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Celebrar Natália Correia no seu centenário

Um pouco por todo o país realizam-se colóquios, exposições, visitas guiadas, sessões de leitura e debate ou peças de teatro para celebrar Natália Correia, nascida em 13 de setembro de 1923. Para sexta-feira, dia 15, a Assembleia da República tem agendada uma evocação.
Natália Correia, apoiante da candidata à presidência, Maria de Lourdes Pintasilgo, no comício de encerramento da campanha eleitoral para as eleições presidenciais, no Pavilhão Carlos Lopes, em Lisboa, a 24 de janeiro de 1986. António Cotrim / Lusa.

Poeta, romancista, tradutora, jornalista, dramaturga, guionista, ensaísta, editora, deputada, Natália Correia nasceu em 13 de setembro de 1923, na Ilha de São Miguel, nos Açores.

“Era uma força da natureza, formada no desassombro, na desmesura”, frisa Maria Teresa Horta no testemunho que foi integrado na obra “Natália Correia, dez anos depois”, volume organizado em 2003, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP).

Na entrevista concedida ao Esquerda.net sobre o livro Novas Cartas Portuguesas, Maria Teresa Horta lembra que Natália Correia foi a única a aceitar publicar a obra e que, inclusive, exigiu que a mesma fosse reproduzida na íntegra. No julgamento das Três Marias, Natália Correia quis assumir toda a responsabilidade.

“A Natália era uma mulher extraordinária. A pessoa mais corajosa que conheci. Uma pessoa inteligente, solidária, que escrevia poesia lindíssima. Era mesmo uma grande mulher”, afirma Maria Teresa Horta.

Natália Correia conhecia bem os embates com a polícia política da ditadura, tendo visto seis das suas obras censuradas pela PIDE. Mas a tentativa de apagamento do seu contributo literário não colheu frutos no pós 25 de Abril, e Natália Correia assumiu-se efetivamente como uma das figuras mais destacadas da cultura portuguesa nas décadas seguintes. São inúmeros os livros, prémios e reedições que constam do seu currículo.

Da criação literária à intervenção política, passando pela sua vida pessoal, Natália foi uma mulher de profundas paixões. Não é esquecida a sua intervenção em defesa do direito ao aborto, inclusive quando, em 1982, a então deputada eleita pelo PPD, presenteou João Morgado, do CDS, com o poema “Truca-truca”. Como também não é esquecido o papel fundamental que Natália teve na defesa intransigente da Cultura, desde a criação do icónico Botequim, ainda em plena ditadura, a tantas outras intervenções ao longo da sua vida.

Natália não passava despercebida entre aqueles com quem se cruzou, nomeadamente pela sua irreverência e indomabilidade. No centenário do seu nascimento, são várias as iniciativas que evocam a sua vida e obra, e que o Esquerda.net aqui procura divulgar.

Em Lisboa, as celebrações estendem-se até 2024. Esta quarta-feira terá lugar na Biblioteca de Alcântara o jantar literário “Poesia Comestível”. Neste mesmo dia, a Casa Fernando Pessoa acolhe o “Projeto Natália”, pela atriz Mia Tomé com o músico micaelense Mário George Cabral. Na Sala do Capítulo do Convento da Graça será inaugurada a mostra “Desenhar Natália”, que fica patente até 30 de novembro. Para o dia de aniversário está ainda agendada a conferência “Celebrar Natália Correia”, por Filipa Martins, autora de “Dever de Deslumbrar – Biografia de Natália Correia”, editada no passado mês de março. Nos dias 14 e 15, no Palácio Galveias, será exibida a peça “Nome: Natália”, de Ana Paula Costa. A Assembleia da República tem agendada para a sessão plenária de sexta-feira a “evocação de Natália Correia”. Já a 19 de setembro realiza-se a visita comentada ao Hotel Britania, onde Natália viveu durante os meses em que escreveu a peça “O Encoberto”.

O Teatro da Malaposta, em Odivelas, terá em cena, nos dias 16 e 17, a peça “O Humúnculo”, sátira dos anos de 1960, censurada pela ditadura, com encenação de Sara Gonçalves e interpretação de David Medeiros, Élio Camacho, Frederico Amaral e Nelson Cabral.

Em São Miguel, Açores, é inaugurada esta quarta-feira a exposição “Natália Correia – Libertação e Absoluto”, na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada. No mesmo espaço encontra-se já patente a exposição “Natália Correia: Do Universo Íntimo – ambientes e arte”. No dia 16, o Observatório Vulcanológico e Geotérmico dos Açores acolhe o encontro “Natália, Uma Força da Natureza”, por iniciativa do Diário de Lagoa e da editora Letras Lavadas, com investigadores, ensaístas e amigos da poeta como Ângela de Almeida, Carlos Melo Bento e Rui Tavares de Faria.

Em Viseu, esta quarta-feira, o Museu Nacional Grão Vasco acolhe o espetáculo do Teatro Off “Dão-nos um lírio e um canivete e uma alma para ir à escola”.

Nos dias 18 e 19, a Faculdade de Letras da Universidade do Porto promove o colóquio “A Filosofia, a Literatura e o Diálogo Inter-Artes”, dedicado a Natália Correia, com a participação de escritores, ensaístas, investigadores como Onésimo Teotónio de Almeida, Vivian Furlan, Nuno Costa Santos, Miguel Real, Fernando Dacosta, José Carlos Pereira e Lígia Rocha.

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