Cartografia da Militância Queer
No momento atual, em que a ascensão do fascismo se instala e normaliza na Europa e em países como os EUA ou Argentina, impõe-se uma atuação concertada dos movimentos sociais em três eixos: organização, interseccionalidade e cultivo da(s) memória(s).
O primeiro exige uma resistência Queer organizada, capaz de unir os vários coletivos que dinamizam as Marchas do Orgulho, tornando-as mais politizadas e estruturadas. É necessária mais militância, ou seja, precisamos de mais pessoas. As marchas e os coletivos não sobrevivem sem a participação ativa de todas nós. Precisamos, efetivamente, dos tais 99% que o Manifesto Feminista convoca.
Ter uma perspectiva interseccional nas lutas significa abrir fronteiras sem cair no “identitarismo”. Históricamente o movimento LGBTQIA+ nasceu do diálogo e de alianças com outros movimentos, como o feminista e antirracista. Ainda assim, o movimento Queer precisa de alargar essas alianças. Em Portugal, as Marchas do Orgulho têm demonstrado solidariedade com a autodeterminação do povo da Palestina, apontando um caminho possível. É necessário consolidar esse caminho, integrando a resistência Queer nas múltiplas lutas dos movimentos sociais: pela emancipação feminista, pelo direito à habitação, antirracista, antifascista, pela libertação da Palestina e pela justiça climática. Isso significa também assumir a luta de classes, os direitos laborais e, inevitavelmente, uma perspectiva anticapitalista.
“Existe um ditado africano que diz: enquanto os leões não contarem as suas histórias, os caçadores serão os heróis.” (*) Daí a importância de cultivarmos a(s) memória(s) das vivências (individuais) e dos ativismos (coletivos) Queer. Só assim garantimos que as nossas histórias são contadas por nós e preservadas para as gerações futuras. E se no atual contexto político e social assistimos a um apagamento da memória coletiva, torna-se imperativo construí-la ativamente, pois sem memória não há futuro.
É com base neste último eixo, em diálogo constante com os restantes, que apresento o resultado, humilde, de um mapeamento da Militância Queer em Portugal nos últimos 25 anos.
25 anos de Marchas do Orgulho LGBTQIA+ em Portugal
A “Cartografia da Militância Queer” surge com o objetivo de preservar, documentar e analisar a memória coletiva das Marchas do Orgulho em Portugal. Embora não se trate de um levantamento exaustivo de natureza académica, este projeto procura reunir e sistematizar dados relevantes sobre a geografia das Marchas, os coletivos que as organizam, as suas formas de organização e os principais desafios que enfrentam.
Considerando a dimensão territorial e populacional de Portugal, a existência de 33 cidades com pelo menos uma Marcha LGBTQIA+ constitui um fenómeno politicamente relevante. Inicialmente concentrado em Lisboa, Porto e Coimbra, o movimento expandiu‑se progressivamente para cidades médias e pequenas, sobretudo da região Norte e Centro.
Lutas
“Nem mais um passo atrás”: Marcha do Orgulho LGBTI+ enche Avenida da Liberdade
Entre 2000 e 2010, apenas três cidades organizavam Marchas. Mas foi sobretudo a partir de 2020 que se registou a maior expansão: 60% das Marchas surgiram neste período, muitas delas em contexto pós‑pandemia. Este percurso revela uma expansão significativa do movimento, particularmente recente.
O ano de 2024 registou o maior número de Marchas, com 28 cidades organizadas por 26 coletivos, maioritariamente concentradas nas regiões Norte e Centro. Em 2025, verificou‑se uma redução para 20 cidades, possivelmente associada à fadiga organizativa, à fragilidade estrutural de coletivos recentes e à dificuldade em garantir continuidade em cidades de menor dimensão.
Até ao final de 2025, quatro distritos do continente permanecem sem qualquer Marcha do Orgulho, evidenciando assimetrias territoriais persistentes.
Quem são e como se organizam os coletivos?
O inquérito realizado (entre fevereiro e dezembro de 2025) contou com 20 coletivos. Os dados revelam um movimento maioritariamente informal, descentralizado e de base comunitária: 70% organizam‑se como coletivos informais e nenhum assume a forma jurídica de Associação.
Os coletivos são compostos sobretudo por pessoas em nome individual, com idades maioritariamente entre os 21 e os 40 anos, e funcionam com uma média de 15 pessoas por coletivo, confirmando a pequena escala dos coletivos. A organização interna é predominantemente horizontal, aberta e sem hierarquias formais, com processos de decisão coletivos e forte valorização da participação direta. 85% dos coletivos dedicam-se também a outras causas, como o feminismo, o antirracismo, a luta climática, a habitação ou a solidariedade com a Palestina, evidenciando uma militância interseccional.
Quanto ao financiamento dos coletivos que organizam as Marchas do Orgulho assenta sobretudo em estratégias comunitárias e autossustentadas, privilegiando métodos horizontais, participativos e coerentes com os valores de independência, solidariedade e autogestão. As práticas de economia solidária são também muito comuns entre os coletivos. O financiamento por parte de empresas é muito residual, refletindo uma postura crítica face ao pinkwashing e à mercantilização das lutas LGBTQIA+.
A relação com os Municípios é maioritariamente positiva, com 45% dos coletivos a avaliarem de forma positiva. Por outro lado, cerca de 35% atribuem classificações negativas, apontando entraves burocráticos, falta de apoio logístico, ausência de financiamento e, em alguns casos, resistência política ou ideológica.
O principal desafio identificado pelos coletivos é a escassez de recursos humanos. A reduzida mobilização de pessoas, aliada à precariedade e à acumulação de compromissos pessoais e militantes, o que dificulta a distribuição de tarefas, a aprendizagem da auto‑organização e a consolidação de práticas coletivas duradouras. A sobrecarga recai frequentemente sobre os mesmos membros, comprometendo a continuidade e o planeamento a longo prazo.
Outros obstáculos recorrentes incluem a falta de financiamento, a complexidade logística e burocrática, a ausência de espaços físicos para reuniões e um contexto político e social adverso, marcado pelo crescimento da extrema‑direita e por receios de violência ou represálias. Tudo isso acumulado condiciona diretamente a realização das Marchas.
Apesar dos múltiplos obstáculos, o movimento Queer em Portugal, que assenta sobretudo na militância voluntária e comunitária, demonstra uma extraordinária resiliência e uma forte vontade política de ocupar o espaço público, afirmar direitos e construir visibilidade coletiva.
(*) “Movimento LGBTI+: Uma breve história do século XIX aos nossos dias”, de Renan Quinalha (2022).