massivo de 118 milhões quando comparado com o ano anterior.

Considerando a deterioração contínua das economias globais, especialmente nos países em desenvolvimento, e a subsequente e sem precedentes inflação ao nível mundial, este número deve ter aumentado muito desde a publicação do relatório da FAO em julho de 2021 com dados do ano anterior.

De facto, a inflação é agora um fenómeno global. O índice de preços ao consumidor dos Estados Unidos aumentou 8.5% relativamente ao ano anterior, de acordo com a empresa de comunicação social especializada em economia Bloomberg. Na Europa, “a inflação atingiu um recorde de 7.5%”, de acordo com os últimos dados do Eurostat. Por mais perturbantes que estes números sejam, as sociedades ocidentais que têm economias relativamente ricas e espaço potencial para subsídios governamentais estão mais preparadas para enfrentar esta tempestade quando comparadas com os países da África, América do Sul, Médio Oriente e de muitas partes da Ásia.

A guerra na Ucrânia teve impacto imediato no abastecimento alimentar em muitas partes do mundo. A Rússia e a Ucrânia combinadas contribuem com 30% das exportações globais de trigo. Milhões de toneladas destas exportações vão para os países dependentes de importações de alimentos do Sul Global – principalmente nas regiões da Ásia do Sul, do Médio Oriente, do Norte de África e da África Subsariana. Considerando que algumas destas regiões, que abrangem alguns dos países mais pobres do mundo, já estavam a debater-se com o crises alimentares pré-existentes, é seguro afirmar que dezenas de milhões de pessoas já estão ou muito provavelmente passarão a estar a passar fome nos próximo meses e anos.

Outro fator decorrernte da guerra são as duras sanções à Rússia. O prejuízo destas sanções provavelmente sentir-se-á mais noutros países do que na própria Rússia devido ao facto desta ser em grande medida independente em termos alimentares e energéticos.

Apesar da dimensão da economia russa ser comparativamente mais pequena do que potências económicas globais como os EUA e a China, as suas contribuições para a economia mundial tornam-na decisiva. Por exemplo, a Rússia é responsável por um quarto das exportações mundiais de gás natural, de acordo com o Banco Mundial, e 18% das exportações de carvão e trigo, 14% de fertilizantes e remessas de platina e 11% de petróleo bruto. Cortar o mundo de uma tão grande fonte de recursos naturais enquanto está desesperadamente a tentar recuperar do horrível impacto da pandemia é equivalente a um ato de auto-mutilação económica.

Evidentemente, uns sofrerão mais do que outros. Estima-se que o crescimento económico vá abrandar enormemente – até 50% em alguns casos – em países que alimentam o crescimento regional e internacional, como a Turquia, a África do Sul e a Indonésia, mas a crise será muito mais grave em países que estão no patamar da mera subsistência económica, incluindo muitos países africanos.

Um relatório publicado em abril pelo grupo humanitário Oxfam, citando um alerta lançado por 11 organizações humanitárias internacionais, alertava que “a África Ocidental está a ser atingida pela pior crise alimentar numa década”. Atualmente há 27 milhões de pessoas a passar fome na região, um número que pode chegar a 38 milhões em junho se nada for feito para mitigar esta crise. De acordo com este relatório, este número seria um “novo nível histórico”, sendo um aumento de mais de um terço quando comparado com o ano anterior. Como outras regiões em dificuldades, a massiva falta de alimentos é um resultado da guerra na Ucrânia, junto com os problemas pré-existentes, dos quais se destacam a pandemia e as alterações climáticas.

Embora as milhares de sanções impostas à Rússia ainda não tenham alcançado nenhum dos objetivos pretendidos, os países pobres que já estão a sentir o fardo da guerra, das sanções e da disputa geopolítica entre as grandes potências. Com o Ocidente ocupado a lidar com os seus próprios problemas económicos, pouca atenção é dada aos que mais sofrem. E com o mundo a ser forçado a fazer a transição para uma nova ordem económica global, levará anos para que as pequenas economias consigam esses ajustamentos com sucesso. Apesar de ser importante analisar as vastas mudanças no mapa geopolítico, é preciso não esquecer que milhões de pessoas estão a passar fome e a pagar o preço de um conflito global do qual não fazem parte.



Ramzy Baroud é jornalista e editor do The Palestine Chronicle. É autor de vários livros, o último co-editado com Ilan Pappé, é Our Vision for Liberation: Engaged Palestinian Leaders and Intellectuals Speak out”. É investigador no Center for Islam and Global Affairs (CIGA) da Istanbul Zaim University.

Texto publicado originalmente no blogue do autor. Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.

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