Chomsky e o ambiente: rebaixar ou mudar a nossa cultura industrial?

30 de agosto 2011 - 19:23

Nesta entrevista de Mickey Z., o professor e activista opõe-se à redução da cultura industrial, e defende a sua conversão numa forma sustentável de atender às necessidades humanas, e não ao lucro privado.

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Chomsky: A escolha de hoje não é entre eliminar transporte e desperdiçar combustíveis fósseis, mas entre formas de transporte mais e menos esbanjadoras de combustível.

Recentemente assisti a um vídeo sobre as alterações climáticas em que o professor era um dos entrevistados. Falou de forma bastante sombria sobre as recentes eleições [nos EUA] serem uma "sentença de morte" para a humanidade, e que devíamos "despedir-nos da nossa espécie". Acompanho o seu trabalho há décadas, mas não me lembro de o ouvir usar essa linguagem neste contexto. Na sua opinião, nós humanos esperámos demasiado tempo para agir? Acredita que podemos/devemos reduzir a nossa cultura industrial antes que ela se rebaixe a ela própria?

Se disse que as eleições são uma sentença de morte, fui longe demais. Mas acho que é justo dizer que elas ameaçam provocar esse resultado. Até mesmo a imprensa económica está preocupada. A Bloomberg Business Week informou que as eleições deram mandato a dezenas de deputados que negam as alterações climáticas, ampliando o apoio ao senador James Inhofe, que declarou que o aquecimento global é “a maior mistificação jamais espalhada entre o povo americano" e se sente "vingado" pelos resultados eleitorais. Provavelmente também está a comemorar a ascensão do deputado John Shimkus, que nos assegura que Deus impediria os efeitos terríveis das alterações climáticas; seria difícil encontrar casos semelhantes noutras sociedades. E, provavelmente, também está a comemorar o facto de que, de acordo com sondagens recentes, apenas um terço dos americanos acredita hoje que as actividades humanas são um factor nas alterações climáticas – muito provavelmente este é o resultado da enorme ofensiva da imprensa empresarial, abertamente assumida, destinada a obter este resultado.

É importante compreender que aqueles que orquestraram as campanhas sabem tão bem quanto todos nós que a "mistificação" é real e ameaçadora, mas estão a cumprir o seu papel institucional: maximizar lucro a curto prazo e pôr de lado "externalidades", neste caso, o destino da nossa espécie.

Modificar as instituições fundamentais da sociedade não é um desafio pequeno. Esta confluência de factores deve significar um aviso terrível. Se os EUA continuam a arrastar os pés na abordagem destes graves problemas, o resto do mundo terá ainda menos incentivo para adoptar medidas sérias.

Não considero que a consequência seja a redução da cultura industrial. Mas sim a sua conversão numa forma sustentável de atender às necessidades humanas, e não ao lucro privado. Por exemplo, os comboios de alta velocidade e a tecnologia solar não rebaixam a cultura industrial.

Quando eu digo "redução da cultura industrial," estou a sugerir que qualquer estilo de vida que se baseie na extracção incansável de recursos é, por definição, não-sustentável. Argumentaria que "servir as necessidades humanas" é em parte o que nos levou a esta confusão em primeiro lugar. Considerando que 80% das florestas foram destruídas e que 90% dos peixes grandes do oceano já se foram, talvez precisemos de uma perspectiva mais holística sobre as "necessidades"?

A resposta é a mesma. Necessidades humanas são atendidas por um estilo de vida sustentável, quase por definição, se incluirmos as gerações futuras. E uma mudança para tecnologias como o TGV em vez de maximizar o uso de combustíveis fósseis, e a energia solar, não é "a extracção incansável de recursos".

E as necessidades não-humanas? Não podemos sobreviver sem o funcionamento de um eco-sistema e a maioria das sugestões mais consensuais – produtos reciclados, lâmpadas CFL, etc. – são demasiado pequenas e vêm tarde demais. Como alguém que pesquisou as tendências de mudança da cultura humana, o senhor consegue ver os americanos aceitando fazer o tipo de mudanças e de sacrifícios necessários para garantir as "gerações futuras"?

Não sei o que entende por "necessidades não-humanas”. Um eco-sistema funcional é uma necessidade humana. Está a pensar nas necessidades dos animais não-humanos? Digamos, besouros? Provavelmente vão sobreviver a tudo o que fizermos ao eco-sistema. Concordo plenamente que as sugestões habituais significam muito pouco. Se vieram tarde demais, a consequência lógica, realmente, é que podemos despedir-nos uns dos outros. Mas acho que essa é uma previsão demasiado sombria. Sobre se os americanos podem meter mãos à obra, é difícil ser-se optimista. Certamente as tendências actuais estão na direcção oposta, como disse.

Se não está optimista, o que é que o impede de antever um futuro sombrio como eu?

Não ser optimista está muito distante de prever que tudo está acabado. Ainda há opções. Se realmente acha que o jogo acabou, para quê sequer discutir estes temas?

O único jogo que acho que acabou é a crença generalizada de que pequenos ajustes e mudanças podem fazer uma grande diferença que seja suficiente. O que sinceramente me pergunto é quais as opções que nos restam?

Acho que temos acordo sobre isso. As opções que restam são muito mais dramáticas e iniciativas de longo alcance, e quanto mais cedo melhor.

O que me traz de volta à minha questão inicial sobre a redução. Comboios de alta velocidade requerem práticas insustentáveis e tóxicas como a mineração, etc. A energia solar é, obviamente, melhor do que os combustíveis fósseis, mas não é verdadeiramente sustentável se for usada apenas para substituir os combustíveis fósseis em nome de apoiar uma cultura industrial/tecnológica insustentável. Quanto aos besouros, que mencionou antes, certamente sabe que os insectos valiosos, como as abelhas, estão a ser eliminados por esta mesma cultura humana. Então o que eu peço é uma ideia mais clara do que pensa que sejam as iniciativas dramáticas e de longo alcance que precisamos.

As abelhas estão a ser exterminadas, mas os besouros não. A escolha de hoje não é entre eliminar transporte e desperdiçar combustíveis fósseis, mas entre formas de transporte mais e menos esbanjadoras de combustível. O mesmo em relação à energia solar. Não faz sentido discutir opções que não têm sequer a mais remota hipótese de serem implementadas, e seriam maciçamente destrutivas se fossem. O que tem de ser feito hoje é (1) conversão em larga escala (climatização, etc), (2) mudança total no transporte para obter uma maior eficiência, como comboios de alta velocidade (3) esforços sérios para mudar para energia sustentável, provavelmente solar a longo prazo (4) outros ajustes que sejam viáveis. Se forem feitos efectivamente, podem ser suficientes para evitar o desastre. Se não, podemos desistir do fantasma, porque não há alternativas neste mundo, pelo menos nenhuma que eu tenha visto ser sugerida.

Além disso, não vejo como podemos racionalmente opor-nos ao comboio de alta velocidade por causa dos custos ambientais e outros, sem considerar as consequências sociais e humanas da eliminação radical de transporte que ele implica.

Eu acho que os "custos ambientais e outros" são virtualmente indistinguíveis das "consequências sociais e humanas". Preservar o sistema insustentável que pôs em risco toda a vida na Terra, para mim, traz consequências potencialmente muito piores do que iniciar o processo de desmantelamento deste sistema. Nenhuma opção é remotamente aliciante, mas só uma opção aceita a natureza inerentemente destrutiva da infra-estrutura industrial, tal como está agora.

A sua resposta ilustra exactamente o problema que eu vejo constantemente. Tem todo o direito de ter essa opinião, mas apenas afirmada, não pode trazer qualquer convicção. Lamento que não veja que o seu comentário não resolve o problema.

Lamento que não compreenda como ele o faz.

Então estamos de acordo.

Publicado na Press Action, retirado de Chomsky.info

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net