Casa do Alentejo: A casa que a revolução de Abril devolveu às pessoas assinala 90 anos

10 de junho 2013 - 15:11

Ali não entrava “Zé Ninguém” nem homem sem gravata, porque a casa que agora faz 90 anos era – antes da revolução de Abril, que a “escancarou” –“elitista”, dirigida por pessoas “extremamente abastadas”, muitas vezes ligadas ao regime salazarista.

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Nos 90 anos de história da Casa do Alentejo – que começou por chamar-se Grémio Alentejano – cabe uma República recém-nascida, uma ditadura de quase meio século, uma revolução e a democracia.

Do emblemático edifício que a casa ocupa desde 1932, na rua das Portas de Santo Antão – o Palácio Alverca – desfia-se um rol de histórias: foi ali, diz-se, que se esconderam as armas que mataram o Rei. Foi ali que funcionou o “Magestic Club”, um dos primeiros casinos de Lisboa. Foi dali, reza a lenda, que Lula da Silva levou “sorte” para ser eleito Presidente do Brasil, depois de uma eleição perdida.

Ali, a Casa do Alentejo pôs a funcionar, para a sua “elite” de sócios, “uma barbearia com serviço de manicura e engraxadoria”, jogos “de azar” – clandestinos à época – e bailes. Para os migrantes alentejanos mais pobres na capital, criou um posto clínico e uma escola primária.

Com a revolução de 25 de abril de 1974, contou à Lusa o vice-presidente Manuel Verdugo, a Casa do Alentejo “tornou-se completamente aberta, escancarou-se ao mundo”. Essa mudança, segundo ele, expressa aquilo que os alentejanos respondem quando alguém lhes bate à porta: nunca perguntam “quem é?”, dizem sempre “entre”.

Hoje, cabe na casa quem quiser entrar, com ou sem gravata, para almoços ou jantares, para a matiné de dança de domingo, para ouvir cante alentejano ou grupos corais, para uma visita, para uma fotografia, para um copo de vinho e um pão com azeitonas, para um café e uma cerveja, ou para leituras de jornais e na biblioteca. Não cabe “a caridadezinha do antigo regime”.

A casa desenvolve “uma atividade cultural muito intensa” e, diz a direção, juntando a missão de divulgar o património gastronómico alentejano à necessidade de subsistência, mantém um restaurante que serve entre duas e três centenas de refeições por dia, sobretudo a turistas.

“Se a casa não tivesse esta componente comercial, não tínhamos capacidade de a manter aberta”, frisou Manuel Verdugo.

A Casa do Alentejo tem entre 2.000 e 2.500 sócios. Embora olhe para o futuro da associação “de um modo muito positivo”, o vice-presidente reconheceu que “o rejuvenescimento não está a acontecer”. A faixa etária dos associados está entre os 50 e os 60 anos, e os sócios mais jovens são poucos.

“Mas eu considero que a casa tem grandes potencialidades, não só pela sua localização, mas pelo espírito que tem. Abrimos um bar que é frequentado maioritariamente por jovens. Desse ponto de vista, a casa tem muito futuro. Penso que a casa vai ter mais 90 anos, e muito melhores”, concluiu o responsável.

Agostinho Montemor, de 76 anos, natural da Amareleja, é o sócio número 463 da Casa do Alentejo. Passou a porta pela primeira vez, nos anos de 1970, para um pezinho de dança nas matinés de baile. Foi fazendo amigos e ficou.

“Eu entrei para sócio para acabarmos com aqueles preconceitos antigos”, recordou. Agora, a sala onde falou à Lusa junta, aos domingos, “uma família” de sócios em “convívio”, em “amizade”, com “alentejanos e não alentejanos”, mas, assumiu, quase sem jovens.

Porque esta, explicou, é “uma casa aberta”, mas “não deixa de ter umas certas restrições”, e a juventude, cheia de alternativas de lazer, não tem aqui, nestes bailes, “o à vontade que tem numa discoteca”.