Chefe da diplomacia europeia lembra que Israel apoiou Hamas para debilitar Palestina

20 de janeiro 2024 - 12:57

Enquanto Josep Borrell volta ao tema do financiamento israelita do Hamas, Netanyahu continua a jurar a destruição total do grupo, em Israel há cada vez mais vozes que acreditam que isso é impossível e pedem eleições antecipadas. E os Estados Unidos garantem que Gaza não será reocupada.

PARTILHAR
Josep Borrel. Foto do Conselho Europeu.
Josep Borrel. Foto do Conselho Europeu.

“Sim, o Hamas foi financiado pelo Governo de Israel para tentar debilitar a Autoridade Palestiniana”. Palavras que não são novidade, e que já tinham constado de muitas notícias, como por exemplo esta reportagem do Intercept de há seis anos atrás, e até o New York Times tinha voltado a este tema ainda o mês passado mostrando como recentemente o Estado sionista fechou os olhos ao financiamento a este movimento que chegava do Qatar, afirmando que “o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu de Israel não apenas tolerou estes pagamentos mas encorajou-os” pensando que um “Hamas forte” “reduziria a pressão para um Estado Palestiniano.

Mas desta vez a frase foi pronunciada ao mais alto nível da União Europeia. Josep Borrell, o representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros, proferiu-a esta sexta-feira na Universidade de Valladolid, ao criticar Israel por boicotar “durante os últimos trinta anos” a solução de dois Estados.

Dado este boicote, defendeu ainda que “uma solução de dois Estados deve ser imposta do exterior para trazer a paz” porque “se não intervirmos fortemente, a espiral de ódio e violência continuará geração após geração, de funeral em funeral, à medida que florescem as sementes do ódio que hoje estão sendo semeadas em Gaza”.

Indiferente à diplomacia europeia, Netanyahu prossegue os seus planos guerreiros e o discurso da “vitória total” sobre o Hamas. Numa das últimas intervenções, gaba-se de ter recusado a proposta do governo norte-americano para diminuir a escala dos ataques e a possibilidade de que seja a Autoridade Palestiniana a administrar Gaza no futuro, garantindo que manterá o controlo militar do território.

Do lado norte-americano, o apoio à matança continua a chegar mas as declarações oficiais acusam o toque. Desta feita, foi o assessor de segurança nacional da Casa Branca, John Kirby, que respondeu às declarações do chefe do governo sionista para vincar que os EUA não vão tolerar uma ocupação de Gaza por parte de Israel: “haverá uma Gaza pós-conflito, não haverá uma reocupação de Gaza”, disse.

Em Israel, as divisões sobre o assunto são cada vez mais patentes com os grupos da extrema-direita mais dura que integram o governo a somarem declarações sobre a ocupação da Faixa de Gaza e mesmo da totalidade dos territórios palestinianos.

Do outro lado, a oposição vai taxando o plano de Netanyahu de “irrealista”. Gadi Eisenkot, antigo chefe do Estado-Maior que integra o gabinete de guerra de “unidade nacional” e que faz parte da Unidade Nacional de Benny Gantz, em entrevistas ao Channel 12, apela a um cessar-fogo para que se libertem os reféns e defende novas eleições. A sua perspetiva não é poupar o Hamas porque “o inimigo pode ser morto depois” mas acredita que “salvar os civis vem antes” disso.

Quem também apela a eleições antecipadas é o ex-primeiro-ministro trabalhista Ehud Barak num artigo no Haaretz.

Menos preocupados com eleições estão os familiares dos 136 israelitas que ainda estão sequestrados pelo Hamas. Estes voltaram-se a manifestar-se em silêncio à porta de Netanyahu esta sexta-feira à noite. Querem sobretudo a libertação destes. Para este sábado esta marcada uma manifestação na praça do museu de Tel Aviv apelando a um acordo. O Fórum das Famílias dos Reféns defende que “qualquer atraso nas negociações torna um refém num caixão”.