Num estudo publicado esta terça-feira na revista Bioscience, um grupo de 12 cientistas de vários países concluiu que os sinais vitais do planeta pioraram a um nível nunca antes visto pelos humanos, enquanto pouco foi feito pelos governos para enfrentar as alterações climáticas. Os autores principais do estudo são os mesmos que publicaram na mesma revista em 2019 a declaração de emergência climática assinada por 11 mil cientistas de todo do mundo.
"Enquanto cientistas, somos cada vez mais solicitados a dizer ao público a verdade sobre as crises que enfrentamos em termos simples e diretos. A verdade é que estamos chocados com a ferocidade dos fenómenos climáticos extremos em 2023. Temos medo do território desconhecido em que entrámos agora", afirmam.
Entre os dados apresentados neste "Relatório sobre o estado do clima em 2023: Entrando em território desconhecido", está a duplicação dos subsídios aos combustíveis fósseis de 531 mil milhões de dólares em 2021 para mais de um bilião de dólares em 2022, a gigatonelada de dióxido de carbono emitida nos incêndios deste ano no Canadá, que corresponde a mais do total das emissões de gases com efeito estufa deste país em 2021, os 38 dias registados este ano com temperaturas médias globais a ultrapassarem a fasquia do aumento de 1,5°C em relação à época pré-industrial, e temperatura recorde da superfície da Terra em julho, que calculam ser a maior dos últimos cem mil anos.
"Até ao final deste século, estima-se que 3 a 6 mil milhões de pessoas - aproximadamente um terço a metade da população mundial - poderão encontrar-se confinadas para além da região habitável, deparando-se com calor intenso, disponibilidade limitada de alimentos e taxas de mortalidade elevadas devido aos efeitos das alterações climáticas", diz a conclusão deste estudo.
"Para fazer face à sobre-exploração do nosso planeta, desafiamos a noção prevalecente do crescimento sem fim e o consumo excessivo dos países e dos indivíduos ricos como insustentáveis e injustos", prossegue o relatório, apelando à "transformação da economia mundial de modo a dar prioridade ao bem-estar humano e a proporcionar uma distribuição mais equitativa dos recursos".
Os cientistas defendem ainda que "temos de mudar a nossa perspetiva sobre a emergência climática, deixando de ser apenas uma questão ambiental isolada e passando a ser uma ameaça sistémica e existencial".