Legislativas 2025

Chega perdeu um terço dos votos de 2024 mas atraiu ex‑eleitores do PS

28 de maio 2025 - 10:48

O Chega conquistou um em cada dez dos eleitores que, em 2024, tinham votado no PS. Primeiros estudos sobre comportamento eleitoral também indicam que um em cada três dos que então votaram Chega não repetiram agora.

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André Ventura junto à urna de voto
André Ventura junto à urna de voto. Foto Tiago Petinga/Lusa

Para analisar o que consideram “porventura a mudança mais substantiva na história do sistema partidário português em democracia”, os investigadores João Cancela (FCSH-Nova) e Pedro Magalhães (ICS-ULisboa) analisaram os dados recolhidos pelas sondagens à boca das urnas feitas pela empresa Pitagórica nas eleições legislativas de 2022, 2024 e 2025. Nestes pouco mais de três anos, sublinham os autores, o eleitorado do centro-direita pouco oscilou e a variação da soma dos votos dos outros partidos para além do PS e Chega não foi além dos 21%. Assim, a grande transformação está mesmo nos resultados destes dois partidos: em 2022, estavam separados por 34 pontos percentuais e ficaram agora praticamente empatados.

Do lado do PS, os dados confirmam grandes perdas entre todos os segmentos do eleitorado, em especial naqueles que lhe davam mais força: as mulheres e os eleitores com menos do que o ensino secundário. Em sentido inverso, o Chega cresceu em todos os grupos sociais, de forma menos pronunciada entre os eleitores com mais de 55 anos e no eleitorado com instrução superior. Se no ano passado o partido da extrema-direita já era o preferido entre os homens com menos de 35 anos, alcançou agora essa posição entre os homens até aos 55 anos. No eleitorado feminino, o Chega disputou com a AD a posição de partido mais votado na faixa etária entre os 25 a 34 anos e só ocupa a terceira posição entre as maiores de 55 anos. No conjunto do eleitorado jovem, dos 18 aos 24 anos, o Chega alcança cerca de 26%, o que fica apenas dois pontos acima do seu resultado total.

Tal como a quebra do PS, a subida do Chega ocorre de norte a sul do país, em especial nas freguesias rurais do Sul. Constatando que as dinâmicas das principais forças partidárias têm uma escala nacional, os autores concluem que “o sistema partidário português está em profunda transformação, mas tal não implicou uma maior heterogeneidade do ponto de vista geográfico do que em anos recentes”.

PS perdeu mais para o Chega do que a AD

Num exercício a partir dos resultados eleitorais por concelhos, Pedro Magalhães usou pela primeira vez um modelo usado noutros países que infere o comportamento de grupos de eleitores para determinar transferências de voto. E a conclusão que tirou quando viu o resultado para o Chega surpreendeu-o: o partido apenas conseguiu “segurar” cerca de dois terços dos seus eleitores de 2024, perdendo 6,6% para a AD, 5,2% para o PS, 14,2% para a abstenção e 5,8% para outros partidos, voto branco ou nulo (aqui reunidos na sigla OBN).

De acordo com este modelo, para o saldo positivo do partido de extrema-direita contribuíram a entrada de 5,3% dos abstencionistas de 2024 e sobretudo dos eleitores vindos do PS - 10,2% dos que votaram em 2024 nos socialistas -, o partido a quem o Chega mais conquistou eleitores, apenas superado pelo conjunto dos OBN (13,2%). Da principal concorrência à direita, o Chega conseguiu atrair 2,8% de eleitores que votaram AD no ano passado. Ou seja, acabaram por sair mais eleitores da AD para o PS (3,4%) do que para o Chega.

No sul, queda da CDU não explica subida do Chega

Olhando para a evolução dos resultados eleitorais em legislativas dos últimos três anos nos quatro distritos do Alentejo, eles permitem contestar a leitura de que o aumento da votação do Chega se fez através da transferência de votos da CDU. Em todos eles aumentou o número de votantes entre 2022 e 2025 e a diminuição do número de votos da CDU é seis a dez vezes menor do que o aumento dos votantes no Chega. Nestes distritos, é o PS que mais perdeu votos e em números que se aproximam da subida de votação na extrema-direita, mostram as contas do economista e vereador do PCP Josué Caldeira: entre 2022 e 2025 no distrito de Beja, a CDU perdeu 2.442 votos, o Chega cresceu 13.515 votos; no distrito de Évora, a CDU perdeu 2.857 votos, o Chega cresceu 13.858 votos; no distrito de Portalegre, a CDU perdeu 1.081, o Chega ganhou 11.084; enquanto no distrito de Setúbal a CDU perdeu 8.573 votos e o Chega ganhou 90.434 votos.