A poucos dias do início da COP-28 no Dubai, dois grupos de católicos portugueses estão a organizar vigílias para a noite desta sexta-feira em Lisboa e Porto, em resposta à exortação do papa Francisco Laudate Deum, do passado dia 4 de outubro. Nela, o líder católico afirma esperar que a próxima cimeira do clima, onde discursará a 2 de dezembro numa estreia papal nestes eventos, resulte em fórmulas de transição energética "que tenham três características: eficientes, vinculantes e facilmente monitoráveis, a fim de se iniciar um novo processo que seja drástico, intenso e possa contar com o empenhamento de todos". E que os decisores políticos que nela participem sejam "capazes de pensar mais no bem comum e no futuro dos seus filhos, do que nos interesses contingentes de algum país ou empresa. Possam assim mostrar a nobreza da política, e não a sua vergonha".
Nesta mensagem, o papa respondeu ainda ao discurso negacionista climático e a "certas opiniões ridicularizadoras e pouco racionais que encontro mesmo dentro da Igreja Católica" e defende que os grupos "ditos 'radicalizados'", com as suas ações para chamar a atenção, "preenchem um vazio da sociedade inteira que deveria exercer uma sã pressão, pois cabe a cada família pensar que está em jogo o futuro dos seus filhos".
Em Lisboa a vigília será acolhida pelo grupo Cuidar da Casa Comum em Santa Isabel e terá lugar na Igreja de Santa Isabel ao longo de treze horas, com iniciativas entre as 18h30 de sexta e as 7h30 de sábado, altura em que João Carvalho entoará o Cântico das Criaturas (São Francisco), tal como o cantou na Praça de São Pedro na oração ecuménica inaugural do último Sínodo Católico. Pela noite dentro não faltarão debates, intervenções musicais, leituras de poesia e de passagens da Laudato Deum e da encíclica Laudato Si, que há oito anos representou uma viragem na abordagem católica face à crise climática que o capitalismo nos deixou.
“Há que chamar a atenção para a oportunidade que não se pode perder mais uma vez. Na linha do que o Papa Francisco deixa muito claro na Laudate Deum, por toda a parte os cidadãos têm de exigir dos seus representantes e dirigentes que sejam mais ambiciosos – tanto quanto for preciso, a bem de toda a humanidade, agora e no futuro – nas medidas que prometem tomar”, adverte a Associação RC – Rede Cuidar da Casa Comum 3, em nota citada pela agência Ecclesia.
À agência Lusa, Jorge Wemans, um dos organizadores da vigília, diz que “é verdade que a crise climática tem levado alguns grupos de jovens a agir, mas o seu foco não é especificamente a COP28”, acrescentando que a iniciativa de hoje quer romper com o silêncio e “permitir uma reflexão ampla sobre a crise climática”, visando sobretudo os acordos que terão de sair do Dubai. Da vigília sairá também uma declaração a entregar aos governantes portugueses presentes na COP-28 com os objetivos que pretendem ver concretizados.
A iniciativa não é restrita à comunidade católica e tem presença confirmada de uma dezena de líderes espirituais das diversas confissões religiosas, além de várias organizações e associações. Na "conversa à roda da lareira" marcada para as 21h15, com o tema "Que resultados devem ser obtidos na COP28?", participam Islene Façanha (Zero), Hugo Paz (Scientists Rebellion), Sara Rodrigues (COP26), Teresa Paiva Couceiro (Fundação Gonçalo da Silveira), Carlos Tito Santos (Ex-conselheiro PNUD Somália), com moderação de Joana Rigato.
No Porto, a vigília “Orar e agir para salvar a vida na Terra” terá lugar também a partir das 18h30, na igreja de Nossa Senhora de Fátima, e é organizada pelo Metanoia – Movimento Católico de Profissionais do Porto, e pelo CREU-IL – Centro de Encontro e Reflexão Universitário.