Catarina garante que “maiorias sociais” podem impor soluções à maioria absoluta

18 de fevereiro 2022 - 10:21

Em entrevista ao Público, Catarina Martins relembra que “as políticas do centrão, por não resolverem os problemas enormes de desigualdades sociais, são o que alimenta o ressentimento que faz crescer a extrema-direita”.

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Foto de Hugo Delgado, Lusa [arquivo].

Numa entrevista publicada na edição desta sexta-feira do jornal Público, a coordenadora do Bloco de Esquerda abordou os resultados eleitorais das eleições legislativas, o seu impacto na esquerda e a necessidade de trabalhar por maiorias sociais que respondam às desigualdades sociais promovidas pelas “políticas do centrão” que dão força à extrema-direita.

“Foram as primeiras eleições legislativas em Portugal com uma extrema-direita forte. Era algo que conhecíamos no resto da Europa, mas ainda não em Portugal”, disse.

“Muita gente à esquerda, com medo, acabou por votar no PS. Todos nós conhecemos pessoas que no dia seguinte às eleições pensaram “não era uma maioria absoluta que eu queria”. Há um ressentimento popular que vai crescendo e alimenta extremismos de direita”, continuou.

Este ressentimento cresce “quando as pessoas veem que o seu salário, mesmo que não tenha cortes, é tão baixo que não suporta os preços dos combustíveis, por exemplo. Sentem uma desigualdade social enorme. Temos um “centrão” que dizendo “somos nós ou a barbárie” engorda de votos como o único que pode fazer frente à extrema-direita. É uma relação muito perigosa”.

“A extrema-direita é o seguro de vida do centrão. Ao mesmo tempo, as políticas do centrão, por não resolverem os problemas enormes de desigualdades sociais, são o que alimenta o ressentimento que faz crescer a extrema-direita. É um círculo vicioso que precisa de ser quebrado”, sintetizou.

Para a coordenadora do Bloco de Esquerda, o desafio nesta legislatura é garantir um “trabalho de maiorias sociais para as matérias mais relevantes. É preciso encontrar um amplo campo comum de luta da gestão climática que não pode ser simplesmente o slogan climático utilizado pelo PS e pela direita, mas sobre propostas concretas. É preciso trabalhar numa maioria social com partidos à esquerda que entendam que é preciso essa mudança, que não se conformam com o PS nem com a ideia do carro elétrico. Como se cada um ter um carro elétrico resolvesse a crise climática”, afirmou.

O Bloco “tem responsabilidades para fazer esse caminho e assume-as”, continuou por dizer. E o mesmo se aplica no campo do trabalho e nas novas formas de precarização. “Estamos a assistir a uma reconfiguração salarial em Portugal. As gerações que tinham contratos coletivos de trabalho, que têm progressões salariais, estão a ser substituídas por gerações com salários muito mais baixos comparativamente às gerações mais velhas, e sem nenhuma capacidade de progressão na carreira. Temos vindo a ter uma capacidade de organização crescente nesses setores, mas claramente precisamos de mais".

Como exemplo de políticas do centrão, Catarina relembra a concertação social, que "foi sempre utilizada como um veto dos patrões aos avanços laborais, mas na verdade o PS já o usava antes. Em 2019 tínhamos feito um acordo sobre trabalho e depois de vir da concertação social veio completamente desfeito, com ideias como a aplicação do período experimental e o PS acabou por aprovar com o PSD. Havia um impasse grande e o PS com maioria absoluta comportar-se-á como o PS sempre se comportou. Sempre se sentiu confortável com esse veto patronal".

Na entrevista, Catarina abordou também o problema da “deterioração do SNS”, que “muita gente entende como apenas um reflexo do grande esforço da pandemia”, Catarina alerta que “não é apenas isso. É a criação objectiva de um amplo mercado para a saúde privada que, a prazo, levará o SNS a ter uma resposta residual para os mais pobres”.