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China: revolta popular em Hangzhou e onda de greves

População protesta contra a construção de uma central incineradora de lixo e entra em confronto com a polícia. Cresce a onda de greves na província de província de Guangdong, o coração industrial chinês.
Mobilização em Hangzhou. Fotografia de Revolution News
Mobilização em Hangzhou. Fotografia de Revolution News

A semana reiniciou quente já que, nesta segunda-feira, a revolta popular contra a construção de uma central incineradora de lixo, em Hangzhou, levou a população a bloquear uma rodovia e a novos confrontos com a polícia enviada para reprimir o movimento.

Já há duas semanas a população tem feito manifestações, revoltada com a construção da central incineradora que acusam de provocar problemas de saúde, entre eles o cancro.

Após milhares terem tomado as ruas, no fim de semana, ocorreram violentos confrontos com a polícia. Os manifestantes, segundo informou a agência de notícias Reuters, viraram mais de 30 carros, queimaram dois carros da polícia e destroçaram mais quatro.

A revolta da população, que também se queixa da maneira autoritária como as autoridades tomam decisões, levou os governantes da cidade a propor o diálogo para angariar o apoio dos moradores. No entanto, essa atitude não foi suficiente para aplacar a ira dos populares que continuam em luta.

Esta revolta de Hangzhou junta-se a muitas outras que ocorreram na China nos últimos tempos. O grande crescimento económico do país foi conseguido ao preço de causar grandes problemas ambientais.

Hangzhou, capital da província de Zhejiang, localizada a 180 km de Xangai, faz parte da quarta maior área metropolitana da China e possui uma população de 8,7 milhões de habitantes. É considerada uma das mais belas cidades e durante vários séculos gozou de grande prosperidade.

Esta revolta de Hangzhou junta-se a muitas outras que ocorreram na China nos últimos tempos. O grande crescimento económico do país foi conseguido ao preço de causar grandes problemas ambientais. Uma ampla área do solo chinês está contaminada, causando um grande problema na agricultura. A poluição do ar chegou a tal ponto que, em várias partes, nuvens de poluição transformam o dia em algo parecido com a noite. Em alguns casos, a população tem de comprar até bombas de oxigénio. A poluição chinesa não só afeta o país, como atinge também países vizinhos, como o Japão, onde chegam as partículas de poluição a vários pontos do arquipélago.

Nos confrontos do final de semana, ficaram feridos pelo menos 10 manifestantes e 29 polícias.

A polícia tem intensificado a repressão e, neste momento, esta à caça de pessoas que incitaram a violência.

Onda de greves no coração industrial chinês

Segundo relata He Huifeng, do South China Morning Post, em artigo recente, desde março, a região do delta do Rio das Pérolas, na província de Guangdong, o coração industrial chinês e moradia do proletariado mais poderoso do planeta, tem sido abalada por uma onda de greves. O exemplo que percorreu o mundo foi a greve de mais de 40 mil trabalhadores da Yue Yuen, fornecedora de calçado para marcas como a Adidas e a Nike.

Mesmo depois desse poderosa greve, nas redes sociais fala-se de um crescente número de greves, que se espalham de Shenzen para Huizhou e Dongguan.

Ao que parece, 1000 trabalhadores da IBM Systems Technology, unidade fabricante de servers da IBM, continuam em greve desde 3 de março, mesmo com o despedimento de 19 trabalhadores por participarem no movimento. Também em março, mais de 900 motoristas de Dongguan cruzaram os braços por melhores salários, seguidos depois pelos operários da Shanmukang Technology, fornecedora da coreana Samsung.

No dia 1 de maio, cerca de 1200 trabalhadores de 101 fábricas divulgaram uma carta online exigindo que as empresas cumpram o pagamento da segurança social.

Em abril, pararam os funcionários de uma empresa gráfica de capital japonês, na cidade de Meizhou. Uma semana depois, 2000 enfurecidos trabalhadores da Galanz Electronics, em Zhongshan, danificaram bens da companhia por falta de pagamento. Também fizeram greve os funcionários da LG, de Huizhou. Deixaram de conduzir os taxistas de Dongguan e motoristas de autocarros em Shenzhen, por aumentos de salários.

No dia 1 de maio, cerca de 1200 trabalhadores de 101 fábricas divulgaram uma carta online exigindo que as empresas cumpram o pagamento da segurança social. Fazem um apelo também por melhores salários e segurança no trabalho. Segundo a jornalista He Huifeng, “parece que não se pode vislumbrar um fim na tensão entre administração e trabalho.”

Ao contrário do que pensam algumas pessoas, as greves que têm abalado a China nos últimos anos, são organizadas de maneira independente, contra a burocracia sindical chinesa, atrelada ao Partido Comunista. E, se o governo procura não transformar essas lutas num mar de sangue não é pelo facto de concordar com essas mobilizações, mas, sim, por cautela. Se derrama muito sangue, no final da história, o seu próprio pode ser derramado. Mas, invariavelmente, tem enviado a polícia sobre os trabalhadores em luta.

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