A crise da Europa e dos EUA também contagia a China, abalada pelos ventos de revolta mais forte dos últimos 20 anos. Há semanas, as regiões industriais da costa são atingidas por ondas de greves, milhões de operários perdem seus postos de trabalho, e milhares de empresas, minadas pela queda das exportações, fracassam e fecham.
Pela primeira vez, o “modelo China”, baseado na produção de baixo custo destinada ao exterior, mostra os seus limites: o crescimento desacelera, e o governo de Pequim teme que o vírus da instabilidade da zona euro se espalhe pelo Oriente.
Símbolo das revoltas que sacodem a segunda potência económica do mundo é o povoado de Wukan, no condado de Shanwei, coração do riquíssimo Guangdong.
Há cinco dias, os 20 mil habitantes da cidade, divididos entre pesca, agricultura e indústria, estão sob o cerco do Exército. Para reprimir a revolta, que começou em setembro, as autoridades ordenaram o bloqueio aos alimentos e, no domingo, ninguém pode entrar ou sair. Mil agentes circundam a região e contínuos confrontos armados com a população ameaçam degenerar num dramático conflito.
Postos de bloqueio e de censura impedem a entrada em Wukan. Os habitantes que conseguiram fugir através dos campos, testemunham os ataques das forças armadas de Pequim, que também atacam mulheres e crianças com canhões de água e gás lacrimogéneo. São dezenas de feridos, enquanto 13 líderes da revolta foram capturados e presos.
O que fez explodir a raiva popular foi a morte na prisão do chefe dos insurgentes, Xue Jinbo, de 43 anos. Segundo a polícia, tratou-se de uma paragem cardíaca súbita. Os familiares, aos quais o corpo não foi devolvido, descrevem, pelo contrário, um corpo torturado pelos espancamentos e pelas queimaduras. Pela primeira vez desde os dias do massacre da Praça Tiananmen, imagens captadas por telemóvel mostram uma multidão enfurecida que exibe faixas que invocam “o fim da ditadura” e a “morte dos funcionários comunistas corruptos”.
Jornais e canais de TV do Estado ignoram a revolta de Wukan, enquanto os filtros do governo não conseguem bloquear as denúncias e os pedidos de ajuda online dos habitantes, que temem “ser todos mortos em breve”. Autoridades, funcionários locais do partido e ricos empresários fugiram, e reina a anarquia na cidade.
Wukan foi eleita como símbolo do perigoso mal-estar que percorre a China devido às razões da revolta. A população rebelou-se contra as últimas expropriações forçadas de terra, executadas pelos dirigentes comunistas para favorecer grandes empresas imobiliárias privadas. Em poucas semanas, e com preços irrisórios, mais da metade do território do município foi subtraído dos habitantes e transformado de agrícola em edificável. Até hoje, o povo de Wukan, região rica graças à pesca, não se oporia à venda dos velhos arrozais.
Agora, no entanto, a poluição e a exploração de rios e mar não permitem mais que se viva, e os produtos das fazendas voltam a ser essenciais. Graças à tragédia da ex-rica Wukan, obrigada a rebelar contra a corrupção para não morrer de fome, a China descobre a mistura explosiva de esgotamento dos recursos naturais, degeneração do poder e fracasso de um modelo de desenvolvimento que está a semear instabilidade em todo o país.
Para os líderes de Pequim, reunidos em conclave por três dias para aprovar um megaplano anticrise para 2012, Wukan é o primeiro sinal de alerta de uma situação quase fora de controle. Há quatro meses, uma pequena localidade da região mais industrializada do planeta consegue não se deixar curvar pela repressão, e centenas de outros municípios e cidades estão a seguir o exemplo da sua resistência contra os abusos, enquanto os territórios do Tibete histórico também estão em agitação por causa do sacrifício dos monges que se ateiam fogo para denunciar a colonização chinesa.
Partido e governo estão comprometidos com a mudança de poder, da qual surgirá a classe dirigente dos próximos dez anos. Eles não podem permitir-se um banho de sangue, mas nem uma prova de incapacidade para manter a ordem. Por isso, do resultado do cerco de Wukan depende o destino da China e também o da Europa.
16 de dezembro de 2011. Tradução de Moisés Sbardelotto, do IHU On-line